Saiba identificar sinais de problemas com a saúde mental na gravidez, indícios de ansiedade e depressão gestacional e entenda quando procurar ajuda profissional.
A gravidez é um momento de expectativa, mudanças e preparativos para a chegada do bebê. Mas também pode trazer medo, preocupação, insegurança e alterações emocionais que nem sempre são fáceis de entender.
Por isso, falar sobre saúde mental na gravidez é tão importante quanto acompanhar exames, alimentação e outras questões físicas durante o pré-natal.
Ansiedade e depressão podem surgir durante a gestação. Em alguns casos, os sintomas também podem ser confundidos com mudanças esperadas desse período. Cansaço, alterações no sono e mudanças no apetite, por exemplo, podem aparecer na gravidez e também fazer parte de um quadro depressivo.
Um estudo publicado em 2024 na revista Healthcare avaliou 346 gestantes atendidas em centros de atenção primária de Al-Ahsa, na Arábia Saudita. A pesquisa identificou diferentes níveis de estresse, ansiedade e depressão entre as participantes e reforçou a importância do rastreamento durante a gestação.
Mas como perceber quando uma preocupação deixa de ser apenas uma reação à gravidez e começa a exigir atenção?
Saúde mental na gravidez: ansiedade e depressão podem aparecer durante a gestação
Ansiedade e depressão não são exclusivamente problemas do pós-parto. Elas também podem começar durante a gravidez. O Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas (ACOG) considera os transtornos de humor e ansiedade condições que podem surgir pela primeira vez durante a gestação, ter começado antes dela ou se intensificar nesse período.
A depressão durante a gravidez, por exemplo, é caracterizada por mais do que momentos passageiros de tristeza. O ACOG descreve a doença como uma condição que pode alterar pensamentos, sentimentos, comportamento e funcionamento no cotidiano.
A ansiedade também pode acontecer durante a gestação e aparecer sozinha ou acompanhada de depressão.
Isso ajuda a colocar uma questão importante em perspectiva: estar grávida não significa que seja preciso aceitar sofrimento emocional intenso como se ele fosse simplesmente parte da experiência.
Quais sinais podem indicar depressão na gravidez?
Alguns sintomas podem parecer semelhantes às mudanças físicas da própria gestação. Por isso, observar a intensidade, a frequência e a persistência dos sinais é importante. De acordo com o ACOG, alguns sinais de depressão durante a gravidez incluem:
- humor deprimido durante grande parte do dia e quase todos os dias
- perda de interesse pelo trabalho ou por outras atividades
- sentimentos de culpa, desesperança ou inutilidade
- dormir mais do que o habitual ou apresentar dificuldade para dormir
- perda de apetite, perda de peso ou aumento importante da alimentação e do peso
- cansaço intenso ou falta de energia
- dificuldade para prestar atenção, se concentrar ou tomar decisões
- agitação ou lentificação perceptível por outras pessoas
- pensamentos relacionados à morte ou ao suicídio
Um sinal isolado não é suficiente para estabelecer um diagnóstico. A avaliação precisa considerar o conjunto dos sintomas e o impacto deles na vida da gestante. A recomendação é conversar com o obstetra quando esses sinais permanecem por pelo menos duas semanas.
Como identificar ansiedade durante a gravidez?
A ansiedade também pode aparecer de diferentes formas durante a gestação. Preocupações com a gravidez, o parto e as mudanças que estão por vir podem acontecer. O problema é quando a ansiedade se torna intensa ou começa a interferir na rotina e no bem-estar.
A avaliação profissional ajuda a diferenciar uma preocupação pontual de um transtorno de ansiedade.
Em uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2024, pesquisadores analisaram diferentes ferramentas utilizadas para identificar depressão e ansiedade durante a gravidez. Entre elas estavam instrumentos como EPDS, PHQ-9 e GAD-7. O trabalho reforçou a relevância do rastreamento para reconhecer essas condições durante o período gestacional.
O estudo realizado na Arábia Saudita também encontrou diferentes níveis de ansiedade entre as 346 participantes. Cerca de 32,9% apresentaram ansiedade moderada e 2,6% apresentaram nível considerado alto pelo instrumento utilizado na pesquisa.
