Surto de sarampo em SP reacende alerta nacional. Entenda como o Brasil perdeu a eliminação da doença e o que fazer para se proteger agora.
O sarampo voltou a chamar a atenção e preocupa as autoridades de saúde em 2026 após a confirmação de novos casos em São Paulo. Até 11 de agosto, o estado contabilizava 23 casos, sendo 20 na capital, dois em São Bernardo do Campo e um em Guarulhos. Diante da transmissão, o Ministério da Saúde ampliou a recomendação de vacinação nesses três municípios para pessoas de 6 meses a 59 anos, independentemente do histórico vacinal.
A situação levanta uma dúvida importante: se o Brasil havia eliminado a circulação endêmica do sarampo, por que a doença voltou a aparecer? A resposta passa pela combinação de casos relacionados à importação do vírus, circulação internacional de pessoas e existência de indivíduos sem proteção vacinal ou com o esquema incompleto.
O que está acontecendo: o surto de sarampo em São Paulo
O Brasil recebeu novamente, em novembro de 2024, a certificação da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) de eliminação da circulação endêmica do sarampo. Isso significa que o país conseguiu interromper a transmissão contínua do vírus dentro do território. Não significa que o vírus tenha desaparecido do mundo ou que novos casos importados não possam ocorrer.
Em 2026, São Paulo passou a concentrar uma nova cadeia de transmissão. O Ministério da Saúde informou, em 28 de julho, que havia 14 casos confirmados no Brasil naquele momento. Onze estavam relacionados ao surto ativo em São Paulo e São Bernardo do Campo. A investigação apontava relação com a importação do vírus, em uma região marcada por intensa mobilidade populacional e fluxo internacional de viajantes.
O número aumentou nas semanas seguintes. Em 11 de agosto, a Secretaria Estadual da Saúde de São Paulo contabilizava 23 casos confirmados no estado. A capital concentrava 20 deles, enquanto São Bernardo do Campo tinha dois e Guarulhos, um.
Na cidade de São Paulo, os dados oficiais da Secretaria Municipal da Saúde registravam 12 casos até 29 de julho. A atualização posterior apontou crescimento do número de confirmações no município. A situação levou à intensificação da vacinação e das ações de vigilância. O objetivo é interromper a transmissão e evitar que a doença volte a estabelecer circulação endêmica no país.
Como o surto de sarampo começou
A cadeia atual está relacionada à importação do vírus. O Ministério da Saúde informou que os casos identificados em São Paulo, Guarulhos e São Bernardo do Campo indicavam uma cadeia de transmissão relacionada à importação.
Isso acontece porque o sarampo continua circulando em diferentes partes do mundo. Pessoas infectadas podem viajar e introduzir o vírus em locais onde a transmissão endêmica já foi interrompida.
A mobilidade internacional é especialmente relevante para São Paulo. O próprio Ministério da Saúde descreveu a região atingida pelo surto como uma área com intenso fluxo internacional de viajantes e circulação de pessoas provenientes de outros países.
Esse cenário também ajuda a entender por que a vacinação continua importante mesmo quando um país conseguiu eliminar a circulação endêmica.
O que o Ministério da Saúde está recomendando
O Ministério da Saúde recomendou que São Paulo, Guarulhos e São Bernardo do Campo ampliem a vacinação contra o sarampo para todas as pessoas de 6 meses a 59 anos, durante a Campanha de Multivacinação, que acontece de 3 de agosto a 1º de setembro. A estratégia é indiscriminada, ou seja, a recomendação foi ampliada mesmo para quem já possui registro de vacinação.
A vacina é oferecida gratuitamente pelo SUS. Para bebês de 6 a 11 meses, existe ainda a chamada dose zero em situações de circulação do vírus. Essa dose é adicional e não substitui as doses previstas no calendário de rotina. Depois dela, a criança deve receber normalmente a primeira dose aos 12 meses e a segunda aos 15 meses.
A estratégia de dose zero já havia sido adotada na capital paulista e em Guarulhos. Em julho, o Ministério da Saúde também recomendou a medida para São Bernardo do Campo.
Sarampo era considerado eliminado no Brasil?
Sim, mas é importante entender o que isso significa. Em 2016, as Américas foram declaradas livres da circulação endêmica do sarampo e o Brasil fazia parte desse cenário.
A situação mudou após a reintrodução do vírus. Um surto iniciado em 2018 levou à retomada da transmissão endêmica no Brasil em 2019, ano em que foram registrados mais de 21 mil casos no país. O Brasil perdeu então seu status de eliminação.
A transmissão endêmica foi interrompida posteriormente. O último caso relacionado à transmissão endêmica ocorreu em junho de 2022. Depois de manter a interrupção por período suficiente, o país foi novamente certificado pela OPAS em novembro de 2024.
