Pesquisa brasileira aponta associação entre terapia hormonal e melhor qualidade de vida em mulheres na menopausa com dor na mandíbula. Entenda os resultados do estudo.
A terapia hormonal pode estar associada a uma melhor qualidade de vida em mulheres na menopausa que convivem com dor na mandíbula. Essa é a conclusão de um estudo brasileiro realizado por pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), que investigou como o tratamento se relaciona aos aspectos físicos, emocionais e funcionais da disfunção temporomandibular (DTM).
Os resultados mostraram que mulheres em terapia hormonal relataram menor impacto da dor nas atividades do dia a dia, além de apresentarem menos sintomas de ansiedade, depressão e pensamentos negativos relacionados à dor. Os pesquisadores, porém, fazem um alerta importante: o estudo identificou uma associação entre esses fatores, mas não comprovou que a terapia hormonal seja a causa direta dessa melhora.
O que é a disfunção temporomandibular?
A disfunção temporomandibular, conhecida pela sigla DTM, é uma condição que afeta a articulação responsável pelos movimentos da mandíbula e também os músculos utilizados na mastigação.
Quem convive com o problema pode apresentar dor na face, dificuldade para abrir ou fechar a boca, desconforto ao mastigar, estalos na articulação, sensação de travamento da mandíbula e até dores de cabeça.
Segundo os pesquisadores, a condição é mais frequente entre mulheres e pode ser influenciada por diversos fatores, incluindo aspectos físicos, emocionais e hormonais. A menopausa desperta interesse dos cientistas porque essa fase é marcada pela redução dos níveis de estrogênio, hormônio que participa dos mecanismos relacionados à percepção da dor.
O que a pesquisa brasileira avaliou?
O estudo foi publicado no Journal of Applied Oral Science e fez parte da tese de doutorado de Lays Nóbrega Gomes Farias, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Odontologia da UFPB.
Ao todo, foram avaliadas 45 mulheres diagnosticadas com DTM dolorosa. As participantes foram divididas em três grupos:
- mulheres com ciclo menstrual regular;
- mulheres na menopausa sem terapia hormonal;
- mulheres na menopausa utilizando terapia hormonal.
Além da intensidade da dor, os pesquisadores também analisaram ansiedade, depressão, limitação funcional da mandíbula, impacto da dor na rotina e um aspecto chamado catastrofização, caracterizado por pensamentos excessivamente negativos sobre a dor. Esse é um dos diferenciais do trabalho em relação a estudos anteriores, que costumavam focar apenas na intensidade dos sintomas.
Mulheres em terapia hormonal relataram melhor qualidade de vida
Os resultados indicaram que as mulheres na menopausa que utilizavam terapia hormonal apresentaram menor interferência da dor nas atividades diárias.
Além disso, esse grupo registrou menores índices de ansiedade, depressão e catastrofização quando comparado às participantes que não utilizavam a terapia hormonal ou que ainda estavam em idade reprodutiva.
Segundo a cirurgiã-dentista Mayara Abreu Pinheiro, professora da UFPB e uma das autoras da pesquisa, o objetivo foi ampliar a compreensão sobre a experiência da dor.
"Ainda existem poucos estudos avaliando mulheres com DTM dolorosa sob diferentes condições hormonais, especialmente considerando fatores emocionais e cognitivos relacionados à dor. Nosso objetivo foi ampliar essa compreensão e analisar a DTM dentro de uma perspectiva biopsicossocial."
A intensidade da dor não mudou entre os grupos
Apesar dos resultados positivos relacionados à qualidade de vida, os pesquisadores observaram um detalhe importante. O estudo não encontrou diferenças significativas na intensidade da dor entre os grupos avaliados. Segundo a cirurgiã-dentista, a principal associação observada envolveu fatores emocionais e psicossociais.
"O estudo não mostrou diferenças significativas na intensidade da dor entre os grupos. O que observamos foi uma associação mais forte entre a terapia hormonal e os aspectos emocionais e psicossociais da experiência dolorosa." Isso reforça que a dor crônica vai além do componente físico. "A dor não é apenas um fenômeno físico. A forma como a pessoa interpreta e enfrenta essa experiência pode influenciar diretamente seu sofrimento e a sua qualidade de vida”, complementa.
O possível papel do estrogênio
Uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores envolve a atuação do estrogênio no sistema nervoso. Segundo as evidências citadas no estudo, esse hormônio participa da regulação de mecanismos relacionados à sensibilidade da face e à percepção da dor.
Com a queda natural dos níveis de estrogênio durante a menopausa, esses processos podem sofrer alterações. Mesmo assim, os pesquisadores reforçam que a DTM é uma condição multifatorial.
"A queda do estrogênio durante a menopausa pode afetar mecanismos relacionados à modulação da dor, à inflamação e às respostas emocionais. Contudo, é importante lembrar que a DTM é uma condição multifatorial e não depende exclusivamente dos hormônios”, destaca Pinheiro.
Os resultados devem ser interpretados com cautela
Embora os achados sejam promissores, os próprios autores alertam que o estudo possui limitações importantes.
Por se tratar de uma pesquisa piloto e de caráter transversal, ela não permite estabelecer uma relação de causa e efeito entre a terapia hormonal e a melhora observada. Isso significa que não é possível afirmar que o tratamento seja responsável pelos resultados encontrados. A autora reforça esse cuidado ao afirmar:
"Nosso estudo demonstra uma associação, mas não uma relação de causa e efeito. A terapia hormonal não deve ser indicada como tratamento para DTM. A decisão sobre seu uso deve sempre ser individualizada e conduzida por médicos, considerando benefícios, riscos e características de cada paciente."
Para os pesquisadores, os resultados mostram a importância de considerar não apenas os sintomas ginecológicos da menopausa, mas também condições dolorosas crônicas, saúde mental e qualidade de vida.
A equipe defende uma abordagem integrada para mulheres que convivem com dores persistentes.
"As descobertas apontam para a importância de uma abordagem interdisciplinar. Mulheres com dor crônica frequentemente apresentam também sofrimento emocional, alterações do sono e limitações funcionais. Um cuidado integrado aumenta as chances de oferecer um tratamento mais adequado e abrangente”, aponta Pinheiro.
Os pesquisadores também informaram que pretendem realizar novos estudos com um número maior de participantes e acompanhamento ao longo do tempo. As próximas pesquisas deverão incluir a análise dos níveis de estrogênio no sangue, além de investigar o tipo, a dose e a duração da terapia hormonal utilizada pelas participantes.
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