Anvisa alerta que a soroterapia não tem benefícios comprovados para pessoas saudáveis e reforça que promessas divulgadas nas redes sociais carecem de evidências científicas.
A soroterapia voltou ao centro das discussões depois que a influenciadora Virginia Fonseca compartilhou nas redes sociais que havia feito uma sessão do procedimento e se sentia mais disposta. O relato rapidamente ganhou repercussão e reacendeu um debate que já preocupa autoridades de saúde e entidades médicas: afinal, as promessas de mais energia, rejuvenescimento, fortalecimento da imunidade e emagrecimento realmente têm respaldo científico?
A resposta, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, é não. Em alerta publicado nesta semana, a agência reforçou que não existem evidências científicas capazes de comprovar os benefícios amplamente divulgados nas redes sociais para pessoas saudáveis. O órgão destaca que esse tipo de divulgação pode levar pacientes a buscar um procedimento sem indicação médica e ignorar os riscos envolvidos.
Embora a terapia intravenosa tenha aplicações importantes na medicina, especialistas explicam que seu uso deve estar restrito a situações clínicas específicas. Fora desses casos, vender a soroterapia como um atalho para melhorar a saúde ou a aparência pode gerar falsas expectativas e até colocar pacientes em risco.
O que é a soroterapia?
Também conhecida como terapia nutricional endovenosa, a soroterapia consiste na aplicação de substâncias diretamente na corrente sanguínea por meio de uma veia.
Os chamados "coquetéis" costumam reunir vitaminas, minerais, aminoácidos, antioxidantes, eletrólitos e, em alguns casos, medicamentos. A composição varia conforme o objetivo proposto pela clínica ou pelo profissional responsável.
Na medicina, esse tipo de infusão é um recurso consolidado. Pacientes internados, pessoas com desidratação importante, dificuldades para absorver nutrientes, doenças específicas ou deficiências nutricionais comprovadas podem precisar receber líquidos e nutrientes diretamente pela veia.
O problema começa quando esse procedimento, criado para atender necessidades médicas bem definidas, passa a ser comercializado como uma solução para aumentar a disposição, retardar o envelhecimento, fortalecer a imunidade ou acelerar o emagrecimento.
Segundo a endocrinologista Lizanka Marinheiro, do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), em entrevista à Folha, receber uma substância diretamente na circulação não significa que ela seja automaticamente mais eficaz.
"O fato de uma substância ser administrada diretamente na veia não significa que seja mais eficaz ou saudável. Significa apenas que ela chega imediatamente à circulação, sem passar pelo processo normal de absorção gastrointestinal. Isso também faz com que eventuais doses excessivas, incompatibilidades ou reações adversas tenham potencial para ocorrer de maneira mais rápida."
Por que a soroterapia virou tendência?
Nos últimos anos, clínicas particulares e consultórios passaram a divulgar a soroterapia como um procedimento voltado ao bem-estar e à estética. Entre as promessas mais frequentes estão aumento da energia, melhora da imunidade, rejuvenescimento, emagrecimento, aceleração do metabolismo e melhora da performance física.
Grande parte dessa popularização aconteceu nas redes sociais, impulsionada por influenciadores digitais e celebridades que compartilham suas experiências pessoais.
Foi justamente esse cenário que motivou o novo alerta da Anvisa. Segundo a agência, publicações com promessas de benefícios sem comprovação científica podem induzir consumidores ao erro e estimular a realização de procedimentos que não possuem indicação para pessoas saudáveis.
O que dizem as evidências científicas?
Os especialistas ouvidos pela reportagem da DW Brasil são unânimes ao afirmar que pessoas saudáveis, que mantêm alimentação equilibrada e não apresentam deficiência nutricional diagnosticada, dificilmente terão benefícios ao receber vitaminas diretamente na corrente sanguínea.
Isso acontece porque o organismo já possui mecanismos eficientes para absorver nutrientes pela alimentação. Quando não existe deficiência comprovada, fornecer doses elevadas de vitaminas não significa obter resultados melhores.
Segundo Lizanka Marinheiro, muitas das promessas associadas à soroterapia são sustentadas por relatos individuais e estratégias de marketing, e não por estudos clínicos robustos.
"Grande parte dessas alegações é baseada em relatos pessoais, percepção subjetiva de bem-estar e estratégias de marketing, e não em ensaios clínicos robustos e bem controlados. A melhora relatada por algumas pessoas também pode estar relacionada à hidratação, ao repouso durante o procedimento, ao efeito placebo ou à regressão natural de sintomas inespecíficos, como cansaço."
Outro ponto destacado pelos especialistas é que o excesso de algumas vitaminas hidrossolúveis, como vitamina C e vitaminas do complexo B, costuma ser eliminado pela urina quando o organismo não necessita dessas substâncias.
