Novo surto de ebola causado pela cepa Bundibugyo preocupa autoridades de saúde pela rápida disseminação, ausência de vacina e avanço em áreas urbanas.
O avanço de um novo surto de ebola na África voltou a colocar autoridades sanitárias internacionais em estado de alerta. Nas últimas semanas, a Organização Mundial da Saúde, a OMS, classificou a situação como emergência de saúde pública de importância internacional após o aumento acelerado de casos na República Democrática do Congo e registros da doença em Uganda. O que mais preocupa especialistas, porém, é que este novo cenário apresenta diferenças importantes em relação a surtos anteriores.
Desta vez, o vírus envolvido é o Bundibugyo, uma variante menos conhecida do ebola e que ainda não possui vacina ou tratamento específico aprovado. Além disso, autoridades vêm demonstrando preocupação com a velocidade de transmissão, a presença de casos em áreas urbanas e a possibilidade de disseminação regional.
O novo surto também chama atenção por ocorrer em regiões com conflitos armados, dificuldade logística e sistemas de saúde fragilizados, fatores que historicamente dificultam o controle da doença.
O que é o ebola?
O ebola é uma doença viral grave, frequentemente fatal, causada por vírus da família Filoviridae. A enfermidade foi identificada pela primeira vez em 1976 e costuma provocar surtos principalmente em países africanos.
Segundo a OMS, a transmissão ocorre por contato direto com sangue, secreções e fluidos corporais de pessoas infectadas. O contato com superfícies contaminadas também pode espalhar o vírus.
Os sintomas iniciais incluem febre alta, dores no corpo, fraqueza intensa e mal-estar. Em quadros mais graves, o paciente pode apresentar vômitos, diarreia, sangramentos internos e externos e falência múltipla de órgãos.
A taxa de mortalidade varia conforme o surto e o acesso ao tratamento, mas historicamente o ebola é considerado uma das doenças infecciosas mais letais do mundo. Segundo a OMS, alguns surtos anteriores chegaram a registrar mortalidade próxima de 90%.
Por que este surto é considerado diferente?
Especialistas apontam uma combinação de fatores que tornou o atual surto especialmente preocupante.
O principal deles envolve justamente a cepa Bundibugyo. Diferentemente de outras variantes do ebola para as quais já existem vacinas experimentais e protocolos mais consolidados, esta versão ainda não possui imunizantes aprovados nem tratamentos específicos amplamente disponíveis.
Outro ponto crítico é a velocidade da disseminação. A OMS afirmou estar “profundamente preocupada” com a escala e o ritmo do avanço da doença.
Além disso, parte dos casos foi registrada em áreas urbanas, incluindo Kampala, capital de Uganda, e regiões populosas da República Democrática do Congo. Isso muda completamente a dinâmica do controle epidemiológico, já que grandes centros urbanos facilitam deslocamentos e aumentam o risco de transmissão.
Segundo autoridades sanitárias, o número real de casos pode ser muito maior do que os oficialmente confirmados até agora.
Casos em profissionais de saúde aumentam preocupação
Outro detalhe que elevou o nível de alerta internacional envolve o registro de infecções entre profissionais de saúde.
Quando médicos, enfermeiros e equipes hospitalares passam a ser contaminados, especialistas entendem que existe transmissão associada ao atendimento médico e dificuldade de controle nos protocolos hospitalares.
A OMS também demonstrou preocupação com o fato de parte dos casos surgir em regiões marcadas por conflitos armados, deslocamentos populacionais e baixa infraestrutura hospitalar. Isso dificulta o rastreamento de contatos, o isolamento adequado e o acesso rápido ao diagnóstico.
OMS elevou risco para “muito alto”
Na última semana, a OMS elevou oficialmente o nível de risco do surto na República Democrática do Congo para “muito alto” em escala nacional. O risco regional foi classificado como “alto”, enquanto o risco global segue considerado baixo neste momento.
Mesmo assim, a declaração de emergência internacional demonstra que a organização considera necessário ampliar a coordenação entre países e acelerar medidas de vigilância epidemiológica. Segundo dados divulgados recentemente, o Congo já soma dezenas de casos confirmados, centenas de casos suspeitos e um número crescente de mortes associadas ao vírus.
Existe risco para o Brasil?
Até o momento, autoridades sanitárias afirmam que o risco de disseminação para o Brasil permanece baixo. A própria Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo informou recentemente que não existe transmissão local do vírus no continente sul-americano e destacou que não há voos diretos entre as áreas afetadas e a América do Sul.
Outro fator importante é que o ebola não se transmite pelo ar como vírus respiratórios. A transmissão ocorre principalmente por contato direto com fluidos corporais de pessoas sintomáticas contaminadas. Ainda assim, estados brasileiros reforçaram protocolos de vigilância para identificação de casos suspeitos em viajantes vindos de regiões afetadas.
Por que surtos de ebola acontecem com frequência na região?
A República Democrática do Congo registra surtos recorrentes de ebola há décadas. Especialistas apontam fatores ambientais e estruturais para explicar esse cenário.
A região abriga extensas áreas florestais com presença de morcegos frugívoros, considerados reservatórios naturais do vírus. Além disso, dificuldades econômicas, conflitos armados e limitações no sistema de saúde dificultam o controle rápido das epidemias.
Segundo a OMS, o maior surto da história aconteceu entre 2014 e 2016, quando o vírus se espalhou por diferentes países da África Ocidental e causou milhares de mortes.
Garanta sua assinatura da versão impressa da Revista para aproveitar vantagens exclusivas e receber o nosso conteúdo em casa todos os meses.