Tomar remédios para dormir talvez pareça uma solução fácil, mas os riscos dos sedativos podem se sobrepor aos benefícios, principalmente se você for idoso.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Anvisa, endureceu as regras para a venda do zolpidem, medicamento utilizado no tratamento da insônia. Desde 1º de agosto de 2024, todas as apresentações do remédio exigem receita azul de controle especial, independentemente da dosagem.
A decisão foi motivada pelo aumento do consumo, pelos relatos de uso abusivo e pelo crescimento das notificações de efeitos adversos. Entre os riscos associados ao medicamento estão dependência, perda de memória, sonambulismo e comportamentos realizados sem plena consciência.
O alerta é especialmente importante para pessoas idosas. Embora os remédios para dormir possam ser indicados em determinadas situações, alguns sedativos aumentam o risco de tontura, confusão mental, quedas e fraturas nessa faixa etária.
Mas isso significa que idosos com insônia não podem tomar medicamentos? A resposta depende do tipo de remédio, das condições de saúde do paciente e da avaliação médica. Entenda o que mudou nas regras, quais são os principais riscos e que alternativas podem ajudar no tratamento.
O que mudou nas regras da Anvisa para a venda de zolpidem?
Desde agosto de 2024, todos os medicamentos que contêm zolpidem precisam ser prescritos por meio da Notificação de Receita B, conhecida como receita azul. Antes da mudança, apresentações com até 10 mg por unidade podiam ser comercializadas mediante receita branca de controle especial.
A nova exigência foi aprovada pela Anvisa em 15 de maio de 2024. Segundo a agência, não havia evidências científicas que justificassem regras menos rigorosas para as apresentações de menor dosagem.
O zolpidem já fazia parte da lista B1 de substâncias psicotrópicas, mas uma exceção permitia o controle menos restritivo de determinados produtos. Com a retirada dessa flexibilização, todas as apresentações passaram a seguir as mesmas exigências.
A medida também alterou a identificação das embalagens. Desde dezembro de 2024, os medicamentos fabricados com zolpidem devem apresentar tarja preta. Produtos fabricados anteriormente, com tarja vermelha, ainda podem ser dispensados até o fim de sua validade, desde que acompanhados da receita exigida.
Em 2026, a Anvisa também atualizou os modelos de receituários de medicamentos controlados. Os novos formulários impressos tornaram-se obrigatórios para emissões realizadas a partir de 18 de maio, sem eliminar as exigências específicas para o zolpidem.
Portanto, a regra da receita azul permanece válida.
Por que o zolpidem passou a preocupar as autoridades de saúde?
O zolpidem é um medicamento hipnótico indicado para o tratamento de curta duração da insônia. Ele pode ajudar pessoas que apresentam dificuldade para adormecer ou manter o sono, mas seu uso exige acompanhamento profissional.
De acordo com a Anvisa, o tratamento deve ser o mais breve possível e, em regra, não ultrapassar quatro semanas sem reavaliação médica. O risco de dependência e de uso abusivo aumenta conforme a dose e a duração do tratamento.
O crescimento do consumo no Brasil ajudou a chamar a atenção das autoridades. Em 2020, foram comercializadas 23,3 milhões de caixas do medicamento, segundo dados da Anvisa apresentados em reportagens sobre o tema.
Uma reportagem publicada pela TVBV em agosto de 2026 informou que as vendas oficiais caíram nos anos seguintes, chegando a aproximadamente 13,5 milhões de caixas em 2025.
Apesar da redução, o uso inadequado continua sendo motivo de preocupação. Alguns pacientes aumentam a dose sem orientação, utilizam o medicamento por períodos prolongados ou o combinam com outras substâncias que provocam sedação.
Essas práticas podem elevar o risco de reações adversas e dificultar a interrupção do tratamento.
Quais são os riscos do zolpidem para quem toma o remédio para dormir?
Entre os efeitos adversos associados ao zolpidem estão sonolência, alterações de memória, confusão mental, alucinações e episódios de sonambulismo. Em algumas situações, a pessoa pode realizar atividades enquanto está sob efeito do medicamento e não se lembrar delas posteriormente.
Em reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em agosto de 2026, o psiquiatra Alexandre Pinto de Azevedo, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, explicou que o medicamento tem utilidade clínica quando prescrito corretamente.
