Aos 15 anos, Larisa foi diagnosticada com um tumor raro nos ovários e, meses depois, com um segundo câncer primário, um linfoma. Entenda o caso que surpreendeu até especialistas do MD Anderson.
Receber o diagnóstico de câncer e combater a doença não é nada fácil. Imagina receber esta notícia duas vezes quando se tem apenas 15 anos. Foi exatamente isso o que aconteceu com Larisa (nome trocado para proteger a privacidade), uma jovem ucraniana que chocou até mesmo os especialistas do MD Anderson Cancer Center, um dos centros de oncologia mais respeitados do mundo.
O que aconteceu com Larisa: dos primeiros sintomas ao tratamento
Quando Larisa começou a sentir dor uma dor que ia e vinha no abdome, seus pais, preocupados, a levaram ao médico da família, que a encaminhou a um ginecologista.
Depois que um ultrassom revelou uma massa na pelve de Larisa, um oncologista fez uma biópsia. Após uma semana, chegou o resultado positivo para um tumor de células germinativas, tipo de câncer que ocorre nas células reprodutoras dos ovários ou testículos e é um dos mais comuns em adolescentes. A doença já tinha se espalhado pelos nódulos linfáticos em torno da medula espinhal da menina.
Em vez de buscar tratamento perto de casa, os pais de Larisa atravessaram o oceano até o Centro de Oncologia MD Anderson, em Houston, no Texas, referência internacional em tratamento oncológico. Lá, a menina se tornou uma dos muitos pacientes internacionais atendidos pela instituição.
Quando a Dra. Cynthia Herzog, que trata de pacientes pediátricos, examinou Larisa, observou que a adolescente também apresentava uma tosse sempre que se deitava para dormir. Com a comprovação do diagnóstico, a adolescente iniciou o regime padrão de quimioterapia para tumores de células germinativas. Mas o tratamento provocou inflamação intestinal, diarreia e vômitos. Sendo assim, a equipe médica optou por um medicamento alternativo, que se mostrou eficaz.
Três meses depois, o cirurgião removeu a massa do ovário de Larisa e vários nódulos linfáticos afetados, e confirmou que os tumores estavam mortos. Naquele momento, apesar de ainda haver risco de novos tumores surgirem, o prognóstico era considerado bom.
"Mesmo com doença metastática, a sobrevivência a longo prazo é de 50%", explica a Dra. Herzog.
A reviravolta que ninguém esperava: um segundo câncer
Dez semanas depois da cirurgia durante o primeiro exame de acompanhamento, quando os pais de Larisa já estavam mais tranquilos, a jovem mencionou que a tosse havia voltado. Preocupada, a Dra. Herzog pediu novos exames que revelaram que o câncer atingira nódulos linfáticos próximos ao coração, um resultado inesperado, já que o tratamento vinha se mostrando eficaz.
Surpresa com a reviravolta da doença depois que o tratamento se mostrara tão eficaz, a Dra. Herzog quis fazer uma biópsia da massa do tórax, mas os pais de Larisa inicialmente recusaram, preocupados com o desconforto do procedimento e com o quanto a filha já havia sofrido. A tosse da filha dificultaria que ela se deitasse para o procedimento, e a garota teria de ser anestesiada. Larisa já sofrera muito, e eles preferiram continuar a quimioterapia. Mas, após um novo ciclo, os exames revelaram que a massa do peito continuava inalterada.
"É estranho que a doença retorne e não responda ao tratamento", diz a Dra. Herzog. "Então insistimos que a biópsia era necessária para ver com o que estávamos lidando antes de continuar."
Alguns dias depois, a Dra. Herzog teve uma das maiores surpresas de seus 33 anos de carreira: Larisa tinha um segundo câncer primário, um linfoma, sem relação direta com o primeiro tumor. Segundo a Dra. Herzog, a chance de uma adolescente da idade de Larisa desenvolver cada uma dessas duas condições isoladamente é de aproximadamente 1 em 100 mil, o que torna a ocorrência simultânea das duas algo em torno de 1 em 10 bilhões.
“Foi a única vez que vi algo assim”, diz a Dra. Herzog.
Como está Larisa hoje
O tratamento do linfoma é mais demorado do que o dos tumores de células germinativas, o regime-padrão dura um ano e meio. Larisa e sua família moraram em Houston quase todo esse tempo.
