A perda auditiva está associada a maior risco de demência. Entenda a relação com o cérebro, os sinais de alerta e quando procurar avaliação.
A perda auditiva costuma aparecer ao longo dos anos, de modo que não é incomum encontrar idosos com dificuldades de escutar. Por parecer parte natural do envelhecimento, o problema nem sempre recebe a atenção necessária, porém, isso é um equívoco.
Mas a perda da audição vai além da dificuldade para escutar. Na verdade, ela também está associada a um risco maior de demência e pode afetar a comunicação, a interação social e o esforço que o cérebro precisa fazer para compreender os sons.
Isso não significa que uma pessoa com perda auditiva necessariamente desenvolverá Alzheimer ou outro tipo de demência. A relação é mais complexa. A perda auditiva aparece como um fator de risco, enquanto a própria alteração na audição também pode ser um sinal inicial de mudanças no cérebro.
Por isso, prestar atenção à saúde dos ouvidos também faz parte do cuidado com a saúde cerebral.
Qual é a relação entre perda auditiva e Alzheimer?
Pesquisas associam a perda auditiva a um risco maior de desenvolver demência. A perda auditiva na meia-idade aparece entre os principais fatores de risco modificáveis relacionados à condição.
Um relatório da Lancet Commission citado pelo Instituto Medicina em Foco aponta que a perda auditiva na meia-idade está associada a cerca de 8% dos casos de demência potencialmente preveníveis ou adiáveis. O Portal Drauzio Varella também destaca a associação entre os dois problemas e informa que até 8% dos casos de demência podem ser atribuídos à perda auditiva.
A intensidade da perda também parece fazer diferença. De acordo com a Alzheimer's Society, pessoas com perda auditiva leve apresentam quase o dobro do risco de desenvolver demência em comparação com quem não tem perda auditiva. O risco aumenta para cerca de três vezes nos casos moderados e chega a quase cinco vezes nos casos graves.
Ainda assim, é importante fazer uma distinção. Esses dados tratam da relação entre perda auditiva e demência de forma geral. Eles não significam que a perda auditiva seja uma causa direta e isolada do Alzheimer.
A própria Alzheimer's Society explica que a relação ainda não está completamente esclarecida. A perda auditiva pode ser um fator de risco, um sinal inicial de demência ou os dois ao mesmo tempo.
Por que a perda auditiva pode afetar o cérebro?
Ouvir parece uma tarefa simples, mas envolve diferentes regiões cerebrais. Quando a audição diminui, o cérebro precisa trabalhar mais para interpretar aquilo que está sendo dito.
Imagine uma conversa em um ambiente barulhento. Quem tem dificuldade para ouvir precisa se concentrar ainda mais para identificar as palavras, separar a fala dos outros sons e entender o que está sendo dito.
Esse esforço adicional pode competir com recursos utilizados por outras funções, como atenção, compreensão e retenção de informações. Com o passar do tempo, essa sobrecarga é uma das explicações estudadas para a relação entre perda auditiva e declínio cognitivo.
A falta de estímulo sonoro também pode ter consequências. O córtex auditivo, região do cérebro responsável pela percepção e pelo processamento dos sons, recebe menos estímulos quando a capacidade de ouvir diminui. Segundo o Portal Drauzio Varella, outras áreas cerebrais também podem ser afetadas ao longo do tempo.
A Alzheimer's Society acrescenta que a perda auditiva está associada a mudanças mais rápidas em áreas do cérebro responsáveis pelo processamento dos sons e pelas memórias.
Perda auditiva também pode levar ao isolamento social
A relação entre perda auditiva e demência não envolve apenas o funcionamento do cérebro. A vida social também entra nessa equação.
Quando acompanhar uma conversa se torna difícil, encontros com familiares e amigos podem ficar cansativos. Em alguns casos, a pessoa passa a evitar situações em que terá dificuldade para entender o que está sendo falado.
Aos poucos, isso pode reduzir a participação em atividades sociais e aumentar o isolamento.
A Alzheimer's Society explica que pessoas com problemas de audição podem se afastar de situações sociais e se tornar mais isoladas. O isolamento social e a depressão, por sua vez, também estão associados ao risco de demência.
A dificuldade para compreender conversas e o receio de incomodar outras pessoas podem fazer com que idosos evitem interações. Com menos estímulos provenientes dessas relações, habilidades cognitivas podem ser prejudicadas.
Esse é mais um motivo para não tratar a perda auditiva simplesmente como uma consequência inevitável da idade.
