Entenda por que a fibrose cística é chamada de “doença do beijo salgado”, conheça os sintomas, o diagnóstico e os avanços recentes no tratamento.
Você sabia que a fibrose cística é conhecida como a “doença do beijo salgado”? A crença popular dizia que um beijo na testa poderia revelar uma pista dessa doença genética rara. Na fibrose cística, o suor costuma apresentar uma concentração maior de sal. Por isso, a pele pode ter um gosto mais salgado do que o habitual, característica que deu origem ao apelido “doença do beijo salgado”.
Mas a história por trás desse nome vai muito além de uma curiosidade. A fibrose cística é uma doença genética que afeta principalmente os sistemas respiratório e digestório. Ela pode provocar infecções pulmonares recorrentes, dificuldade para ganhar peso e problemas na absorção de nutrientes.
O diagnóstico precoce e o acompanhamento adequado são importantes para controlar as manifestações da doença. E, nos últimos anos, novos tratamentos passaram a atuar diretamente sobre o defeito causado pelas alterações no gene CFTR.
Por que a fibrose cística é chamada de doença do beijo salgado?
Como citamos, o apelido está relacionado ao funcionamento das glândulas sudoríparas. Na fibrose cística, alterações no gene CFTR comprometem uma proteína envolvida no transporte de íons pelas células. Nas glândulas responsáveis pela produção do suor, isso faz com que uma quantidade maior de sal permaneça na transpiração.
O resultado é um suor mais salgado que o habitual. A concentração de sódio e cloreto também pode deixar a pele com esse gosto característico.
A relação foi observada de maneira mais sistemática em 1953, depois de uma onda de calor em Nova York. O médico Paul Di Sant’Agnese registrou que o suor de crianças com fibrose cística apresentava uma concentração anormalmente alta de sal. A observação ajudou, posteriormente, no desenvolvimento do chamado teste do suor, utilizado no diagnóstico da doença.
O teste continua tendo papel importante na investigação da fibrose cística. As diretrizes publicadas em 2017 pela Cystic Fibrosis Foundation, no Journal of Pediatrics, estabeleceram critérios atualizados para o diagnóstico e reforçaram a importância da avaliação do cloreto no suor.
O que causa a fibrose cística?
A fibrose cística é causada por alterações no gene CFTR, sigla para cystic fibrosis transmembrane conductance regulator. A doença tem padrão de herança autossômico recessivo.
Isso significa que a pessoa precisa receber uma cópia alterada do gene de cada um dos pais para desenvolver a doença. Os pais podem ser portadores da alteração genética sem apresentar fibrose cística.
Quando o gene CFTR está alterado, a proteína produzida por ele não funciona adequadamente. Como ela participa do transporte de íons, sua alteração interfere no equilíbrio de água e sais nas secreções do organismo.
Isso ajuda a explicar uma das principais características da doença: a produção de secreções mais espessas.
A revisão “Cystic fibrosis”, publicada em 2024 na revista Nature Reviews Disease Primers, descreve a fibrose cística como uma doença genética rara causada por mutações no CFTR. O trabalho também aborda como o conhecimento sobre esse gene permitiu o desenvolvimento de tratamentos direcionados ao defeito molecular da doença.
Como a fibrose cística afeta o organismo?
Os pulmões estão entre os órgãos mais afetados. O muco mais espesso pode dificultar a limpeza das vias respiratórias. Com isso, bactérias podem permanecer no sistema respiratório, favorecendo infecções e inflamações recorrentes.
A tosse pode se tornar persistente e produtiva. Também podem aparecer chiado, falta de ar, bronquite, pneumonia de repetição e sinusopatias.
No sistema digestório, o problema pode atingir principalmente o pâncreas. A secreção espessa pode dificultar a chegada das enzimas pancreáticas ao intestino. Essas enzimas são importantes para a digestão e a absorção dos nutrientes.
Por isso, pessoas com fibrose cística podem apresentar diarreia com fezes volumosas, gordurosas e de odor forte. Também podem ter dificuldade para ganhar peso e crescer adequadamente.
A gravidade e a combinação dos sintomas variam de uma pessoa para outra. A fibrose cística não se manifesta exatamente da mesma maneira em todos os pacientes.
A revisão “Cystic fibrosis”, publicada em 2021 no The Lancet, descreve a doença como multissistêmica. O artigo relaciona as alterações do CFTR à dificuldade de hidratação e eliminação do muco, além de manifestações como infecções pulmonares crônicas e insuficiência pancreática.
Quais são os sintomas da fibrose cística?
