A aprovação do Inluriyo amplia as opções de tratamento para um subtipo de tumor que aprende a driblar as terapias hormonais convencionais. Entenda quem pode ser elegível e o que fazer a partir de agora.
Receber o diagnóstico de câncer de mama avançado já é difícil, mas descobrir que o tumor desenvolveu resistência ao tratamento hormonal é um golpe mais duro ainda. E é exatamente para nesse tipo de caso que o novo medicamento aprovado pela Anvisa nesta semana pode ajudar.
O Inluriyo (tosilato de inlunestranto), desenvolvido pela Eli Lilly do Brasil, é um medicamento oral indicado para pacientes com um tipo específico de câncer de mama. Embora ele amplie as alternativas de tratamento disponíveis, a novidade não é para todos os casos de câncer de mama, e especialistas apontam que é importante entender isso para não criar expectativas equivocadas.
O que é o Inluriyo e para quem ele é indicado?
O Inluriyo é um medicamento oral, em forma de comprimido, que pode ser tomado em casa, sem precisar de infusão em hospital ou clínica. Ele é indicado para adultos com câncer de mama localmente avançado (sem possibilidade de cirurgia) ou que já se espalhou para outros órgãos (metastático).
Para ser elegível ao tratamento, o paciente precisa ter recebido previamente uma terapia endócrina — nome técnico para tratamentos que bloqueiam hormônios que alimentam o tumor — e apresentar três características moleculares ao mesmo tempo:
- ER+ (receptor de estrogênio positivo): o tumor usa o estrogênio como combustível para crescer.
- HER2 negativo: ausência de uma proteína que acelera a multiplicação de células cancerígenas.
- Mutação no gene ESR1: uma alteração genética que surge, em geral, como resposta ao próprio tratamento hormonal anterior.
De acordo com a farmacêutica, o medicamento deve ser prescrito em monoterapia, ou seja, sem combinação com outros remédios.
Por que a mutação no ESR1 importa?
Quando uma mulher faz terapia hormonal para câncer de mama por um período prolongado, o tumor às vezes desenvolve uma "saída de emergência" e muta o gene ESR1 de forma a continuar usando o estrogênio para crescer, mesmo com o tratamento bloqueando essa via. É como se o tumor aprendesse a abrir uma porta dos fundos para continuar agindo.
Essa mutação é uma das principais causas de resistência ao tratamento hormonal convencional e representa um desafio real para oncologistas. Medicamentos como o Inluriyo foram desenvolvidos para fechar exatamente essa porta dos fundos.
O teste para identificar a mutação ESR1 pode ser feito por meio de biópsia líquida (exame de sangue que detecta DNA tumoral circulante) ou biópsia de tecido. Se você ou alguém próximo está em tratamento hormonal para câncer de mama metastático ER+/HER2-, vale conversar com o oncologista sobre a possibilidade de realizar esse teste.
O que muda para a paciente brasileira?
Com a aprovação pela Anvisa, agora o medicamento pode ser comercializado legalmente no Brasil, mas isso não significa que ele automaticamente estará disponível no SUS ou que será coberto pelos planos de saúde.
Na prática isso significa que a aprovação dada pela Anvisa é apenas o primeiro passo. Para o medicamento começar a ser ofertado pelo SUS, ele precisa passar por uma avaliação da Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS), que analisa custo-efetividade antes de recomendar a inclusão. Esse processo pode levar de meses a anos.
Já para os pacientes da rede privada e planos de saúde, embora o Inluriyo já possa ser prescrito por oncologistas e usados no tratamento, a cobertura por planos de saúde depende de negociação e de resolução da ANS — o que pode levar meses para acontecer.
Por que medicamentos como esse são importantes para o Brasil?
O câncer de mama é o tipo de câncer mais frequente entre mulheres brasileiras, excluindo tumores de pele não melanoma. Segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), foram registrados 73.610 novos casos entre 2023 e 2025, representando 30,1% de todos os cânceres diagnosticados em mulheres no período.
A maioria desses casos, quando diagnosticada precocemente, tem bom prognóstico. O problema está nos casos avançados, especialmente nos casos que desenvolvem resistência ao tratamento ao longo do tempo. E como explicado, é exatamente para nesses casos que o Inluriyo pode fazer a diferença.
O que fazer se você acredita que o medicamento pode ajudar no seu tratamento?
Se você ou alguém próximo tem câncer de mama metastático ER+/HER2- e já fez terapia hormonal antes, aqui estão os próximos passos concretos:
- Converse com seu oncologista sobre a possibilidade de realizar o teste de mutação ESR1, caso ainda não tenha sido feito.
- Pergunte diretamente se o Inluriyo pode ser uma opção para o seu caso específico. O médico é o único que pode avaliar isso com segurança.
- Se for paciente do SUS, peça orientação sobre o status atual de acesso ao medicamento e sobre a possibilidade de entrar em contato com o serviço social do hospital para verificar alternativas.
- Registre suas perguntas por escrito antes da consulta. Quanto mais informada você chegar, mais produtiva será a conversa com o especialista.
Fontes consultadas: Anvisa; Instituto Nacional do Câncer (Inca); Agência Brasil; Eli Lilly do Brasil.
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ⓘ Este artigo foi revisado pela equipe editorial de saúde do nosso veículo em 23 de junho de 2026 e está em conformidade com nossa Política Editorial de Conteúdo Médico.