Cientistas desenvolveram uma tecnologia baseada em CRISPR capaz de destruir o DNA de células cancerígenas e abrir caminho para tratamentos mais precisos. Entenda como funciona.
Uma nova tecnologia baseada em CRISPR pode representar um dos avanços mais promissores dos últimos anos na luta contra o câncer. Pesquisadores desenvolveram uma estratégia capaz de identificar células tumorais específicas e destruir seu DNA de maneira seletiva, levando essas células à morte enquanto preserva, em teoria, os tecidos saudáveis.
A descoberta foi apresentada em dois estudos publicados na revista científica Nature e chamou atenção da comunidade científica por utilizar uma proteína bacteriana pouco convencional, conhecida como Cas12a2. Diferentemente das ferramentas tradicionais de edição genética, essa enzima não busca corrigir mutações. Em vez disso, ela funciona como um mecanismo programável de eliminação de células doentes.
Os pesquisadores acreditam que a tecnologia pode abrir caminho para tratamentos capazes de atingir tumores considerados "intratáveis" pelas terapias atuais, especialmente aqueles provocados por mutações difíceis de combater com medicamentos convencionais.
Como funciona a nova tecnologia?
Grande parte das pessoas conhece o CRISPR como uma ferramenta de edição genética. Desde sua popularização, a tecnologia passou a ser estudada para corrigir mutações responsáveis por diversas doenças. Neste novo trabalho, porém, o objetivo é diferente.
Em vez de editar o DNA, a enzima Cas12a2 foi programada para reconhecer moléculas específicas de RNA produzidas por células cancerígenas. Quando identifica esse "marcador molecular", ela entra em ação e começa a fragmentar o DNA da própria célula tumoral.
Esse processo provoca danos tão extensos ao material genético que a célula perde completamente sua capacidade de sobreviver e acaba sendo eliminada.
O que torna essa descoberta diferente do CRISPR tradicional?
A maior parte das tecnologias baseadas em CRISPR utiliza proteínas como Cas9 ou Cas12 para realizar cortes extremamente precisos em pontos específicos do DNA.
A Cas12a2 funciona de outra maneira. Depois de reconhecer um RNA característico do tumor, ela passa a degradar o DNA de forma ampla dentro daquela célula. Em vez de fazer um reparo genético, desencadeia um mecanismo que leva à destruição completa da célula afetada.
Por isso, alguns pesquisadores descrevem a estratégia como uma espécie de "autodestruição programada" das células cancerígenas.
Por que os cientistas chamam essa estratégia de "quimioterapia programável"?
A expressão apareceu no próprio estudo divulgado pela Nature. Segundo Yang Liu, pesquisador da Universidade de Utah e um dos autores do trabalho, trata-se de um mecanismo molecular capaz de reconhecer um RNA específico antes de iniciar o processo de destruição celular.
A diferença em relação à quimioterapia convencional está justamente na precisão. Enquanto a quimioterapia tradicional atinge células que se dividem rapidamente, inclusive algumas saudáveis, a nova estratégia procura agir apenas nas células que apresentam o marcador molecular escolhido pelos pesquisadores.
A tecnologia pode atacar cânceres considerados "intratáveis"
Um dos aspectos mais importantes do estudo é o potencial para combater tumores associados às chamadas mutações "undruggable", expressão utilizada para alterações genéticas que ainda não possuem medicamentos capazes de bloqueá-las diretamente.
Entre elas estão mutações no gene TP53, presente em aproximadamente 40% a 50% dos cânceres, e alterações no gene KRAS, relacionadas a alguns dos tumores mais agressivos, como determinados cânceres de pâncreas, pulmão e intestino.
Como a Cas12a2 identifica o RNA produzido por essas mutações, ela pode eliminar especificamente as células que carregam esse defeito genético.
A tecnologia pode atacar cânceres considerados "intratáveis"
Um dos aspectos mais importantes do estudo é o potencial para combater tumores associados às chamadas mutações "undruggable", expressão utilizada para alterações genéticas que ainda não possuem medicamentos capazes de bloqueá-las diretamente.
Entre elas estão mutações no gene TP53, presente em aproximadamente 40% a 50% dos cânceres, e alterações no gene KRAS, relacionadas a alguns dos tumores mais agressivos, como determinados cânceres de pâncreas, pulmão e intestino.
Como a Cas12a2 identifica o RNA produzido por essas mutações, ela pode eliminar especificamente as células que carregam esse defeito genético.
O que mostraram os experimentos?
Os dois estudos publicados na Nature demonstraram que a tecnologia foi capaz de destruir seletivamente células tumorais em experimentos laboratoriais e também em modelos animais.
Nos testes, a Cas12a2 foi programada para reconhecer RNAs produzidos por células com mutações específicas. Depois desse reconhecimento, ocorreu um intenso processo de fragmentação do DNA, ativando mecanismos de dano genético e levando as células cancerígenas à morte.
Os resultados reforçam que o método consegue diferenciar células doentes das saudáveis com base nas assinaturas de RNA.
Ainda não é uma cura para o câncer
Apesar da repercussão internacional, os próprios pesquisadores ressaltam que a descoberta ainda está em fase experimental. Os estudos foram realizados principalmente em células cultivadas em laboratório e em modelos pré-clínicos.
Isso significa que ainda serão necessários diversos testes para confirmar segurança, eficácia e possíveis efeitos adversos antes que a tecnologia possa ser utilizada em pacientes.
Já existe uma empresa desenvolvendo a terapia
Mesmo em estágio inicial, a descoberta já começou a sair dos laboratórios. A empresa alemã Akribion Therapeutics trabalha no desenvolvimento de uma terapia baseada nessa tecnologia voltada inicialmente para tumores de cabeça e pescoço relacionados ao HPV.
A expectativa informada pelos pesquisadores é produzir os primeiros dados clínicos até 2030, caso as etapas regulatórias avancem conforme o esperado.
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