Skincare na gravidez exige atenção aos ingredientes. Veja quais ativos devem ser evitados, quais pedem cautela e como montar uma rotina segura para a pele.
A gravidez muda muita coisa na rotina, inclusive o skincare. As alterações hormonais podem favorecer acne, oleosidade, melasma, hiperpigmentação, ressecamento e maior sensibilidade da pele. Por isso, é comum querer adaptar os produtos usados no dia a dia.
O problema é que alguns ativos bastante populares em séruns, cremes e tratamentos para acne não são recomendados para serem usados durante a gestação. Retinóides, hidroquinona e alguns tratamentos muito populares estão entre os principais exemplos. Ao mesmo tempo, isso não significa abandonar todos os produtos de beleza durante nove meses.
Há opções consideradas adequadas e uma rotina básica pode ser mantida. O segredo está em conhecer os ingredientes e conversar com dermatologista e obstetra antes de fazer mudanças importantes.
Skincare na gravidez: por que alguns produtos precisam ser evitados?
Durante a gestação, a pele pode ficar mais sensível e apresentar mudanças que não existiam antes. A Academia Americana de Dermatologia (AAD) cita acne, melasma, hiperpigmentação, estrias, ressecamento e sensibilidade entre as alterações que podem aparecer nesse período.
Isso não significa que qualquer cosmético seja perigoso. Grande parte dos produtos de uso tópico tem absorção sistêmica limitada. Ainda assim, alguns ingredientes apresentam características que justificam maior cautela durante a gravidez.
Uma revisão publicada em 2022 ajuda a dimensionar essa questão. O trabalho “Skin Changes and Safety Profile of Topical Products During Pregnancy”, publicado no Journal of Clinical and Aesthetic Dermatology, revisou a literatura disponível sobre produtos tópicos durante a gestação e destacou a necessidade de avaliar tanto a eficácia quanto a segurança dos tratamentos usados nesse período.
Por isso, olhar apenas para a promessa estampada na embalagem não basta. O ingrediente também importa.
Retinoides estão entre os principais ativos a evitar na gravidez
Se existe um grupo que merece atenção especial no skincare na gravidez, é o dos retinoides. Eles são derivados da vitamina A e aparecem em produtos usados para acne, linhas finas, textura irregular e hiperpigmentação. Dependendo da formulação, podem aparecer no rótulo como retinol, tretinoína, adapaleno, tazaroteno ou outros nomes relacionados à família.
A AAD recomenda evitar retinoides durante a gravidez, incluindo tratamentos prescritos e produtos de venda livre que contenham esses ingredientes.
O cuidado está relacionado principalmente ao histórico de risco dos retinoides sistêmicos e à falta de evidências suficientes para considerar o uso tópico seguro durante a gestação. E existe uma informação importante para quem usou um produto antes de descobrir a gravidez.
Uma meta-análise publicada em 2015 avaliou “Pregnancy outcomes following first-trimester exposure to topical retinoids: a systematic review and meta-analysis”, no British Journal of Dermatology. O trabalho reuniu dados de 654 gestantes expostas a retinoides tópicos e 1.375 controles e não encontrou aumento estatisticamente significativo nos desfechos avaliados. Os próprios pesquisadores, porém, afirmaram que o poder estatístico não era suficiente para justificar o uso desses produtos durante a gravidez.
Mais recentemente, uma pesquisa publicada em 2025 no British Journal of Dermatology, chamada “Topical retinoid use in women of reproductive age and risk of major congenital malformations in exposed pregnancies: a Nordic cohort study”, analisou 3.684.334 gestações registradas em Dinamarca, Islândia, Noruega e Suécia.
Entre as 2.172 mulheres que usaram retinoides tópicos no primeiro trimestre, não foi observado aumento do risco de malformações congênitas. Mesmo assim, os autores mantiveram a recomendação de evitar esses produtos durante a gravidez.
Ou seja: os resultados podem ser tranquilizadores para uma exposição acidental, mas não transformam o retinoide em um ativo recomendado para uso durante a gestação.
o ácido salicílico? A resposta depende da concentração
Aqui existe uma diferença importante entre dizer que um ingrediente é proibido e dizer que determinado uso deve ser evitado.
O ácido salicílico é bastante comum em produtos para acne, cravos e oleosidade. Mas ele não aparece nas recomendações médicas simplesmente como um ingrediente que toda gestante precisa eliminar da rotina.
A AAD orienta cautela principalmente com concentrações altas, superiores a 2%. Nesses casos, a recomendação é conversar com dermatologista e limitar o uso.
O American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) também inclui o ácido salicílico tópico entre os ingredientes que podem ser utilizados para tratar acne durante a gravidez. A entidade também cita peróxido de benzoíla, ácido azelaico e ácido glicólico entre as opções de venda livre que podem ser usadas nesse contexto.
Portanto, concentração, área aplicada, frequência e tipo de produto fazem diferença. Isso vale especialmente para peelings e produtos de alta concentração, que não devem ser incorporados à rotina sem avaliação profissional.