Os sinais podem aparecer ainda nos primeiros meses de vida, mas a apresentação clínica é variável. Entre as manifestações descritas em publicação pelo Instituto PENSI estão:
- suor ou pele com sabor mais salgado
- tosse produtiva recorrente
- chiado no peito
- falta de ar
- pneumonias de repetição
- sinusopatias
- diarreia com fezes muito fétidas e gordurosas
- dificuldade para ganhar peso
- dificuldade de crescimento
- desnutrição relacionada à má absorção de nutrientes
No caso de crianças, a combinação de sintomas respiratórios recorrentes com alterações gastrointestinais pode levar à investigação da doença. Por isso, a identificação precoce faz diferença. O diagnóstico permite iniciar o acompanhamento e organizar o tratamento antes que as complicações avancem.
Como é feito o diagnóstico da fibrose cística?
No Brasil, a investigação pode começar pela triagem neonatal, conhecida como teste do pezinho. Quando há suspeita, outros exames são utilizados para confirmar ou afastar o diagnóstico. Um dos principais é o teste do suor, que mede a concentração de cloreto na transpiração.
Nas diretrizes da Cystic Fibrosis Foundation publicadas em 2017, uma concentração de cloreto no suor igual ou superior a 60 mmol/L é considerada compatível com o diagnóstico de fibrose cística, embora a interpretação deva considerar o quadro clínico e outros dados.
A investigação genética também pode ser utilizada para identificar alterações no gene CFTR.
O objetivo é reunir os resultados dos exames com os sinais clínicos e outras evidências de alteração na função do CFTR. O diagnóstico, portanto, não depende apenas de perceber que o suor está mais salgado.
Como é o tratamento da fibrose cística?
A fibrose cística ainda não tem cura. O tratamento busca controlar os efeitos da doença, preservar a função dos órgãos afetados e melhorar a qualidade de vida.
A rotina pode envolver diferentes estratégias. Entre elas estão medicamentos, inalações, fisioterapia respiratória, acompanhamento nutricional e reposição de enzimas pancreáticas quando há insuficiência pancreática.
A alimentação também recebe atenção especial. Pessoas com a doença podem precisar de uma dieta com maior aporte calórico, além de suplementos e vitaminas, conforme a necessidade individual.
O acompanhamento costuma envolver diferentes profissionais de saúde. Pneumologistas, fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogos, farmacêuticos, enfermeiros e gastroenterologistas podem participar do cuidado.
O Instituto PENSI também relata que a prática de atividade física pode fazer parte da rotina de pessoas com fibrose cística, com benefícios relacionados à capacidade cardiopulmonar, ao fortalecimento da musculatura respiratória e à limpeza das vias aéreas.
Por que o diagnóstico precoce é tão importante?
A fibrose cística exige acompanhamento contínuo. Quanto mais cedo a doença é identificada, mais rapidamente podem ser iniciados os cuidados necessários.
A triagem neonatal tem justamente esse papel de levantar suspeitas antes mesmo que os sintomas se tornem evidentes. Quando o resultado indica possibilidade de fibrose cística, exames complementares são necessários para confirmar o diagnóstico.
O acompanhamento também permite monitorar a função pulmonar, o estado nutricional e outras manifestações ao longo do tempo.
Um estudo de revisão publicado em 2022 no periódico Pediatric Pulmonology, “Increasing life expectancy in cystic fibrosis: Advances and challenges”, mostrou como os avanços no cuidado da doença contribuíram para mudanças importantes na qualidade de vida e na longevidade das pessoas com fibrose cística.
A evolução, portanto, não está apenas nos medicamentos. Ela envolve diagnóstico, acompanhamento multidisciplinar, tratamento das complicações e novas terapias capazes de atuar diretamente sobre o defeito causado pelas alterações no CFTR.
O que o “beijo salgado” realmente significa?
Ressaltamos que sentir a pele de alguém mais salgada não é, de forma isolada, uma forma de diagnosticar fibrose cística. O apelido existe porque a doença altera a concentração de sal no suor, uma característica que ajudou pesquisadores a desenvolver uma ferramenta importante para investigação da condição.
O teste do suor continua sendo um dos principais exames utilizados nesse processo. Por isso, a “doença do beijo salgado” é muito mais do que um nome curioso. O termo guarda uma parte importante da história da fibrose cística e de como uma característica aparentemente simples ajudou a abrir caminho para o diagnóstico da doença.
Hoje, a compreensão sobre a fibrose cística é muito maior. O gene responsável foi identificado, os mecanismos da doença foram estudados em detalhes e novas terapias passaram a atuar diretamente sobre a proteína CFTR.
Ainda há desafios. Mas o avanço científico já transformou o cuidado de muitas pessoas que vivem com a doença.