Esses números não devem ser aplicados automaticamente a todas as gestantes. O estudo foi realizado em centros de saúde específicos e utilizou uma amostra determinada. Ainda assim, seus resultados mostram como o rastreamento pode identificar sintomas que poderiam passar despercebidos.
Saúde mental na gravidez também merece acompanhamento no pré-natal
O acompanhamento psicológico não precisa acontecer somente quando os sintomas ficam muito intensos.
A recomendação atual do ACOG é que pessoas recebendo cuidados pré-concepcionais, pré-natais e pós-parto sejam rastreadas para depressão e ansiedade com instrumentos padronizados e validados. O rastreamento deve ocorrer na consulta pré-natal inicial, posteriormente durante a gravidez e também nas consultas após o parto.
Entre os instrumentos usados estão a Escala de Depressão Pós-Natal de Edimburgo, conhecida como EPDS, e o PHQ-9 para depressão. Para ansiedade, um dos instrumentos utilizados é o GAD-7.
Esses questionários não substituem uma avaliação profissional. Eles ajudam a identificar sinais que precisam ser investigados com mais atenção.
Por isso, responder honestamente às perguntas feitas durante o pré-natal pode ser tão importante quanto relatar um sintoma físico.
O que pode estar relacionado à saúde mental na gravidez?
A saúde mental durante a gestação é influenciada por diferentes fatores. Não existe uma única explicação para ansiedade ou depressão nesse período.
Na pesquisa publicada no Healthcare, os níveis de ansiedade apresentaram associação com idade, idade gestacional, número de gestações e partos, histórico de abortos, complicações obstétricas anteriores e suporte social. A depressão também apresentou associações com idade, escolaridade, ocupação, número de partos, abortos, complicações obstétricas anteriores e suporte social.
Essas associações não significam que um determinado fator cause necessariamente ansiedade ou depressão. O próprio desenho do estudo permite identificar relações entre variáveis, mas não estabelecer uma relação de causa e efeito para cada uma delas.
O suporte social, porém, aparece como uma variável relevante na pesquisa. Entre as participantes, 22% relataram não ter apoio social, enquanto outras apontaram parceiro, família ou amigos como fontes de suporte.
Uma revisão sistemática publicada em 2024 também encontrou relação entre a forma como as emoções são reguladas e a ansiedade e a depressão no período perinatal. Estratégias como resolução de problemas e busca de apoio emocional ou instrumental apareceram como fatores potencialmente protetores, enquanto comportamentos como evitação e ruminação foram associados a maior risco ou manutenção dos sintomas.
Quando procurar ajuda para cuidar da saúde mental na gravidez?
Não é preciso esperar chegar ao limite para conversar com um profissional. Se tristeza, preocupação, medo, falta de energia ou outros sintomas persistirem e começarem a interferir na rotina, vale conversar com o obstetra ou com um profissional de saúde mental.
O tratamento depende da avaliação individual. Pode envolver psicoterapia, medicamentos ou uma combinação das duas abordagens, conforme a situação. O ACOG recomenda que os profissionais discutam benefícios e riscos do tratamento medicamentoso quando ele for clinicamente indicado.
A escolha de medicamentos durante a gravidez precisa ser feita com acompanhamento profissional. Não é recomendado interromper, iniciar ou modificar um tratamento por conta própria.
A avaliação também deve considerar a gravidade dos sintomas e a necessidade de acompanhamento contínuo.
Uma revisão publicada em 2024 sobre transtornos de humor e ansiedade no período perinatal destaca a importância da identificação, avaliação, tratamento e encaminhamento adequados.
Cuidar da saúde mental também faz parte do pré-natal
Como citamos ao longo desta matéria, a gravidez envolve muito mais do que acompanhar o desenvolvimento do bebê. A saúde física, e mental, da gestante também precisa ser observada. Portanto, é necessário ter em consideração o estado emocional, os níveis de ansiedade, possíveis sintomas de depressão e a existência de uma rede de apoio.
A evidência científica atual reforça a importância de identificar esses problemas durante o período perinatal. O rastreamento pode ajudar a reconhecer sintomas e encaminhar a gestante para avaliação e tratamento quando necessário.
Por isso, se algo mudou na forma como você está se sentindo, vale falar sobre isso durante o pré-natal. Não é preciso esperar que o sofrimento fique insuportável para pedir ajuda.