A situação de 2026 é diferente da que levou à perda do certificado em 2019. O Ministério da Saúde afirma que o Brasil mantém atualmente o status de país livre da circulação endêmica do sarampo. Casos importados ou relacionados à importação, por si só, não significam que a doença tenha voltado a circular de forma endêmica.
Por isso, o objetivo das autoridades agora é impedir que a cadeia de transmissão cresça e se estabeleça.
Por que uma doença eliminada está voltando a circular?
A eliminação da transmissão endêmica não impede a entrada do vírus no país. Para que uma cadeia de transmissão se mantenha, porém, é necessário que o vírus encontre pessoas suscetíveis.
É nesse ponto que a vacinação ganha importância. Em 2025, a cobertura nacional da primeira dose da tríplice viral chegou a 92,9%, enquanto a segunda dose ficou em 78,3%. A meta utilizada para o controle do sarampo é de 95% de cobertura.
Nos três municípios paulistas incluídos na estratégia especial de vacinação, as coberturas também estavam abaixo dessa meta para pelo menos uma das doses. Em 2025, São Paulo registrou 90,79% para a primeira dose e 83,63% para a segunda; Guarulhos teve 91,59% e 83,90%; e São Bernardo do Campo, 90,84% e 83,62%, respectivamente.
Outro dado ajuda a entender a relação entre vacinação e o surto. Em 2025, o Brasil confirmou 38 casos de sarampo. Desses, 36 ocorreram em pessoas sem histórico de vacinação, de acordo com nota técnica do Ministério da Saúde.
Assim, dois fatores se encontram: o vírus pode chegar por meio de viagens e circulação internacional, enquanto a existência de pessoas não imunizadas ou com esquema incompleto oferece espaço para novas transmissões.
Por que o sarampo se espalha tão rápido?
O sarampo está entre as doenças infecciosas mais transmissíveis. O vírus passa de uma pessoa para outra pelo ar, especialmente quando alguém infectado tosse, espirra, fala ou respira próximo de outras pessoas. O Ministério da Saúde informa que uma pessoa infectada pode transmitir a doença para até 90% das pessoas próximas que não estejam imunes.
A transmissão também começa antes de as manchas características aparecerem e ela pode ocorrer desde seis dias antes até quatro dias depois do surgimento do exantema, que é o nome dado às manchas vermelhas na pele.
A capacidade de disseminação do vírus também aparece na literatura científica. O estudo “The basic reproduction number (R0) of measles: a systematic review”, publicado em 2017 no periódico The Lancet Infectious Diseases, analisou 18 estudos e 58 estimativas do número básico de reprodução do sarampo. O trabalho destaca a elevada transmissibilidade da doença e mostra que as estimativas de R0 variam de acordo com o contexto.
É justamente essa combinação de alta transmissibilidade e existência de pessoas suscetíveis que torna a vacinação tão importante.
Quais são os sintomas e como reconhecer o sarampo?
O sarampo costuma começar com sintomas que podem se parecer com os de outras infecções respiratórias. Por isso, não é possível confirmar a doença apenas olhando para um sintoma isolado. A sequência mais comum é:
- Após a exposição ao vírus, existe um período de incubação. Para o início do exantema, ele pode variar de 7 a 21 dias.
- Surgem sintomas como febre alta, geralmente acima de 38,5 °C, tosse seca, coriza, conjuntivite e mal-estar intenso.
- Em torno de três a cinco dias depois, aparecem as manchas vermelhas. Elas costumam começar no rosto e atrás das orelhas e depois se espalham pelo restante do corpo.
- Também podem aparecer as chamadas manchas de Koplik, pequenos pontos esbranquiçados na parte interna da boca, antes do surgimento do exantema.
A presença de febre alta acompanhada de manchas e de sintomas como tosse, coriza ou conjuntivite é considerada situação compatível com suspeita de sarampo na vigilância epidemiológica.
Riscos e complicações
O sarampo não é apenas uma doença que provoca febre e manchas na pele. Ele pode causar complicações em diferentes órgãos. Entre elas estão pneumonia, otite média e encefalite. Complicações neurológicas são menos frequentes, mas podem ser graves.
Uma revisão publicada no Journal of Infectious Diseases em 2004, intitulada “The clinical significance of measles: a review”, descreveu a pneumonia, o crupe e a encefalite entre as principais complicações associadas às mortes por sarampo. O trabalho também apontou maior frequência de complicações em crianças menores de 5 anos e adultos com mais de 20 anos.
O Ministério da Saúde também destaca pneumonia, otite média aguda e encefalite entre as possíveis complicações.
Por que o sarampo é mais perigoso em crianças pequenas e não vacinados?
Crianças pequenas estão entre os grupos que podem desenvolver formas mais graves da doença. Bebês com menos de 1 ano são particularmente importantes nas estratégias de vacinação porque ainda não chegaram à idade da primeira dose de rotina.
É justamente por isso que, diante de circulação do vírus, pode ser indicada a dose zero entre 6 e 11 meses. Ela antecipa a proteção sem substituir as doses previstas posteriormente.
