Contar histórias da infância pode aproximar avós e netos. Entenda como memórias, afeto e pequenos gestos ajudam a construir vínculos entre gerações.
A relação entre avós e netos pode auxiliar a formar uma criança, criar memórias e acima de tudo, transmitir memórias. Essa relação auxilia um infante a entender melhor a própria história, respondendo questões como “Como era a mamãe quando era criança?” “O vovô também aprontava?” “A vovó já foi à escola?”.
Perguntas assim podem abrir espaço para conversas que parecem simples, mas ganham outro significado dentro da família. Quando avós contam histórias de quando eram jovens ou lembram situações vividas pelos próprios filhos, a criança começa a descobrir que sua família existia muito antes dela.
Essa troca também aparece em uma pesquisa publicada em 2023 na revista Childhood & Philosophy. O estudo analisou narrativas de avós, avôs e netos e refletiu sobre como os vínculos entre diferentes gerações são construídos em pequenos gestos cotidianos.
A ideia ajuda a entender por que uma história contada durante uma conversa, uma lembrança compartilhada ou uma brincadeira podem se tornar momentos importantes na relação entre avós e netos.
Como as histórias dos avós ajudam a criança a conhecer a própria história
Na primeira infância, é comum que a criança enxergue o mundo principalmente a partir de si mesma. Conforme cresce, porém, ela começa a perceber as relações entre as pessoas que fazem parte da sua vida.
Descobre, por exemplo, que sua mãe também é filha de alguém. Que seu pai também teve uma infância. Que os avós tiveram seus próprios pais, histórias, medos, alegrias e experiências. É justamente aí que a convivência entre gerações pode ganhar outro significado.
A psicóloga clínica e psicopedagoga Jéssica Ferreira de Aguiar Bueno explica, em entrevista publicada pelo Terra, que “As crianças conseguem ver os pais não só como os adultos que são, mas também como filhos de alguém, e isso ajuda a construir o senso de pertencimento que é tão importante para nós”.
A especialista acrescenta: “Nós, humanos, buscamos pertencer a algo e esse contato próximo com os avós auxilia na compreensão de 'quem eu sou e de onde eu vim'”.
Uma história da infância, portanto, não precisa ser uma grande narrativa familiar. Pode ser uma lembrança sobre a escola, uma brincadeira, uma travessura ou qualquer episódio que ajude a criança a imaginar como era a vida de seus familiares antes de ela existir.
O vínculo entre avós e netos também aparece nos pequenos gestos
A pesquisa “Infância em relações entre avós e netos: vínculo, amor e potência de vida”, de Liana Garcia Castro, foi publicada em 2023 na revista Childhood & Philosophy. O trabalho faz parte de uma pesquisa de doutorado em educação e reuniu narrativas de sete avós e três avôs, entre 51 e 71 anos, além de seis netos com idades entre 5 e 12 anos.
As entrevistas aconteceram durante a pandemia de Covid-19. Os adultos participaram de encontros individuais, enquanto as crianças conversaram coletivamente. As interações foram realizadas por meio de ferramentas digitais.
Um dos pontos centrais das narrativas foi a chamada segurança afetiva, construída a partir de pequenos gestos do cotidiano.
Isso é importante porque mostra que a relação entre avós e netos não depende necessariamente de grandes acontecimentos. O vínculo também pode ser formado na rotina, em momentos aparentemente pequenos.
Contar uma história pode fazer parte desse espaço de convivência. Assim como brincar, conversar, lembrar de alguém ou simplesmente estar junto.
Por que conhecer as histórias da família pode criar pertencimento?
Saber de onde veio a família ajuda a criança a construir uma percepção sobre o lugar que ocupa dentro dela. A presença dos avós pode tornar esse passado mais concreto. Eles são pessoas que viveram diferentes momentos da história familiar e podem compartilhar lembranças que a criança não teria como conhecer de outra maneira.
No texto publicado pelo Terra, a psicopedagoga Jéssica Ferreira de Aguiar Bueno relaciona essa convivência à construção do senso de pertencimento.