A endocrinologista Dhianah Santini afirma que, para pessoas saudáveis e sem deficiência nutricional comprovada, não existem evidências científicas de boa qualidade demonstrando que infusões intravenosas aumentem a imunidade, melhorem a energia, promovam rejuvenescimento, acelerem o metabolismo ou realizem a chamada "desintoxicação" frequentemente divulgada em campanhas publicitárias.
Quando a soroterapia realmente é indicada?
Apesar das críticas ao uso indiscriminado da soroterapia, isso não significa que a terapia intravenosa não tenha utilidade. Pelo contrário. Ela é considerada um recurso importante na medicina quando existe uma necessidade clínica comprovada.
Pessoas com síndromes de má absorção intestinal, pacientes submetidos à cirurgia bariátrica, indivíduos com desnutrição grave e algumas doenças crônicas podem precisar de reposição de nutrientes pela via intravenosa. Também há casos de deficiências vitamínicas severas que exigem esse tipo de tratamento.
A diferença, segundo os especialistas, é que essas situações são bem definidas e dependem de avaliação médica. Mesmo nesses casos, a escolha das substâncias, das doses, da velocidade de infusão e da duração do tratamento depende do diagnóstico, dos exames laboratoriais, da função renal e hepática, dos medicamentos utilizados e das características individuais de cada paciente.
Quais são os riscos da soroterapia?
Embora muitas vezes seja apresentada como um procedimento simples, a soroterapia não é isenta de riscos. Como toda infusão intravenosa, ela rompe uma barreira natural do organismo e pode provocar complicações como infecções, flebite, hematomas, dor no local da aplicação e reações alérgicas.
Também podem ocorrer náuseas, tontura, alterações da pressão arterial, mudanças no ritmo cardíaco, distúrbios dos níveis de sódio, potássio, cálcio, magnésio e glicose, além de sobrecarga ou lesão renal e hepática e interações entre as substâncias administradas e medicamentos de uso contínuo.
Uma reportagem da DW Brasil, por exemplo, apresenta o relato da gerente de marketing Soraia Dias, que precisou procurar atendimento médico após realizar uma sessão de soroterapia antes de uma palestra.
Segundo ela, a promessa era de melhorar seu desempenho durante a apresentação. Poucos minutos depois da infusão, começou a sentir tontura, formigamento nas pernas e sensação de desmaio.
"A infusão durou cerca de 10 minutos. Na sequência, fui para outra sala aguardar a minha vez de dar a palestra e logo comecei a sentir tontura, as pernas formigando e parecia que eu ia desmaiar. Eu mal conseguia ficar em pé."
Ela foi encaminhada a um pronto-socorro, onde permaneceu em observação por cerca de duas horas e recebeu orientação para reforçar a hidratação. Após a melhora dos sintomas, conseguiu retornar ao evento e realizar a palestra em outro horário.
Segundo Lizanka Marinheiro, a administração intravenosa pode elevar rapidamente a concentração de determinadas substâncias no sangue, aumentando o risco de toxicidade.
"Uma concentração mais alta não significa necessariamente um benefício clínico maior. O organismo possui mecanismos de regulação e, no caso de várias vitaminas hidrossolúveis, elimina pela urina aquilo de que não necessita. Em outros casos, especialmente com doses elevadas ou substâncias que se acumulam, pode ocorrer toxicidade."
Entidades médicas reforçam que não há comprovação para uso estético
A repercussão do caso envolvendo Virginia Fonseca levou o Conselho Regional de Medicina do Estado de Goiás (Cremego) a publicar um alerta sobre o uso da soroterapia com finalidade estética ou para melhora da performance.
Segundo o conselho, a comercialização desse tipo de terapia vem sendo impulsionada por falsas promessas e pela divulgação feita por artistas e influenciadores nas redes sociais.
Em nota, o Cremego afirmou que a indicação da soroterapia para objetivos como rejuvenescimento, perda de peso, ganho de massa muscular, combate à queda de cabelo e aumento da vitalidade não possui evidências científicas.
O órgão também destacou que, desde 2024, vem alertando a população sobre os riscos, inclusive fatais, relacionados ao uso desnecessário da terapia intravenosa, lembrando que o tema já foi questionado por diversas sociedades médicas e é condenado pela Resolução CFM nº 2.004/2012.
Antes mesmo da repercussão recente, a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) já havia publicado uma nota pública afirmando que a soroterapia não faz parte do rol de procedimentos médicos da especialidade e que faltam evidências clínicas consistentes para comprovar sua segurança e eficácia em tratamentos dermatológicos.
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