Estudos recentes mostram que o colesterol normal não garante a saúde do coração. Conheça os fatores de risco silenciosos e saiba como identificá-los e o que fazer para proteger seu coração.
Por muito tempo, cuidar do coração significou basicamente manter o colesterol controlado. Mas novos estudos apontaram que o coração pode estar sob ameaça mesmo quando o colesterol está dentro da faixa considerada normal. Isso porque existem outros processos que podem afetá-lo.
Apesar desses "inimigos silenciosos" serem extremamente prejudiciais para a nossa saúde, eles podem ser monitorados com exames simples e, na maioria dos casos, controlados com mudanças de hábito. Ficou curioso? Reunimos aqui os 7 inimigos silenciosos do coração mais estudados atualmente, com o que a pesquisa mais recente diz sobre cada um e como driblá-los na prática.
Quais são os 7 inimigos silenciosos do coração?
Nem sempre o coração dá sinais claros de que algo não vai bem. Alguns fatores de risco cardiovascular podem ser silenciosos e evoluir durante anos sem provocar sintomas perceptíveis. Conhecer e acompanhar esses indicadores é uma das formas mais importantes de agir antes que o problema se manifeste. Veja 7 deles a seguir:
- Gordura visceral (o excesso de gordura abdominal, ao redor dos órgãos)
- Colesterol LDL alto e HDL baixo
- Triglicerídeos elevados
- Pressão arterial acima de 130/80 mmHg
- Proteína C-reativa (PCR) elevada
- Resistência à insulina
- Homocisteína elevada
A seguir, entenda como cada um desses fatores pode afetar o seu coração, quais sinais e exames merecem atenção e, principalmente, o que pode ser feito no dia a dia para reduzir os riscos
1. Gordura corporal
Embora o excesso de gordura em si já seja prejudicial para a nossa saúde, especialistas apontam que nem toda gordura corporal representa o mesmo risco. A gordura visceral por exemplo, aquela que se acumula ao redor dos órgãos internos, é metabolicamente ativa. Isso significa que ela não é apenas um “depósito” de gordura, ela pode liberar hormônios, citocinas e outras substâncias inflamatórias que influenciam o metabolismo, a sensibilidade à insulina e a saúde cardiovascular. Já a gordura localizada no quadril, nas coxas e nos glúteos, por exemplo, embora ruins, tem um comportamento bem menos agressivo para o coração.
Um estudo apresentado na American Heart Association em março de 2026 acompanhou milhares de adultos e constatou que a gordura abdominal prevê risco de insuficiência cardíaca de forma mais precisa do que o índice de massa corporal (IMC), inclusive em pessoas com peso considerado normal. Segundo os pesquisadores, a explicação estaria na inflamação gerada por esse tipo de gordura.
Além disso, um outro estudo publicado na revista Communications Medicine reforça a ligação entre gordura visceral e formação de placas nas artérias do pescoço — um sinal precoce de aterosclerose.
O que fazer para diminuir a gordura corporal, principalmente a viceral?
O primeiro passo é fazer o acompanhamento da circunferência abdominal. Ela é um indicador mais confiável do que a balança para saber o quanto de gordura você tem.
Para fazer a medição de forma correta, use uma fita métrica flexível e posicione-a ao redor do abdômen na altura do umbigo. Mantenha a fita firme, mas sem apertar a pele. E lembre-se de relaxar o abdômen e respirar normalmente no momento da leitura.
Para mulheres, uma circuferência abdominal abaixo de 80 cm, significa risco normal ou baixo para doenças metabólicas e cardíacas. De 80 cm a 87 cm, risco aumentado. Se o valor for maior que 87 cm, o risco é muito alto e já é considerado um sinal de alerta grave para problemas cardiovasculares e diabetes.
No caso dos homens os valores são diferentes. Abaixo de 94 cm, o risco de ter complicações de saúde é considerado normal ou baixo. De 94 cm a 101 cm, o risco aumenta para doenças do coração e distúrbios metabólicos. O risco é considerado muito alto quando o valor está acima de 102 cm.
Se você observar que está fora do padrão considerado normal ou baixo, é hora de agir. Priorize atividade física regular, especialmente exercícios que combinem força e aeróbico, já que ajudam a reduzir especificamente a gordura abdominal.
Por fim, garanta que você está dormindo o suficiente e controle o estresse crônico. Esses dois fatores frequentemente estão associados à ansiedade, que estimulam a compulsão alimentar que leva ao acúmulo de gordura visceral.
2. Colesterol
Concentrações excessivas do colesterol “ruim” (LDL) na corrente sanguínea constituem a base para o acúmulo de placas nas paredes arteriais. Uma diminuição do colesterol “bom” (HDL) é igualmente problemática.
Em março de 2026, o American College of Cardiology e a American Heart Association, junto com outras nove sociedades médicas, publicaram uma atualização das diretrizes de manejo do colesterol. O novo documento reforça metas de LDL mais rigorosas para quem apresenta maior risco cardiovascular. Para pessoas de baixo risco, a meta é LDL abaixo de 115 mg/dL; para risco intermediário, abaixo de 100 mg/dL; alto risco, abaixo de 70 mg/dL; muito alto, abaixo de 50 mg/dL; e, na categoria de risco extremo, abaixo de 40 mg/dL. Para as categorias de risco alto, muito alto e extremo, a recomendação também é reduzir o LDL em pelo menos 50%.
O que fazer para diminuir o colesterol?
O primeiro passo é manter o acompanhamento com um nutricionista para garantir uma dieta saudável e equilibrada, evitando carnes gordas, frituras e alimentos industrialiados. Outro ponto importante é aumentar o consumo de fibras solúveis, presentes em aveia, leguminosas e frutas, que ajudam a reduzir o LDL.
