O formato que mais cresceu no entretenimento brasileiro no primeiro semestre de 2026 não veio de uma produtora, ou de uma plataforma de streaming, nem mesmo de uma emissora. Veio de perfis no TikTok que descobriram uma equação simples: frutas com feições humanas + roteiros de novela + IA generativa. O resultado acumula centenas de milhões de visualizações e uma pergunta que ainda não tem resposta consensual: o que esse tipo de conteúdo ensina a quem assiste?
Com episódios que acumulam dezenas de milhões de visualizações no TikTok, as novelas de frutas que misturam estética de animação com roteiros de novela tomaram conta do Brasil, atraiu a atenção de marcas e, agora, de especialistas em saúde mental.
De dicas de saúde a melodramas digitais
No começo, os vídeos de frutas animadas por IA tinham propósito informativo. Personagens com feições humanas apareciam explicando benefícios nutricionais, modos de preparo e receitas. Com o tempo, o formato mudou de direção.
O ponto de virada veio com o Fruit Love Island, uma releitura do reality show britânico de namoro Love Island protagonizada por frutas antropomórficas. Publicado no TikTok pelo perfil AI Cinema, o primeiro episódio acumula milhões de visualizações. A partir daí, o modelo se disseminou. No Brasil, personagens como Abacatudo e Bananildo passaram a viver seus próprios melodramas, com tramas de romance, traição, vingança e dinâmicas familiares.
Diante do sucesso até mesmo marcas famosas começaram a entrar na onda das frutas feitas por IA. O Burger King lançou uma mininovela em que alface, tomate e cebola tentam entrar no restaurante e são rejeitados por serem artificiais. Já o iFood usou o mesmo universo para mostrar Moranguete descobrindo a traição do parceiro por meio de um endereço novo cadastrado no aplicativo. Em todos os casos a lógica é a mesma: roteiros curtos, conflitos dramáticos e personagens reconhecíveis.
O que há por trás do entretenimento
Para o Dr. Cândido Fontan Barros, médico psiquiatra e doutor pelo Instituto de Psicologia da USP, a popularidade desses vídeos não é surpreendente. Narrativas curtas com linguagem simples, estética de animação e enredos carregados de emoção funcionam bem com qualquer público, especialmente com jovens ainda formando seus referenciais.
Segundo o psiquiatra, o principal risco não está na tecnologia em si, mas no conteúdo que essas novelas propagam. Alguns vídeos do gênero incluem cenas de agressão, discursos preconceituosos e situações extremas apresentadas sem qualquer contextualização crítica.
"Essa preocupação que vem afligindo os adultos não se encerra somente no universo digital, porque mesmo a mídia escrita pode ter conteúdos considerados como produtivos, favoráveis, criativos e éticos ou que reforçam discursos extremados de ódio e intolerância, que promovem alienação e podem ser consumidos pelo público jovem de uma maneira acrítica", afirmou o psiquiatra à CNN Brasil.
A questão, portanto, não é nova e não é exclusiva da novelas criadas com inteligência artificial. O que muda é a velocidade com que esse tipo de conteúdo chega até as crianças e adolescentes, e a dificuldade de rastrear o que está sendo consumido por eles.
Não é só o cérebro que está em jogo
Quando se fala em conteúdo digital e crianças, a discussão costuma girar em torno do tempo de tela e dos efeitos cognitivos nocivos. Mas o Dr. Barros propõe um terceiro eixo, menos visível e mais difícil de mensurar: a formação ética por absorção.
Em outras palavras, o risco não é apenas que um jovem assista a uma única cena de agressão ou inapropriada; é que, na ausência de mediação adulta, certos padrões de comportamento — traição tratada como entretenimento, agressão como recurso dramático, preconceito como piada — possam ser absorvidos sem questionamento. Quando esses elementos aparecem em formato de animação, com estética lúdica e personagens simpáticos, o filtro crítico já limitado em crianças e adolescentes tende a baixar ainda mais.
"A questão não envolve apenas a limitação etária, mas sim pensar a criança de uma maneira global no seu desenvolvimento, englobando o afetivo, o social e as redes de cuidado, que incluem seus pares, as instituições, a escola, o bairro, a coletividade e a sociedade como um todo", disse o especialista.
Há poucos anos tivemos a prova de como a internet pode ser perigosa para adolescentes e crianças. O chamado "jogo da baleia azul", que propunha desafios progressivamente perigosos a adolescentes, causou pânico justamente porque se espalhava fora do alcance dos pais com uma velocidade que tornava a supervisão quase impossível.
"Isso mostra que o cuidado ético deve incluir não somente os pais e a escola, mas também os criadores de mídias, as plataformas e os criadores das inteligências artificiais. Porque esses meios podem promover cultura, criatividade, ética e conhecimento, mas também podem ser usados para disseminar notícias falsas, abalar os ditames da democracia, afetar moralmente pessoas que se tornam vítimas de abuso ou promover intolerâncias", pontuou Barros.
A IA como ferramenta, não como veredicto
Diante de tantos alertas, seria fácil concluir que a inteligência artificial é, por natureza, prejudicial à formação dos jovens, mas o Dr. Barros rejeita essa simplificação. Segundo ele, a tecnologia, em si, é neutra. O que determina seu impacto é o uso que se faz dela e quem está por trás das decisões editoriais e algorítmicas que definem o que chega até cada usuário.
"Os adultos podem usar as IAs de uma maneira que promova a tolerância, a inclusão e a democracia, ao mesmo tempo em que mitigam os usos desfavoráveis e desalinhados. Dessa forma, com essa promoção e a experiência de confiabilidade, os jovens poderão utilizar todo o potencial da IA para promover a ciência, o crescimento coletivo e o alinhamento moral, buscando um uso mais criativo e ético possível", refletiu o psiquiatra.
O ponto central, então, é a mediação. Frutas que protagonizam dramas de traição não são por si só um problema. Elas tornam-se uma quando chegam às crianças sem que haja adultos disponíveis para contextualizar o que está sendo assistido e para conversar sobre o que aquelas histórias dizem, ou deixam de dizer, sobre o mundo real.
Moranguete e Abacatudo vão continuar existindo nas telas. A pergunta relevante não é como impedir isso, mas quem está ao lado de quem assiste.