A falta de vacinação também está diretamente relacionada aos casos recentes. Dos 38 casos confirmados no Brasil em 2025, 36 ocorreram em pessoas sem histórico vacinal.
Como se proteger: vacinação e cuidados
A vacinação é a principal forma de prevenção do sarampo e está disponível gratuitamente no SUS. Na rotina, o calendário prevê:
- Crianças: primeira dose aos 12 meses e segunda aos 15 meses
- Pessoas de 12 meses a 29 anos: duas doses quando não há comprovação de vacinação
- Pessoas de 30 a 59 anos: uma dose quando não há comprovação de vacinação
- Trabalhadores da saúde: duas doses, independentemente da idade
Em São Paulo, Guarulhos e São Bernardo do Campo, a recomendação foi ampliada em 2026 para pessoas de 6 meses a 59 anos, durante a campanha, independentemente do histórico vacinal.
Quem deve tomar a vacina agora e onde?
Quem mora nos municípios de São Paulo, Guarulhos ou São Bernardo do Campo deve procurar uma unidade de vacinação durante a campanha e verificar a orientação para sua faixa etária.
A campanha de multivacinação começou em 3 de agosto e segue até 1º de setembro de 2026. A vacina contra o sarampo é oferecida gratuitamente pelo SUS. Para quem está fora desses três municípios, a recomendação depende da idade, do histórico vacinal e de eventuais estratégias definidas pelas autoridades de saúde.
Como consultar a própria carteira de vacinação
O primeiro passo é procurar a caderneta física de vacinação e conferir se existem registros das doses contra o sarampo.
Se a carteira foi perdida, está incompleta ou você simplesmente não sabe se recebeu as doses necessárias, procure uma unidade de saúde. O Ministério da Saúde orienta que a caderneta seja verificada e atualizada conforme o Calendário Nacional de Vacinação.
Para crianças, também é possível acompanhar a caderneta pelo Meu SUS Digital, conforme as funcionalidades disponibilizadas pelo Ministério da Saúde.
Em situações de dúvida, não é necessário tentar reconstruir sozinho o histórico de vacinação. A equipe da unidade de saúde pode orientar sobre a necessidade de atualização.
Perguntas frequentes sobre o sarampo
Sarampo pega duas vezes?
Não. O Ministério da Saúde informa que uma pessoa que teve sarampo adquire imunidade contra a doença e não contrai novamente.
Mesmo assim, quem já teve sarampo deve procurar orientação sobre vacinação. O Ministério da Saúde recomenda a vacinação porque os imunizantes disponíveis também protegem contra outras doenças. A tríplice viral protege contra sarampo, caxumba e rubéola, enquanto a tetraviral também inclui proteção contra varicela.
Grávida pode tomar a vacina contra sarampo?
Não. A vacina tríplice viral é contraindicada durante a gestação. Mulheres que não foram vacinadas ou que possuem esquema incompleto devem receber a vacina no período após o parto, conforme orientação do Ministério da Saúde.
Quem já teve sarampo precisa se vacinar?
O Ministério da Saúde orienta que sim. A justificativa é que as vacinas disponíveis protegem também contra outras doenças. Por isso, quem já teve sarampo deve verificar sua situação vacinal em uma unidade de saúde.
Sarampo tem cura?
Não existe um medicamento antiviral específico para eliminar o vírus do sarampo. O tratamento é baseado principalmente em cuidados de suporte e no acompanhamento do paciente para identificar e tratar possíveis complicações.
Isso não significa que toda pessoa com sarampo terá uma evolução grave. Mas a doença pode provocar complicações importantes, especialmente em grupos mais vulneráveis. Por isso, diante de sintomas compatíveis, é importante buscar avaliação de um serviço de saúde.
A vacina contra o sarampo é segura?
As vacinas tríplice viral e tetraviral são consideradas bem toleradas pelo Ministério da Saúde. Podem ocorrer eventos adversos, geralmente leves, e a vacinação continua sendo a principal forma de prevenção da doença.
Quem tomou duas doses precisa tomar outra?
Na rotina, quem tem o esquema completo para sua faixa etária não precisa de uma nova dose apenas por rotina. Porém, em situações de surto ou risco de transmissão, as autoridades podem ampliar a vacinação. É o que ocorreu em 2026 nos municípios de São Paulo, Guarulhos e São Bernardo do Campo, onde a recomendação foi estendida para pessoas de 6 meses a 59 anos independentemente do histórico vacinal.
Esta matéria tem caráter educativo e informativo, e não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento médico profissional. Sempre consulte seu médico antes de alterar hábitos relacionados à saúde. Em caso de emergência, ligue imediatamente para o SAMU (192) ou Bombeiros (193).
ⓘ Este artigo foi revisado pela equipe editorial de saúde do nosso veículo e está em conformidade com nossa Política Editorial de Conteúdo Médico.