Como personagens de morango, abacate e banana gerados por inteligência artificial viraram os novos donos da nossa atenção e o que isso diz sobre nós?
Tudo começou com uma postagem no X de um perfil com foto de gatinho que não parecia dizer coisa com coisa: "Aconteceu comigo! Estou viciada nas novelinhas de frutas. Gente, eu PRECISO saber o que vai acontecer com o Abacatudo e a Moranguete! Mais alguém?". Sem entender do que se tratava, deslizei o dedo para ler os comentários e me deparei com dezenas de pessoas com opiniões muito firmes sobre o relacionamento amoroso entre um abacate e um morango. Isso mesmo! Um abacate. E um morango. Que se relacionam. Romanticamente.
Alguns scrolls depois, lá estava o vídeo. Frutas humanoides geradas por IA, vivendo um drama amoroso com mais intensidade do que a maioria das pessoas reais consegue sustentar. Eu não sabia quem era o Abacatudo, não entendia por que a Moranguete estava tão magoada, e os comentários faziam referência a eventos anteriores como se fossem fatos históricos conhecidos. Não havia outra saída. Eu precisava voltar ao começo e desvendar o que estava acontecendo. Por rigor. Por respeito à narrativa. Por pura responsabilidade intelectual. Nada mais que isso.
Duas horas depois, eu ainda estava com o celular na mão vendo um episódio atrás do outro. Eram onze da noite. Eu já devia estar dormindo, ou pelo menos tentando dormir logo. Em vez disso, estava deitado na cama com o celular na mão, ouvindo um morango animado por inteligência artificial se arrepender das escolhas amorosas e indignado, xingando mentalmente um abacate. Um abacate que não existe.
Se alguém tivesse descrito essa cena para mim há duas semanas, eu teria sugerido uma consulta com especialista. Mas em 2026, isso é só uma segunda-feira normal para metade do Brasil.
As novelas de frutas chegaram sem avisar e sem pedir licença. De repente, o TikTok e o Instagram ficaram tomados por morangos dramáticos, abacates traidores, bananas com complexo de superioridade e laranjas que guardam rancor desde o episódio três. Os personagens têm nomes, histórias, arcos de desenvolvimento e uma capacidade de julgamento moral que envergonha muita gente real.
O enredo é sempre o mesmo e ao mesmo tempo nunca é. Traição, vingança, humilhação pública, redenção improvável... Não tem nada de educativo, nada de útil, nada que justifique o tempo investido. É puro drama. E é irresistível! (Para quem ainda não foi fisgado, aproveite enquanto pode!)
O internauta brasileiro, é claro, abraçou o formato com a intensidade que só o brasileiro sabe ter. Em dias, surgiram versões nordestinas, versões sertanejas, versões com sotaque carioca e até fã-clube dos personagens...
Tentei explicar o fenômeno para uma amiga que ainda não tinha visto. Ouvi a mim mesmo dizer, com total seriedade, que o Abacatudo tinha feito uma coisa imperdoável e que a Moranguete era uma sonsa. Minha amiga me olhou como quem pensa em pedir socorro. No dia seguinte ela me mandou mensagem de manhã bem cedo: "O Abacatudo não tem salvação."
É assim que funciona. Você assiste por curiosidade, fica por envolvimento e acorda no dia seguinte com opiniões firmes sobre o caráter moral de uma fruta que não existe. O algoritmo sabe exatamente o que está fazendo. Cada episódio termina no momento errado, a continuação começa no momento certo, e o tempo escorrega entre os nossos dedos com uma naturalidade que assusta.
Críticos dizem que o conteúdo é raso, violento, problemático... E parte deles tem razão. Mas o fenômeno em si revela algo que vale observar: quando a narrativa é simples e o conflito é claro — mesmo que embalada em casca de fruta gerada por IA —, a atenção humana vai junto.
Quanto a mim, já não me preocupo mais com as frutas às onze da noite. Mas às vezes ainda me pergunto se alguém fez uma versão com jiló. O jiló, convenhamos, merecia ter sua história contada.