Quais sinais de perda auditiva merecem atenção?
A perda auditiva relacionada ao envelhecimento costuma surgir gradualmente. Por isso, os primeiros sinais podem ser discretos e passar despercebidos. Algumas situações do cotidiano merecem atenção:
- Aumentar o volume da televisão ou do rádio mais do que costumava fazer.
- Pedir frequentemente para que outras pessoas repitam o que disseram.
- Ter dificuldade para acompanhar conversas em ambientes barulhentos.
- Sentir que as pessoas estão falando baixo demais.
- Perceber cansaço mental depois de conversas ou encontros prolongados.
- Apresentar zumbido ou sensação de ouvido tampado.
Esses sinais não confirmam, sozinhos, uma perda auditiva. Mas podem indicar que vale a pena procurar uma avaliação.
A perda auditiva pode ter diferentes causas. Entre elas está a presbiacusia, alteração relacionada ao envelhecimento da audição. A exposição prolongada a sons intensos também pode estar envolvida.
Como a perda auditiva é avaliada?
A investigação começa com uma avaliação médica. Durante a consulta, alguns exames podem ser utilizados para entender o grau e o tipo da alteração.
A audiometria tonal e vocal ajuda a mapear a perda auditiva. A imitanciometria avalia a integridade da orelha média. Também podem ser investigadas queixas como zumbido e dificuldade para compreender a fala.
A inspeção do canal auditivo permite identificar problemas como acúmulo de cerume ou alterações estruturais.
Essa avaliação é importante porque nem toda dificuldade para ouvir tem a mesma origem. Identificar a causa ajuda a definir o acompanhamento adequado.
Aparelho auditivo pode ajudar na saúde cerebral?
Quando existe indicação, o aparelho auditivo pode facilitar o acesso aos sons e melhorar a comunicação. Isso pode contribuir para a participação em conversas e atividades sociais e reduzir o esforço necessário para compreender a fala.
Mas ainda não é possível afirmar que aparelhos auditivos previnam a demência. Um ensaio clínico randomizado publicado no The Lancet em 2023 acompanhou 977 idosos com perda auditiva não tratada durante três anos.
Na análise principal, a intervenção auditiva não reduziu a queda cognitiva no grupo total de participantes. Entre idosos considerados de maior risco cognitivo, porém, o aconselhamento audiológico e o uso de aparelhos foram associados a uma redução de 48% na velocidade do declínio cognitivo.
A Alzheimer's Society também afirma que existem evidências de que o uso de aparelhos, quando necessário, pode reduzir sintomas cognitivos e desacelerar o declínio cognitivo em pessoas sob risco. Porém, ainda não está claro se eles conseguem prevenir a demência.
Por isso, o aparelho deve ser indicado e ajustado individualmente. A adaptação também pode levar algum tempo, e ajustes são importantes quando o equipamento continua causando desconforto ou não facilita a compreensão em ambientes ruidosos.
Como cuidar da audição e reduzir possíveis impactos?
O primeiro passo é não ignorar mudanças na capacidade de ouvir. Se a pessoa percebe que está aumentando cada vez mais o volume da televisão, pedindo repetições ou tendo dificuldade para acompanhar conversas, uma avaliação pode ajudar a identificar o que está acontecendo.
Também é importante proteger os ouvidos de sons muito intensos. É recomendado o uso de protetores auriculares em ambientes muito barulhentos, como shows, a procura por atendimento médico diante de alterações na audição e o uso de aparelhos auditivos quando houver recomendação.
O acompanhamento não precisa terminar depois de uma única consulta. A audição pode mudar ao longo dos anos, e o acompanhamento pode incluir novas audiometrias, ajustes de aparelhos e investigação de sintomas como zumbido ou dificuldade persistente para compreender a fala.
Cuidar da audição, portanto, não significa apenas conseguir ouvir melhor. Também envolve preservar a comunicação, manter a participação social e acompanhar possíveis mudanças que possam interferir na saúde cognitiva.
A relação entre perda auditiva e Alzheimer ainda não pode ser resumida a uma causa direta. O que já se sabe é que a perda auditiva está associada a um risco maior de demência e pode envolver mecanismos relacionados ao esforço cognitivo, à redução dos estímulos sonoros e ao isolamento social.
Por isso, aquela dificuldade que parece pequena no dia a dia merece atenção. Ouvir melhor também pode significar permanecer mais conectado às pessoas e ao ambiente ao redor.