Saiba o que acontece quando você começa a comer mais fibras e entenda os efeitos no intestino, na microbiota, na saciedade e os riscos do consumo exagerado.
Você sabia que aumentar o consumo de fibras pode mudar bastante a forma como o intestino funciona? Em poucas semanas, o trânsito intestinal pode ficar mais regular, as fezes podem ganhar volume e consistência adequados e a microbiota passa a ter mais substrato para produzir compostos importantes para o organismo.
Mas isso não significa que comer o máximo possível seja melhor. A chamada fibermaxxing, tendência que ganhou espaço nas redes sociais, incentiva o aumento do consumo de fibras. Em alguns casos, a prática chega ao uso de suplementos e grandes quantidades do nutriente.
O problema é que o intestino precisa de tempo para se adaptar. Quando a quantidade aumenta de uma vez, podem aparecer gases, cólicas, inchaço, diarreia ou até prisão de ventre. A hidratação também faz diferença nesse processo.
Por isso, entender o que acontece quando você começa a comer mais fibras é importante para aproveitar os benefícios sem transformar uma mudança saudável em fonte de desconforto.
O que acontece com o intestino quando você começa a comer mais fibras?
As fibras são carboidratos que o organismo não consegue digerir completamente. Elas chegam ao intestino e exercem funções diferentes de acordo com o tipo.
As fibras insolúveis ajudam a aumentar o volume das fezes e favorecem o trânsito intestinal. Já as fibras solúveis absorvem água e podem formar uma espécie de gel, retardando a digestão e a absorção de alguns nutrientes.
Na prática, aumentar o consumo de fibras pode deixar as evacuações mais regulares. Uma meta-análise publicada no PubMed encontrou aumento da frequência das evacuações entre pessoas com constipação que consumiram fibras em comparação com placebo.
Esse efeito não acontece necessariamente de um dia para o outro. O intestino precisa se adaptar à nova quantidade de fibras, principalmente quando a alimentação anterior tinha pouco desse nutriente.
A digestão pode ficar mais regular
Uma das mudanças mais perceptíveis ao aumentar as fibras é justamente no funcionamento intestinal.
Com mais fibras na alimentação, o bolo fecal pode ganhar volume. As fibras insolúveis contribuem para esse processo, enquanto a presença de água ajuda a manter as fezes mais adequadas para a eliminação.
Por isso, simplesmente adicionar grandes quantidades de alimentos ricos em fibras sem aumentar a ingestão de líquidos pode produzir o efeito contrário ao esperado.
A Healthline também recomenda aumentar as fibras gradualmente e beber bastante água para reduzir a possibilidade de gases, inchaço e constipação.
A microbiota intestinal também sente a diferença
Nem toda fibra é utilizada pelo organismo da mesma maneira. Algumas são fermentadas pelas bactérias presentes no intestino. Esse processo produz ácidos graxos de cadeia curta, conhecidos pela sigla SCFAs. Entre eles está o butirato, que serve como fonte de energia para células do cólon.
É justamente aí que entra a relação entre alimentação e microbiota. Uma revisão publicada em 2024 na Nature Reviews Microbiology mostra que as fibras alimentares podem modificar a ecologia e o metabolismo da microbiota intestinal. Os efeitos, porém, variam de acordo com o tipo de fibra e também entre indivíduos.
Isso significa que aumentar as fibras não representa apenas uma mudança na frequência de ir ao banheiro. O nutriente também participa de interações entre alimentação, bactérias intestinais e funcionamento do organismo.
Você pode sentir mais saciedade
Alimentos ricos em fibras também podem contribuir para uma sensação maior de saciedade. Parte desse efeito está relacionada à forma como determinados tipos de fibra retardam a digestão e a absorção de nutrientes. A revisão publicada na Nature Reviews Gastroenterology & Hepatology destaca a relação entre fibras, microbiota intestinal e mecanismos envolvidos na regulação do peso e do metabolismo.
Isso não significa que aumentar fibras, isoladamente, provoque emagrecimento. A alimentação e o metabolismo envolvem diversos fatores. A ideia é mais simples: incluir alimentos ricos em fibras pode fazer parte de uma alimentação que favorece a saciedade.
O consumo adequado está associado a benefícios para a saúde
A relação entre fibras e saúde vai além da digestão. Uma grande revisão sistemática com metanálises publicada no The Lancet avaliou estudos observacionais e ensaios clínicos sobre qualidade dos carboidratos.
