Apesar da presença de tirzepatida, a Anvisa ressalta que não há comprovação de segurança ou eficácia nas canetas contrabandeadas do Paraguai.
Quem utiliza ou pensa em comprar canetas para emagrecimento precisa redobrar a atenção antes de confiar em informações compartilhadas nas redes sociais. A Anvisa esclareceu nesta terça-feira (7) que é falsa a afirmação que circula nas redes sociais de que testes laboratoriais comprovaram que as canetas emagrecedoras contrabandeadas do Paraguai são originais e equivalentes às opções registradas no Brasil.
Segundo a agência, embora análises tenham identificado a presença do princípio ativo tirzepatida em alguns produtos irregulares, isso não significa que eles apresentem a mesma qualidade, segurança ou eficácia dos medicamentos aprovados para comercialização no país.
O que disse a Anvisa?
A Anvisa informou que não existem evidências científicas que comprovem a equivalência entre canetas contrabandeadas contendo tirzepatida e os medicamentos registrados no Brasil. O comunicado foi divulgado após a circulação de informações que interpretavam de forma equivocada resultados de análises laboratoriais realizadas pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
De acordo com a agência, para que um medicamento seja considerado equivalente a outro, não basta identificar a presença do princípio ativo, é necessário realizar estudos específicos capazes de demonstrar que ambos possuem as mesmas características físico-químicas, concentração adequada e comportamento semelhante no organismo.
Entre esses estudos, um dos mais importantes é o teste de bioequivalência, que avalia como o medicamento é absorvido pelo corpo, qual concentração alcança na corrente sanguínea e quanto tempo permanece no organismo antes de ser eliminado. Segundo a agência, esse tipo de avaliação deve ser conduzido por centros de bioequivalência credenciados — o que não é o caso do laboratório da Unicamp.
Através do comunicado oficial, a Anvisa explicou que o Centro de Informação e Assistência Toxicológica da Unicamp (CIATox) realizou apenas análises para verificar a presença, a concentração e a estrutura molecular da tirzepatida em produtos contrabandeados. Sendo assim, a pesquisa feita pelo laboratório tinha o intuito apenas de investigar se havia princípio ativo nas amostras analisadas e não se eram equivalentes aos medicamentos registrados ou se apresentavam o mesmo desempenho clínico.
A agência ressalta ainda que não foram avaliados aspectos essenciais para garantir a segurança dos medicamentos, como a presença de impurezas, contaminantes, produtos de degradação, esterilidade e metais pesados. Também não houve avaliação da biodisponibilidade, considerada um dos fatores mais importantes para determinar se dois medicamentos apresentam o mesmo efeito no organismo.
Segundo a Anvisa, o processo de registro de um medicamento envolve uma avaliação extensa da formulação, do processo produtivo, dos controles de qualidade, da validação dos métodos analíticos e de estudos clínicos que comprovem eficácia e segurança. Além disso, as fabricantes precisam demonstrar o cumprimento das Boas Práticas de Fabricação.
No caso dos produtos analisados pela Unicamp, as empresas responsáveis pela fabricação não passaram por inspeção da Anvisa, e a agência informou que não teve acesso aos laudos técnicos nem às metodologias utilizadas nas análises. Dessa forma, não é possível garantir a qualidade ou a segurança desses medicamentos contrabandeados.
Por que a bioequivalência é tão importante?
Medicamentos com o mesmo princípio ativo podem apresentar diferenças relevantes quando são produzidos sem controle adequado de qualidade. A forma como o organismo absorve o medicamento influencia diretamente sua eficácia e também o risco de efeitos adversos.
Por isso, estudos de bioequivalência fazem parte das exigências regulatórias para diversos medicamentos comercializados no Brasil. Eles ajudam a garantir que o produto produza o efeito esperado de forma consistente e segura. Sem essas avaliações, não é possível afirmar que dois medicamentos ofereçam os mesmos benefícios clínicos, mesmo quando apresentam o mesmo princípio ativo em análises laboratoriais.
Como reduzir os riscos ao comprar medicamentos
A Anvisa orienta que medicamentos sejam adquiridos apenas em estabelecimentos autorizados e por canais de venda regulares. Produtos de origem desconhecida ou comercializados de forma irregular podem não atender aos padrões de qualidade exigidos para uso humano.
Além da composição do medicamento, fatores como armazenamento, transporte e condições de fabricação também influenciam sua segurança e eficácia. Quando essas etapas não são controladas, aumenta o risco de contaminação, degradação do produto ou dosagem inadequada.
Sendo assim, antes de iniciar qualquer tratamento, a recomendação é buscar orientação de um profissional de saúde e utilizar apenas medicamentos regularizados pelos órgãos competentes.
O que fazer diante de dúvidas sobre um medicamento
Antes de comprar um remédio fora dos canais oficiais, o consumidor pode verificar a situação regulatória do produto diretamente no site da Anvisa, que disponibiliza consultas públicas sobre registros de medicamentos.
Em caso de suspeita de falsificação ou contrabando, a orientação é notificar a vigilância sanitária local e, se possível, preservar a embalagem e a nota fiscal do produto, informações que ajudam nas investigações e na proteção de outros consumidores.