"O zolpidem é eficaz e tem lugar no tratamento da insônia quando há indicação correta, dose adequada, orientação e acompanhamento."
O especialista também alertou para a banalização do uso, especialmente quando o medicamento passa a ser tratado como uma solução simples e de baixo risco para dormir.
Outro problema é a possibilidade de desenvolver tolerância, situação em que o paciente passa a sentir necessidade de doses maiores para obter o efeito desejado. Aumentar a quantidade por conta própria, entretanto, pode intensificar os riscos.
O uso associado ao álcool ou a outros medicamentos sedativos também merece atenção. Essas combinações podem potencializar os efeitos sobre o sistema nervoso central.
Por isso, o zolpidem não deve ser utilizado sem prescrição ou compartilhado com familiares e amigos.
O que pessoas que tomaram zolpidem relatam na internet?
Relatos publicados na internet ajudam a mostrar como os efeitos adversos podem se manifestar no cotidiano, embora experiências individuais não indiquem a frequência com que essas reações acontecem.
Em uma reportagem publicada pelo UOL em setembro de 2023, uma mulher identificada pelo nome fictício Talita contou que realizou compras pela internet sem se lembrar do que havia feito. Ela descobriu posteriormente que havia adquirido dez óculos de sol iguais durante a madrugada.
A entrevistada também relatou episódios em que acordou no chão da cozinha sem saber como havia chegado até lá. Depois dessas experiências, procurou orientação médica para modificar o tratamento.
Em uma discussão publicada no Reddit em dezembro de 2021, outro usuário afirmou que começou a tomar zolpidem após receber prescrição para insônia. Segundo seu relato, passou a apresentar alucinações e episódios de perda de memória.
Em uma das ocasiões, acordou e descobriu que havia enviado áudios sem sentido para contatos do WhatsApp durante a noite.
Esses depoimentos ilustram experiências de usuários, mas não substituem estudos científicos nem permitem concluir que todas as pessoas que tomam zolpidem terão reações semelhantes.
Quem apresenta comportamentos incomuns, alterações de consciência ou perda de memória após tomar o medicamento deve procurar orientação médica. A interrupção também precisa ser avaliada por um profissional, especialmente quando o uso é prolongado.
Idosos com insônia podem tomar remédios para dormir?
Sim, idosos com insônia podem receber medicamentos para dormir quando existe indicação médica. Entretanto, a escolha exige cuidados adicionais, porque o envelhecimento pode modificar a resposta do organismo aos medicamentos e aumentar a vulnerabilidade a determinados efeitos adversos.
Alguns remédios utilizados para induzir o sono estão associados a maior risco de sonolência durante o dia, confusão mental, comprometimento cognitivo e perda de equilíbrio.
Esses efeitos são especialmente preocupantes para pessoas idosas porque podem favorecer quedas e fraturas, com consequências importantes para a autonomia e a qualidade de vida.
O Manual MSD, em suas orientações para profissionais de saúde, recomenda evitar o uso de benzodiazepínicos e de determinados hipnóticos não benzodiazepínicos, como o zolpidem, no tratamento da insônia em adultos mais velhos.
Isso não significa que qualquer medicamento para dormir seja proibido após determinada idade. Existem diferentes classes de fármacos, com mecanismos de ação e perfis de segurança distintos.
A avaliação deve considerar a intensidade da insônia, outros problemas de saúde, os medicamentos que a pessoa já utiliza e a possibilidade de tratamentos não farmacológicos.
A insônia é parte da vida de muitos idosos. - Reprodução / Magnific
Por que os remédios para dormir podem aumentar o risco de quedas em idosos?
Os sedativos podem prejudicar a atenção, a coordenação motora e o equilíbrio, inclusive depois de o paciente acordar. Em pessoas idosas, essas alterações aumentam a preocupação com acidentes domésticos.
Uma pessoa que precisa levantar durante a madrugada, por exemplo, pode apresentar maior dificuldade para caminhar com segurança caso ainda esteja sob efeito do medicamento.
O Conselho Federal de Farmácia também alerta que os benzodiazepínicos podem prejudicar a memória e a concentração, além de provocar dependência física e psicológica quando utilizados por períodos prolongados.