Esse processo também pode continuar durante a vida. Para a especialista, compreender a própria história ajuda, na fase adulta, a decidir quais valores familiares serão levados adiante e “com quais ciclos ele quer romper para que não se repitam nas próximas gerações”.
Ou seja, conhecer o passado não significa simplesmente reproduzi-lo. A criança pode crescer entendendo que faz parte de uma história familiar e, mais tarde, escolher quais aspectos dessa história deseja manter ou transformar.
Avós também podem descobrir algo novo nessa relação
A pesquisa publicada na Childhood & Philosophy não olha apenas para o que as crianças recebem dessa convivência. As narrativas reunidas no trabalho também mostram que o encontro entre pessoas mais velhas e crianças pode produzir novas experiências para os próprios adultos.
O estudo relaciona essa convivência à possibilidade de reencontrar a sensibilidade, a capacidade de brincar e de criar. A relação com as crianças aparece, nas narrativas analisadas, como uma oportunidade de reinventar a si mesmo e reaprender a alegria dos começos.
Isso ajuda a fugir da ideia de que somente os netos são beneficiados pela relação. Avós e netos constroem a convivência juntos. Uma lembrança pode virar conversa. Uma conversa pode virar brincadeira. E uma brincadeira pode se transformar em uma memória compartilhada pelos dois.
A convivência com os avós também ensina sobre o envelhecimento
A presença de pessoas mais velhas na vida da criança pode ainda ajudar na compreensão das diferenças entre gerações. O Terra destaca que conviver com os avós permite que os pequenos percebam diferenças relacionadas à idade e aprendam a lidar com elas de maneira natural.
Para Jéssica, essa convivência contribui para o desenvolvimento de paciência e respeito diante das limitações que pessoas idosas podem apresentar.
“A criança vai percebendo o lugar dos avós na dinâmica familiar e na sociedade. Ela consegue ir desenvolvendo paciência e respeito em relação às limitações que as pessoas mais idosas têm, e é importante que aprenda de fato, para que leve isso para o resto da vida. É essencial que ela note o envelhecimento como algo natural, que acontece com todos”, afirma a psicopedagoga.
Assim, a relação não envolve apenas carinho. Ela também pode apresentar à criança diferentes fases da vida e maneiras de estar no mundo.
E quando os avós mimam demais?
Existe uma diferença entre o papel dos pais e o dos avós dentro da família.
Os avós podem ter uma relação mais descontraída com os netos. É o famoso papel de “pais com açúcar”, como brinca o texto do Terra.
Para a psicopedagoga, isso acontece porque os pais carregam uma responsabilidade maior pela educação dos filhos, enquanto os avós podem oferecer apoio aos próprios filhos e carinho aos netos. O problema aparece quando os mimos interferem nas regras estabelecidas pelos pais.
Nesse caso, a recomendação apresentada pela especialista é manter a comunicação aberta. Os adultos precisam respeitar os papéis uns dos outros, sem que a relação entre avós e netos vire motivo de desautorização dos pais.
Ainda assim, nem todo mimo precisa ser encarado como um problema. Segundo Jéssica, quando os pais estão alinhados em relação aos seus propósitos de vida e educação dos filhos, os momentos de mimo não precisam desestabilizar a rotina familiar.
Não existe uma fórmula para criar uma relação próxima entre avós e netos. O que aparece tanto na pesquisa acadêmica quanto no relato de especialista é a importância dos encontros e dos pequenos gestos que constroem segurança afetiva e vínculo.
Uma história da infância pode ser uma dessas oportunidades. O avô pode contar como era sua escola. A avó pode lembrar de uma brincadeira. Os pais podem ajudar a explicar quem aparece em uma fotografia antiga. A criança pode fazer perguntas e descobrir que aquelas pessoas que conhece como adultos também foram crianças um dia.
São conversas simples, mas capazes de conectar diferentes momentos da história familiar. E talvez seja justamente essa a graça. Não é preciso preparar uma grande atividade para criar uma lembrança especial. Às vezes, basta sentar perto, abrir espaço para a conversa e deixar uma história antiga encontrar uma nova geração.