Entenda por que músicas antigas despertam lembranças e emoções e veja o que pesquisas recentes revelam sobre a relação entre música e memória.
Quem nunca se emocionou e reviveu momentos após escutar os acordes de uma música? Se ao ouvir uma canção, você já foi transportado para outro lugar, outra época e até mesmo para os braços de alguém, fique conosco.
Essa sensação não é apenas impressão e muito menos uma experiência individual. Na verdade, a relação entre música e a memória autobiográfica, aquela ligada às experiências da própria vida, vem sendo investigada pela ciência e ajuda a explicar por que algumas canções parecem funcionar como verdadeiras cápsulas do tempo.
O Centro Paulista de Psicologia (CEPAP) explica que o cérebro registra não apenas fatos e informações, mas também emoções, sensações e o contexto presente quando uma experiência acontece. Por isso, ouvir novamente uma música associada a um momento significativo pode recuperar emoções, pessoas, lugares e acontecimentos ligados àquela época.
E algumas lembranças nem precisam ser procuradas. Pesquisas recentes indicam que a música pode fazer com que memórias autobiográficas apareçam espontaneamente, o que ajuda a entender por que uma canção antiga consegue trazer o passado de volta antes mesmo de tentarmos lembrar dele.
Por que músicas antigas despertam tantas lembranças?
Músicas antigas podem despertar lembranças porque funcionam como pistas para a recuperação de experiências autobiográficas. Quando uma canção está associada a determinado acontecimento, ouvi-la novamente pode facilitar o acesso às pessoas, lugares e emoções relacionados àquele período.
A memória é responsável por registrar, armazenar e recuperar informações. No entanto, ela não funciona como uma gravação perfeita de tudo o que aconteceu. Emoções, significados pessoais e o contexto em que uma experiência foi vivida também participam da maneira como ela é registrada.
Isso ajuda a entender por que uma mesma música pode não significar nada para uma pessoa e ser extremamente marcante para outra. O que importa não é apenas a melodia, mas também a história construída em torno dela.
Em 2016, Jaclyn H. Ford, David C. Rubin e Kelly S. Giovanello investigaram essa relação em um estudo publicado na revista científica Psychomusicology: Music, Mind, and Brain. Os pesquisadores observaram que músicas familiares funcionaram como pistas eficientes para evocar memórias autobiográficas ricas.
A familiaridade teve um papel importante. Os resultados indicaram que as músicas conhecidas provocaram lembranças autobiográficas mais positivas, apresentaram maior envolvimento de regiões cerebrais associadas à recuperação autobiográfica e foram consideradas mais agradáveis pelos participantes do que músicas desconhecidas.
Por que uma música pode trazer uma lembrança de repente?
Uma música pode trazer uma lembrança de repente porque nem toda recuperação de uma memória autobiográfica acontece de maneira voluntária. Em alguns casos, a canção funciona como uma pista e a recordação simplesmente aparece, sem que a pessoa tenha tentado procurar aquela experiência no passado.
Amy M. Belfi, Elena Bai, Ava Stroud, Raelynn Twohy e Janelle N. Beadle investigaram justamente essa característica em um estudo publicado em 2022 na revista Consciousness and Cognition.
Os pesquisadores compararam lembranças evocadas por música em condições nas quais os participantes tentavam deliberadamente recuperar uma memória e em situações nas quais a lembrança aparecia de maneira mais espontânea.
As memórias recuperadas de maneira involuntária foram lembradas mais rapidamente. Elas também apresentaram maior especificidade episódica, ou seja, estavam mais relacionadas a acontecimentos específicos do passado.
Isso ajuda a explicar aquela sensação tão característica de ouvir uma música e lembrar imediatamente de uma cena específica. Não é necessário pensar “o que eu fazia quando escutava essa canção?”. Em algumas situações, a lembrança chega antes mesmo dessa busca consciente.
O que são memórias autobiográficas evocadas por música?
Memórias autobiográficas evocadas por música são recordações de acontecimentos da própria vida que surgem a partir de uma experiência musical. Na literatura científica, elas são conhecidas pela sigla MEAMs, derivada de music-evoked autobiographical memories.
Essas lembranças podem envolver diferentes partes da experiência. Uma música pode fazer alguém recordar uma pessoa, um ambiente, uma situação social ou um episódio específico.
Alexander P. Kaiser e Dorthe Berntsen, pesquisadores da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, publicaram em 2022 uma revisão sistemática na revista WIREs Cognitive Science sobre esse tipo de memória. O trabalho analisou 15 estudos com populações clínicas, incluindo pessoas com doença de Alzheimer, demência frontotemporal variante comportamental, lesões cerebrais adquiridas e depressão.