3. Triglicerídeos
Os triglicerídeos são um tipo de gordura que circula no sangue e serve como reserva de energia. E, embora tenham uma função importante, em excesso, contribuem para o mesmo processo de obstrução das artérias associado ao colesterol ruim.
Uma revisão publicada no European Heart Journal em 2025 reafirmou que triglicerídeos elevados estão associados a maior risco cardiovascular mesmo em pessoas que já controlam o LDL, o que ajuda a explicar por que algumas pessoas continuam tendo problemas cardíacos mesmo com o colesterol sob controle. Por isso, a hipertrigliceridemia tem sido chamada por cardiologistas de "risco residual", e novos tratamentos específicos para reduzi-la foram apresentados em estudos recentes da American Heart Association.
O que fazer para manter os triglicerídeos sob controle?
O consumo de açúcar e carboidratos refinados são os principais responsáveis pela elevação dos triglicerídeos. Sendo assim, é importante tomar cuidado para não exagerar no consumo de alimentos ricos em açúcar e carboidrato. O álcool também impacta diretamente esse marcador e é bom ser evitado.
4. Pressão arterial
Pense em um rio. Em fluxo calmo, a água passa sem agredir as margens. Em correnteza forte, o impacto constante desgasta tudo ao redor. É assim que a pressão alta age nas artérias: o esforço extra e contínuo facilita lesões na parede arterial e aumenta a chance de um coágulo se soltar.
Em agosto de 2025, o American College of Cardiology e a American Heart Association atualizaram, pela primeira vez desde 2017, a diretriz de manejo da pressão arterial. A nova meta de tratamento é manter a pressão abaixo de 130/80 mmHg para todos os adultos, com recomendação de iniciar medicação em quem apresenta pressão igual ou acima de 140/90 mmHg, ou acima de 130/80 mmHg quando já existe doença cardiovascular associada.
O que fazer para manter a pressão arterial sob controle?
- Reduza o sódio, o que inclui não só o sal de cozinha, mas alimentos ultraprocessados.
- Meça a pressão em casa periodicamente, já que os novos protocolos valorizam o acompanhamento fora do consultório.
- Mantenha atividade física regular, uma das intervenções mais eficazes para reduzir a pressão sem medicação.
5. Proteína C-reativa
A proteína C-reativa (PCR) é produzida pelo fígado em resposta a processos inflamatórios no corpo, sejam eles causados por infecções, obesidade, tabagismo ou outras condições. Concentrações elevadas de PCR na corrente sanguínea indicam inflamação crônica, que contribui para a formação e a instabilidade das placas nas artérias.
Como driblar esse inimigo?
Parar de fumar é uma das intervenções mais eficazes para reduzir a PCR. Outro hábito associado à queda consistente desse marcador é a prática regular de exercício físico.
Além disso, é importante que você faça acompanhamento médico para tratar focos de inflamação crônica, como gengivite e doenças autoimunes mal controladas.
6. Resistência à insulina
Aqui no site nós já falamos bastante sobre a insulina, ela é o hormônio que sinaliza às células para absorverem o açúcar do sangue e transformá-lo em energia. Quando as células passam a "ignorar" esse sinal, a insulina se acumula na corrente sanguínea, o que desencadeia uma série de efeitos negativos sobre as artérias, mesmo antes de a glicose em jejum se alterar o suficiente para caracterizar um diagnóstico de diabetes.
Para saber mais sobre a resistência à insulina e como evitá-la, leia a nossa matéria "Resistência à insulina: uma epidemia crescente".
7. Homocisteína
A homocisteína é um aminoácido produzido naturalmente quando o corpo metaboliza proteínas dos alimentos. Em condições normais, ela é rapidamente processada com a ajuda das vitaminas B6, B9 (ácido fólico) e B12. Quando esse processo falha, ela se acumula no sangue e passa a agredir o revestimento interno dos vasos, favorecendo inflamação, estresse oxidativo e formação de coágulos.
Uma revisão publicada em 2025 confirmou que a homocisteína elevada é um sinal de alerta para doenças cardiovasculares. Contudo, o estudo clínico HOPE-2, publicado no New England Journal of Medicine, mostrou que reduzir a homocisteína com suplementação de ácido fólico e vitaminas B6 e B12 não trouxe redução significativa de infartos ou mortes cardiovasculares em pacientes de alto risco, embora tenha reduzido o risco de AVC em algumas análises. Ou seja, a homocisteína alta é um sinal de alerta relevante, mas suplementação por conta própria não deve ser vista como solução isolada, sempre sem indicação médica.
Como driblar esse inimigo
- Garanta uma ingestão adequada de folato através de vegetais verde-escuros, leguminosas e cereais fortificados.
- Se você é vegetariano ou vegano, converse com seu médico sobre a necessidade de suplementação de vitamina B12.
- Não inicie suplementação de vitaminas B para "baixar a homocisteína" sem orientação profissional, já que a eficácia clínica dessa estratégia ainda é debatida.
Agora que você já conhece os 7 inimigos silenciosos do seu coração, é importante destacar que uma consulta de rotina com um cardiologista ou clínico geral costuma dar conta de investigar todos esses pontos. Por isso é tão importante marcar consultas regulares, principalmente se você tiver mais de 40 anos, histórico familiar de doença cardíaca, ou fatores de risco como tabagismo, sedentarismo e sobrepeso.
Esta matéria tem caráter educativo e informativo, e não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento médico profissional. Sempre consulte seu médico antes de alterar hábitos relacionados à saúde. Em caso de emergência, ligue imediatamente para o SAMU (192) ou Bombeiros (193).
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