Após anos convivendo com uma dor excruciante na perna, homem finalmente descobre que a causa estava em um detalhe esquecido do seu passado.
Conviver com o Parkinson já é difícil. Agora, imagine que além de lidar com as complicações desse diagnóstico ainda ter que conviver por anos com uma dor tão forte que o impede de andar, sem que nenhum remédio funcione e sem que ninguém consiga explicar a causa. Foi exatamente isso o que aconteceu com o contador aposentado Arthur (nome trocado para proteger a privacidade).
O que aconteceu com Arthur: dos primeiros sintomas ao tratamento
Em 2004, quando tinha acabado de completar 54 anos, Arthur recebeu o diagnóstico de Parkinson, uma doença progressiva do sistema nervoso conhecida sobretudo por afetar o equilíbrio e os movimentos. Lidar com a notícia e todos os sintomas da doença não era fácil, mas o que mais o perturbava era uma sensação excruciante de agulhadas na perna direita que surgiu algum tempo depois do diagnóstico. A dor constante tornava difícil dormir e caminhar, e a única coisa que trazia alívio momentâneo era uma ducha quente.
Inicialmente ele acreditou que a dor incomum poderia ter relação com a doença, mas logo percebeu que algo não estava certo. Foi quando ele decidiu procurar um médico para tentar encontrar uma solução para o problema.
Na época, um neurologista pediu para que Arthur experimentasse um antidepressivo que poderia aliviar o desconforto físico às vezes, além de um outro medicamento para dor neuropática. Mas para o desespero de Arthur nenhum dos dois ajudou.
Arthur passou anos tentando encontrar uma solução, mas nada parecia ajudar. Mas em 2014, após 10 anos convivendo com a dor, ele conheceu o Dr. Philippe Huot.
A investigação que não fechava as contas
Assim que conheceu Arthur, o Dr. Huot ficou intrigado. Ele sabia que alguns pacientes de Parkinson desenvolviam a síndrome das pernas inquietas, condição que causa uma sensação de arrepio desagradável. Mas o quadro de Arthur não se encaixava no padrão. "Em geral, isso ocorre nas duas pernas, e o movimento traz alívio", explica o médico, referindo-se à síndrome das pernas inquietas. Além disso, Huot soube pela esposa de Arthur que ele também sentia tonteiras, cansaço, apatia e apresentava sinais de ansiedade e depressão.
Arthur então se submeteu a um estudo de condução nervosa, que excluiu a possibilidade de danos aos nervos. Considerando que a dor de Arthur começou anos após o diagnóstico de Parkinson, Huot se perguntou se não seria um resultado da progressão da doença e aumentou a dosagem de levodopa, medicamento que ajuda o cérebro a produzir mais dopamina, substância deficiente em pessoas com Parkinson. “Não funcionou”, lembra o médico. Mas pensar na medicação o colocou no caminho certo.
A pista escondida em um tratamento antigo
Ao revisar o histórico de Arthur, Huot descobriu que, dez anos antes, o paciente havia tomado agonistas dopaminérgicos, medicamentos comumente receitados para Parkinson, mas que costumam ser suspensos por causarem transtornos do controle de impulsos (TCI). Esses transtornos levam pacientes a jogar, comprar ou comer de forma compulsiva, e em alguns casos provocam um efeito colateral peculiar conhecido como punding, repetição de comportamentos sem propósito claro.
O caso de Arthur se encaixava nesse padrão: na época, ele gastava muito dinheiro com bilhetes de loteria e precisou interromper a medicação. A coincidência chamou a atenção de Huot, já que a dor na perna havia começado há exatos sete anos, logo depois que Arthur parou de usar o medicamento.
Diante disso, o médico suspeitou de uma condição identificada mais recentemente pela medicina, a síndrome de abstinência dos agonistas dopaminérgicos (SAAD). Hoje, com mais consciência sobre os riscos dos transtornos do controle de impulsos, os neurologistas estão mais propensos a reduzir gradualmente esses medicamentos, e cresce o entendimento de que um quinto ou mais dos pacientes que interrompem o uso apresentam sintomas como os de Arthur, que em alguns casos persistem por anos.
A vida de Arthur após o tratamento
Como o tratamento para a SAAD é voltar à medicação, Huot prescreveu-a e pediu à esposa de Arthur que ficasse atenta a qualquer sinal de comportamento impulsivo. Em duas semanas, o formigamento e a dor na perna de Arthur desapareceu, mas seus gastos descontrolados retornaram, e ele engordou quase 10 quilos. E, sempre que via uma caixa de lenços de papel, sentia-se compelido a tirá-los até esvaziar a caixa.
Huot reduziu a medicação e, apesar de Arthur sentir-se apático de novo, dessa vez foi menos grave. “Ele ficou livre da dor, e essa era sua principal preocupação”, diz Huot. “Achamos que o saldo foi positivo.”
O que é a doença de Parkinson
A doença de Parkinson é um distúrbio neurodegenerativo progressivo, causado pela perda gradual de neurônios responsáveis por produzir dopamina, substância essencial para o controle dos movimentos do corpo. Os sintomas mais conhecidos incluem tremores, rigidez muscular, lentidão de movimentos e alterações no equilíbrio, mas a doença também pode causar sintomas não motores, como os quadros de ansiedade, depressão e apatia enfrentados por Arthur.
O tratamento costuma incluir medicamentos que repõem ou imitam a ação da dopamina, entre eles a levodopa e os agonistas dopaminérgicos, além de acompanhamento multidisciplinar. Como mostra o caso de Arthur, o ajuste dessas medicações exige cuidado, já que tanto o excesso quanto a interrupção podem gerar efeitos colaterais complexos.
O que é a síndrome de abstinência dos agonistas dopaminérgicos
A síndrome de abstinência dos agonistas dopaminérgicos (SAAD) é uma condição identificada há relativamente pouco tempo pela medicina, que pode surgir quando pacientes de Parkinson interrompem o uso desses medicamentos, geralmente prescritos justamente para reduzir os transtornos do controle de impulsos que eles próprios podem causar.
Os sintomas variam, mas costumam incluir dor, ansiedade, depressão, apatia, fadiga e tonteiras, que podem persistir por meses ou até anos após a suspensão do medicamento. Por se tratar de um quadro ainda pouco reconhecido, muitos pacientes e médicos não associam esses sintomas à interrupção do tratamento, o que pode atrasar o diagnóstico, como ocorreu no caso de Arthur.
Esta matéria é uma atualização de uma reportagem publicada originalmente em 2018 na revista Seleções, escrita por Lisa Bendall, adaptada e ampliada para o digital por Douglas Ferreira. Ela tem caráter educativo e informativo, e não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento médico profissional. Sempre consulte seu médico antes de alterar hábitos relacionados à saúde. Em caso de emergência, ligue imediatamente para o SAMU (192) ou Bombeiros (193).
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