Os autores destacam que, em adultos saudáveis, as memórias autobiográficas despertadas pela música apresentam características cognitivas que podem diferenciá-las daquelas evocadas por outros tipos de pistas. A revisão também investigou se esse potencial poderia ajudar pessoas com dificuldades de acesso às próprias memórias autobiográficas.
Os resultados reunidos, porém, não foram iguais para todas as condições clínicas. Isso é importante porque evita transformar a capacidade da música de despertar lembranças em uma regra universal.
Por que as músicas antigas também podem despertar emoções?
Ouvir música pode despertar memórias. - Reprodução / Magnific
As músicas antigas podem despertar emoções porque a lembrança recuperada não está necessariamente separada da experiência emocional vivida naquele período. Uma canção associada a um momento significativo pode trazer de volta tanto informações sobre o acontecimento quanto sentimentos ligados a ele.
Determinadas músicas podem provocar alegria, saudade, conforto ou tristeza justamente por estarem conectadas a experiências anteriores. Por isso, nem toda viagem musical ao passado precisa ser agradável.
Uma canção associada a um relacionamento, uma despedida ou outro acontecimento emocionalmente importante pode recuperar sentimentos diferentes daqueles provocados por uma música relacionada a uma experiência feliz.
A relação também ajuda a explicar a nostalgia frequentemente associada às músicas antigas. Nesse caso, não estamos apenas reconhecendo uma melodia que já ouvimos. A música pode estar conectada a uma parte da nossa própria história.
Música e nostalgia são a mesma coisa?
Não, a música pode provocar nostalgia mas nem toda lembrança despertada por uma canção precisa ser nostálgica. A memória recuperada também pode estar associada a outras emoções e experiências pessoais.
A diferença é importante porque ouvir uma música conhecida não significa necessariamente sentir saudade. Uma canção também pode recuperar informações sobre uma época, uma pessoa ou um acontecimento sem provocar uma experiência nostálgica intensa. Da mesma forma, as emoções despertadas podem ser positivas ou negativas.
As lembranças fazem parte da construção da identidade e podem ser alegres, nostálgicas ou desafiadoras. As experiências acumuladas ao longo da vida participam da maneira como entendemos a nós mesmos e nossa trajetória.
A música realmente consegue funcionar como uma cápsula do tempo?
A ideia de música como “cápsula do tempo” funciona como uma boa metáfora para explicar a capacidade de uma canção de servir como pista para uma memória. Cientificamente, porém, ela não significa que o cérebro reproduza o passado exatamente como ele aconteceu. O que a música pode fazer é facilitar o acesso a experiências autobiográficas associadas a ela.
Uma pesquisa publicada em 2025 no periódico Musicae Scientiae reforça também que essa experiência não acontece da mesma maneira para todo mundo. Kelly Jakubowski, Edith Lee, Elena Bai, Amy M. Belfi e outros pesquisadores analisaram diferenças individuais relacionadas às memórias autobiográficas evocadas pela música.
O trabalho avaliou fatores como familiaridade musical, envolvimento com música, treinamento musical, capacidade de imaginar sons e imagens e sensibilidade à recompensa proporcionada pela música. Os resultados reforçam a importância das características individuais na forma como essas lembranças são experimentadas.
Isso significa que duas pessoas podem ouvir exatamente a mesma canção e ter experiências completamente diferentes.
Para uma delas, a música pode estar ligada a um episódio específico. Para outra, pode apenas soar familiar. E uma terceira pessoa talvez nunca a tenha ouvido antes.
Por que a mesma música pode lembrar uma época inteira da vida?
Uma música pode ficar associada não apenas a um acontecimento isolado, mas a pessoas, lugares e contextos de uma determinada fase da vida. Ao ser ouvida novamente, ela pode funcionar como uma pista para acessar esse conjunto de experiências.
É por isso que algumas músicas parecem pertencer a um verão, uma amizade, uma escola ou uma fase específica.
A Gomus destaca como esse efeito também é utilizado no cinema. Canções associadas a determinados períodos ajudam a situar narrativas no tempo e podem reforçar a conexão do público com uma época retratada na tela.
Na vida pessoal, porém, a trilha sonora é construída pelas próprias experiências. A música que tocava repetidamente durante uma viagem, aquela que você ouvia com uma amiga ou uma canção ligada a uma pessoa importante pode acabar conectada a outros elementos daquele período.
Anos depois, bastam alguns segundos para que a música volte a funcionar como pista. A canção continua no presente, mas a memória que ela recupera pode estar guardada há muito tempo.
É justamente essa combinação entre música, experiência pessoal e memória autobiográfica que ajuda a explicar por que dar play em uma música antiga, às vezes, parece muito mais do que simplesmente ouvir uma canção.