Ácido glicólico não precisa desaparecer da rotina
O ácido glicólico costuma aparecer em produtos voltados para renovação da pele, textura e manchas. E aqui também é preciso fugir das listas que colocam todos os ácidos na mesma categoria.
A AAD informa que o ácido glicólico pode fazer parte da rotina durante a gravidez e, inclusive, cita seu uso para ajudar a prevenir e tratar alterações de cor da pele.
O ponto principal é evitar extrapolações.
Um produto cosmético de determinada concentração não equivale a um peeling químico concentrado. A própria matéria do Portal Drauzio Varella, publicada em junho de 2026, diferencia os produtos liberados dos tratamentos com concentrações elevadas e dos peelings químicos agressivos.
Por isso, antes de acrescentar um ácido à rotina, vale verificar a concentração e a indicação do produto.
Protetor solar continua sendo indispensável
Se existe um produto que não deve ser abandonado durante o skincare na gravidez, é o protetor solar. A gestação pode favorecer alterações de pigmentação, incluindo o melasma. A AAD recomenda uma rotina simples que inclua proteção contra o sol, com filtro de amplo espectro, resistente à água e com FPS 30 ou superior nas áreas expostas.
A entidade recomenda, durante a gravidez, optar por filtros físicos que contenham óxido de zinco, dióxido de titânio ou ambos, especialmente para reduzir a possibilidade de irritação.
A Sociedade Brasileira de Dermatologia também chama atenção para a hiperpigmentação durante a gestação. Em orientação publicada para o Dia da Gestante, a entidade explica que o aumento dos hormônios que estimulam a melanina pode favorecer alterações de cor e recomenda medidas preventivas, como o uso correto de fotoprotetores.
Ou seja, adaptar o skincare não significa deixar a pele sem proteção.
Skincare na gravidez pode ser mais simples
Uma rotina de skincare na gravidez não precisa ter dez passos. Na verdade, a AAD recomenda justamente uma rotina básica. Ela inclui limpeza da pele, hidratação e proteção solar. A orientação é lavar o rosto até duas vezes ao dia e depois de suar, usar um hidratante adequado ao tipo de pele e proteger as áreas expostas ao sol com filtro de amplo espectro.
Para quem está passando por mudanças como acne ou manchas, o ideal é adaptar essa rotina com orientação profissional.
A revisão “Skin Changes and Safety Profile of Topical Products During Pregnancy”, publicada em 2022 no Journal of Clinical and Aesthetic Dermatology, ressalta justamente a existência de diferentes alterações cutâneas durante a gravidez e a necessidade de considerar a segurança das opções disponíveis para cada situação.
Quais ingredientes merecem atenção no rótulo?
O rótulo pode ser o melhor aliado de quem está revisando os produtos usados durante a gravidez. Entre os ingredientes que merecem atenção estão:
Retinoides: retinol, tretinoína, adapaleno e tazaroteno estão entre os compostos que devem ser evitados durante a gestação.
Hidroquinona: utilizada para clareamento da pele e incluída pela AAD entre os ingredientes a evitar.
Ácido salicílico em altas concentrações: a AAD recomenda limitar o uso de concentrações superiores a 2% e conversar com um dermatologista.
Peróxido de benzoíla: pode ser utilizado em situações específicas, mas a AAD recomenda uso limitado e orientação profissional.
Parabenos, ftalatos, fenol, triclosan e alguns óleos essenciais: a AAD recomenda conversar com dermatologista e limitar o uso desses ingredientes durante a gravidez, considerando que alguns têm dados de segurança insuficientes.
Essa lista mostra por que não é uma boa ideia tratar todo ativo como simplesmente "liberado" ou "proibido". A concentração, a forma de aplicação e o contexto do tratamento também entram na avaliação.
E se você já usou um produto contraindicado?
Descobrir uma gravidez depois de já ter usado um produto com algum ingrediente contraindicado pode gerar bastante preocupação.
Nesse cenário, não é recomendado tirar conclusões apenas pela lista de ingredientes. O histórico de exposição, a concentração, a frequência de uso e o período da gestação são informações relevantes para a avaliação.
Os dados sobre retinoides tópicos ilustram isso. Tanto a meta-análise publicada em 2015 quanto o estudo de coorte nórdico publicado em 2025 não encontraram aumento estatisticamente significativo de malformações associado à exposição tópica analisada. Ainda assim, os pesquisadores não recomendam o uso desses produtos durante a gravidez.
Por isso, quem descobrir que estava grávida enquanto utilizava algum ativo contraindicado deve informar o obstetra e o dermatologista. A AAD recomenda que mulheres grávidas ou tentando engravidar comuniquem aos profissionais todos os medicamentos e produtos dermatológicos prescritos que utilizam.
Converse com os profissionais que acompanham a gestação. O seu dermatologista e obstetra podem avaliar os produtos de acordo com a sua pele, o período da gravidez e o objetivo do tratamento.
A gravidez não precisa significar o fim dos seus cuidados com a pele. Mas é um bom momento para trocar a lógica de testar qualquer tendência de skincare por uma rotina mais consciente.