Por isso, a decisão de prescrever um medicamento para dormir deve considerar não apenas a melhora do sono, mas também os possíveis prejuízos durante o dia.
Outro cuidado importante é revisar os medicamentos utilizados pelo paciente. A combinação de substâncias com efeitos sedativos pode aumentar os riscos e precisa ser avaliada individualmente.
Qual é o tratamento mais indicado para insônia em idosos?
A terapia cognitivo-comportamental para insônia, conhecida pela sigla TCC-I, é considerada uma das principais opções de tratamento para pessoas com insônia crônica, inclusive na terceira idade.
Diferentemente de uma abordagem baseada exclusivamente em medicamentos, a TCC-I trabalha comportamentos, pensamentos e hábitos que podem contribuir para a dificuldade de dormir.
O tratamento pode envolver mudanças na rotina de sono, controle de estímulos, técnicas de relaxamento e estratégias para reduzir a ansiedade relacionada ao momento de deitar.
Uma orientação técnica da Saúde Digital da Universidade Federal de Santa Catarina destaca a TCC-I como primeira escolha para o tratamento da insônia crônica em idosos. Os medicamentos ficam reservados a situações específicas, com acompanhamento e duração limitada.
A abordagem também pode ser realizada em formatos digitais, embora a disponibilidade e a adequação do tratamento dependam das necessidades de cada paciente.
Além disso, é importante investigar possíveis causas da dificuldade para dormir. Dor, problemas de saúde e outras condições podem interferir no descanso e exigir cuidados próprios.
Melatonina é uma alternativa segura para idosos com insônia?
A melatonina é um hormônio produzido naturalmente pelo organismo e relacionado à regulação do ciclo de sono e vigília. Entretanto, isso não significa que os suplementos disponíveis no mercado sejam tratamentos comprovados para insônia.
No Brasil, a melatonina é autorizada como suplemento alimentar, e não como medicamento para tratar distúrbios do sono. A regulamentação brasileira permite sua utilização em suplementos para adultos, respeitando limites específicos de composição.
Segundo o Ministério da Saúde, não há evidências científicas suficientes para afirmar que a suplementação de melatonina produza benefícios clínicos à saúde. Por isso, os produtos não podem apresentar alegações de tratamento ou melhora da insônia.
A literatura científica também diferencia formulações, doses e grupos de pacientes. Algumas pesquisas investigaram a melatonina de liberação prolongada em pessoas acima de 55 anos, mas os resultados não justificam tratá-la como uma solução universal para idosos.
Assim, não é recomendável substituir um medicamento prescrito por melatonina sem avaliação profissional. A mesma cautela vale para produtos naturais, chás e outros suplementos utilizados com a intenção de induzir o sono.
O que fazer para dormir melhor na terceira idade?
Algumas mudanças de hábitos podem ajudar a melhorar a qualidade do sono e complementar o tratamento da insônia. Entretanto, quando a dificuldade para dormir é persistente, essas medidas não substituem a investigação médica.
O Conselho Federal de Farmácia recomenda atitudes como manter horários regulares para dormir e acordar, reduzir estímulos no quarto e evitar atividades que mantenham a pessoa excessivamente alerta na hora de deitar.
Entre os cuidados que podem fazer parte da rotina estão:
- Manter horários semelhantes para dormir e acordar, inclusive nos fins de semana
- Evitar o uso de celular e televisão na cama
- Reduzir ruídos, luminosidade excessiva e temperaturas desconfortáveis no quarto
- Evitar bebidas com cafeína perto do horário de dormir
- Praticar atividades físicas regularmente, respeitando as condições de saúde
- Fazer refeições mais leves à noite
- Procurar uma atividade tranquila quando não conseguir adormecer, em vez de permanecer na cama por longos períodos tentando forçar o sono
O tratamento deve ser individualizado, especialmente quando a insônia está associada a outras condições clínicas.
Se o idoso já utiliza remédios para dormir, também é importante não suspender a medicação abruptamente por conta própria. A retirada de alguns sedativos precisa ser gradual e acompanhada por um profissional para reduzir o risco de sintomas de abstinência e piora temporária da insônia.
Reforçamos que não é recomendado se medicar por conta própria. Caso a insônia seja recorrente, consulte um médico e evite a automedicação.