Os pesquisadores encontraram associação entre maior consumo de fibras e menor risco de mortalidade geral e cardiovascular, doença coronariana, acidente vascular cerebral, diabetes tipo 2 e câncer colorretal. Nos ensaios clínicos, maiores ingestões também estiveram relacionadas a menores valores de peso corporal, pressão arterial sistólica e colesterol total.
A análise encontrou os maiores benefícios associados a consumos de aproximadamente 25 a 29 gramas de fibras por dia, embora quantidades maiores também tenham apresentado benefícios em alguns desfechos.
Uma análise publicada em 2023, também disponível no PubMed, chegou a resultados semelhantes. O trabalho reuniu estudos de coorte e encontrou associação entre maior ingestão de fibras e menor risco de mortalidade por todas as causas, por doenças cardiovasculares e por câncer.
Esses resultados mostram por que as fibras aparecem com frequência nas recomendações de uma alimentação equilibrada.
Comer mais fibras não significa comer fibras de qualquer jeito
A qualidade e a variedade da alimentação continuam importantes, viu? As frutas, legumes, verduras, feijões, lentilhas, aveia, cereais integrais, castanhas e sementes estão entre os alimentos que podem contribuir para o consumo de fibras.
A variedade também ajuda a fornecer diferentes tipos de fibras. A Nature Reviews Microbiology ressalta que diferentes fibras podem produzir efeitos distintos sobre a microbiota e que a resposta pode variar de uma pessoa para outra.
Por isso, não é necessário transformar um único alimento em protagonista da alimentação. A proposta da fibermaxxing de concentrar grandes quantidades de fibras na rotina pode parecer atraente nas redes sociais, mas não deve ser confundida com uma recomendação para exagerar no consumo.
O que acontece quando você aumenta as fibras rápido demais?
É aqui que uma mudança positiva pode começar a causar problemas. Quando a quantidade de fibras aumenta de forma brusca, o intestino pode não conseguir se adaptar ao novo volume e à maior fermentação. O resultado pode ser gases, cólicas, inchaço, constipação ou diarreia.
A quantidade elevada de fibras também pode aumentar a sensação de saciedade a ponto de reduzir o consumo de outros nutrientes importantes. Em situações extremas, uma alimentação muito rica em fibras acompanhada de pouca ingestão de líquidos pode contribuir para obstruções intestinais.
Pessoas com determinadas doenças gastrointestinais também precisam de atenção. A BBC Good Food orienta que quem tem condições como síndrome do intestino irritável, doença inflamatória intestinal ou diverticulite converse com um médico ou nutricionista antes de aumentar significativamente o consumo de fibras.
Como aumentar as fibras sem sobrecarregar o intestino?
A principal estratégia é ir devagar. Se a alimentação atual tem poucas fibras, não é necessário mudar tudo de uma vez. A introdução gradual permite que o sistema digestivo e as bactérias intestinais se adaptem ao novo padrão alimentar.
Também é importante distribuir os alimentos ricos em fibras ao longo do dia, em vez de concentrar uma quantidade muito grande em uma única refeição. Essa distribuição pode ajudar a reduzir gases, inchaço e cólicas.
A hidratação acompanha esse processo. A água ajuda as fibras a desempenharem suas funções no sistema digestivo e pode reduzir o risco de constipação associado ao aumento rápido do consumo.
Outra orientação é priorizar alimentos variados em vez de depender de suplementos ou produtos enriquecidos com fibras. A Healthline recomenda obter o nutriente de diferentes grupos de alimentos, como frutas, vegetais, grãos integrais, leguminosas, castanhas e sementes.
Afinal, vale a pena comer mais fibras todos os dias?
Sim, afinal, o consumo adequado de fibras está associado a diversos benefícios para a saúde, especialmente quando elas fazem parte de uma alimentação variada. O intestino pode ficar mais regular.
A microbiota intestinal recebe substratos para sua atividade. A saciedade pode aumentar e além disso, estudos de grande porte associam um maior consumo de fibras a melhores resultados em diferentes indicadores de saúde.
Mas existe uma diferença importante entre comer mais fibras e comer fibras em excesso. O organismo precisa de adaptação. Aumentar a quantidade gradualmente, variar as fontes e manter uma hidratação adequada são medidas importantes para reduzir desconfortos.
A ideia, portanto, não é transformar a alimentação em uma competição para atingir o maior número possível de gramas. É fazer das fibras uma presença regular e variada no prato.