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Estudo aponta que escrever em diário pode ajudar mães a enfrentar a UTI neonatal com menos sofrimento

Pesquisa mostra que cadernos ajudam mães a organizar pensamentos e sentimentos, funcionando como um espaço seguro para desabafos.

Douglas Ferreira | 28 de Junho de 2026 às 15:00

Com 40% das mães enfrentando depressão, o diário terapêutico se torna uma necessidade de saúde pública no Brasil. - Freepik

Uma pesquisa brasileira mostrou que colocar os sentimentos no papel pode ser um caminho real de alívio para mães que acompanham um recém-nascido internado na UTI neonatal. O estudo, publicado em junho de 2025 nos Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional e divulgado pela Agência Bori, revela que um simples caderno pode funcionar como ferramenta terapêutica de grande impacto emocional.

A pesquisa foi conduzida no Hospital Sofia Feldman, em Belo Horizonte, referência em assistência materno-infantil pelo SUS. Entre janeiro e agosto de 2022, 11 mães de bebês internados em UTI neonatal participaram de uma intervenção simples: receberam um caderno pautado, três canetas coloridas e a liberdade de personalizar o material com desenhos, colagens e pinturas. A orientação era aberta, convidando cada mãe a registrar pensamentos, acontecimentos e tudo o que quisesse sobre a experiência de ter um filho naquela situação.

Após o período de uso, e antes da alta dos bebês, as pesquisadoras realizaram entrevistas com as participantes para entender como os diários tinham impactado o cotidiano delas. Os cadernos foram digitalizados para análise e, em seguida, devolvidos às mães.

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Os relatos revelaram que a escrita funcionou como desabafo, alívio emocional e uma forma de organizar pensamentos em meio ao caos. Muitas descreveram o diário como um confidente, um espaço seguro para sentimentos que seriam difíceis de compartilhar com familiares ou profissionais de saúde. A pesquisadora Érika da Silva Dittz ressaltou que esse tipo de registro oferece à mãe um lugar para narrar sua própria história, reconhecendo seu papel central no cuidado e na vivência da maternidade.

Além do suporte emocional imediato, os cadernos também serviram como registro da história do bebê e da família, preservando memórias de um período que, apesar de difícil, faz parte da trajetória de vida de todos os envolvidos.

A estratégia chamou a atenção justamente por sua simplicidade ao não exigir tecnologia, equipamentos ou grandes investimentos por parte dos hospitais. Um caderno e um lápis já são suficientes para criar um espaço de escuta e acolhimento dentro de um ambiente marcado pela tensão e pela incerteza.

Mães de bebês em UTI têm risco elevado de desenvolver transtornos emocionais

Embora a permanência dos pais junto aos bebês internados em UTIs neonatais seja garantida por lei no Brasil, o suporte emocional estruturado ainda é desigual entre as instituições. Em alguns hospitais, mães que apresentam instabilidade emocional ao longo da internação só são encaminhadas para acompanhamento psicológico após a alta. 

Pesquisas publicadas em revistas científicas internacionais mostram que mães de bebês prematuros internados em UTIs têm 2,5 vezes mais chances de desenvolver depressão pós-parto. Os dados são assustadores, 40% das mães nessa situação relatam sintomas de depressão, 26% de ansiedade e 30% de estresse pós-traumático.

Um estudo brasileiro realizado com 50 mães em uma UTI neonatal encontrou índices ainda mais alarmantes, 64% das participantes apresentaram ansiedade elevada e 56% tinham dois ou mais indicadores clínicos de comprometimento emocional. Diante desse panorama, oferecer ferramentas acessíveis de suporte como o diário terapêutico deixa de ser um gesto simbólico e passa a ser uma necessidade concreta de saúde pública.

O Brasil tem uma das maiores taxas de prematuridade do mundo

Em 2023, quase 12% dos nascimentos no Brasil aconteceram antes do período considerado adequado, totalizando cerca de 300 mil bebês prematuros. O país não só está acima da média global, que gira em torno de 10%, como também figura entre os dez com maior número de nascimentos prematuros por ano. Esse cenário coloca famílias inteiras em contato direto e muitas vezes inesperado com a realidade das UTIs neonatais.

O impacto financeiro dessa realidade também é expressivo. Segundo levantamento da consultoria Planisa, o Brasil gasta cerca de R$ 13,5 bilhões por ano apenas com a primeira internação de bebês prematuros em UTIs neonatais, o que representa um custo médio de R$ 37 milhões por dia. O dado reforça a urgência de políticas de suporte que vão além do cuidado clínico e incluam a saúde emocional das famílias.

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