Larisa conseguiu superar a doença e terminou o ciclo de quimioterapia com sucesso. Agora, ela volta a Houston uma vez por ano para exames de acompanhamento, e por enquanto está livre do câncer. Ao ser perguntada o que queria fazer agora que estava curada ela respondeu sem pensar muito: "eu quero seguir carreira na área da saúde para poder ajudar outras pessoas, assim como fizeram comigo".
O que é o tumor de células germinativas
As células germinativas são as responsáveis por dar origem aos óvulos e aos espermatozoides. Por isso, os tumores que se formam a partir delas costumam surgir nos ovários ou nos testículos, embora também possam aparecer fora dessas regiões, já que esse tipo de célula está presente em outras partes do corpo durante o desenvolvimento do feto.
Segundo o Hospital Pequeno Príncipe, esse tipo de câncer é raro no geral, mas ocupa um lugar de destaque entre os tumores que afetam crianças e adolescentes. De acordo com os dados comaprtilhados pelo hospital, esse tipo de câncer representa cerca de 3,3% dos tumores malignos nessa faixa etária e tem maior incidência em duas fases da vida, antes dos 2 anos e entre os 8 e os 14 anos.
Quando o tumor se forma no ovário, como no caso de Larisa, ele corresponde a uma parcela pequena dos cânceres ginecológicos, mas é o tipo mais frequente entre adolescentes e mulheres jovens, segundo o Instituto Oncoguia.
O prognóstico costuma ser favorável, principalmente quando o diagnóstico acontece cedo. De acordo com o Oncoguia, quando o tumor está limitado ao ovário, a maior parte das pacientes é curada apenas com a remoção cirúrgica, sem necessidade de tratamento adicional. Mesmo nos casos em que a doença se espalha ou volta a aparecer depois do tratamento, como aconteceu com Larisa, a combinação de cirurgia, quimioterapia e, mais raramente, radioterapia costuma controlar a doença na grande maioria das pacientes.
Os sintomas variam de acordo com a localização do tumor, mas os mais comuns incluem dor ou aumento do volume abdominal, sensação de barriga estufada e, quando o tumor está na região do tórax, tosse persistente ou desconforto para respirar, sintoma que também apareceu no caso de Larisa.
O que é o linfoma
O linfoma é o nome dado a um grupo de cânceres, hoje contando cerca de 60 tipos diferentes, que se desenvolvem no sistema linfático, parte do organismo responsável por produzir e transportar as células de defesa do corpo. Segundo o Hospital Israelita Albert Einstein, os linfomas se dividem em dois grandes grupos: o linfoma de Hodgkin e o linfoma não Hodgkin, sendo o segundo o mais comum entre os dois.
De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), a doença é diagnosticada em cerca de 15 mil brasileiros por ano. Os sintomas mais frequentes são o aumento indolor dos gânglios linfáticos no pescoço, nas axilas ou na virilha, além de febre, suor noturno intenso, cansaço e perda de peso sem causa aparente. Assim como no caso de Larisa, os sintomas nem sempre aparecem de forma isolada e podem se confundir com os de outras condições.
O tratamento varia bastante de acordo com o subtipo e o estágio da doença, mas costuma envolver quimioterapia, e em alguns casos radioterapia, imunoterapia ou transplante de medula óssea. Diferente dos tumores sólidos, a cirurgia raramente é usada como tratamento principal do linfoma. O prognóstico também varia conforme o tipo, mas boa parte dos pacientes responde bem ao tratamento disponível atualmente.
Segundo a Dra. Herzog, o retorno de sintomas após um tratamento aparentemente bem-sucedido, como aconteceu com a tosse de Larisa, é um sinal que merece investigação médica, e não deve ser atribuído automaticamente à recidiva do mesmo câncer sem uma nova avaliação. Foi justamente a insistência da equipe médica em investigar a causa da massa no tórax que permitiu identificar o segundo diagnóstico a tempo de iniciar o tratamento adequado.
Este conteúdo foi publicado originalmente na edição impressa da revista Seleções em outubro de 2018. Apesar de ter caráter educativo e informativo, ele não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento médico profissional. Sempre consulte seu médico antes de alterar hábitos relacionados à saúde. Em caso de emergência, ligue imediatamente para o SAMU (192) ou Bombeiros (193).
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