Crescimento populacional, mudanças climáticas e desigualdades sociais contribuem para o surgimento de novas pandemias.
Desde que o mundo parou por causa da covid-19, o medo de enfrentar uma nova pandemia passou a acompanhar muitas pessoas. Novas variantes, surtos regionais e alertas de organizações internacionais reforçam a percepção de que a pandemia não foi um evento isolado, mas um marco de uma nova era de riscos globais à saúde. Para cientistas, epidemiologistas e gestores da área, a discussão já mudou de patamar. A pergunta central deixou de ser “se” haverá uma nova pandemia e passou a ser “quando” ela vai surgir.
“É inevitável”, crava Ralcyon Teixeira, diretor médico do Hospital Emílio Ribas, referência nacional em infectologia. “Temos certeza de que vai ter (uma próxima pandemia). Resta saber quando”, concorda Tânia Fonseca, coordenadora de Vigilância em Saúde e Laboratórios de Referência da Fiocruz.
A percepção não é isolada. Dados, estudos e a própria experiência recente com a covid-19 apontam que o mundo vive hoje condições ideais para o surgimento e a rápida disseminação de novos patógenos.
Por que os cientistas dizem que uma nova pandemia é inevitável?
Segundo especialistas, há um conjunto de fatores demográficos, sociais e ambientais que vêm se intensificando nas últimas décadas e que aumentam o risco de crises sanitárias globais.
Entre eles estão o crescimento acelerado da população mundial, a alta densidade populacional nas grandes cidades, as desigualdades sociais, as dificuldades de acesso a saneamento e serviços de saúde e a facilidade de deslocamento entre países, afinal, hoje em dia, uma infecção local pode atravessar continentes em poucas horas.
“Observamos o aumento da ocorrência de epidemias, o que é um passo para que pandemias aconteçam”, afirma Lívia Caricio, diretora do Instituto Evandro Chagas. Ainda que não seja possível cravar uma data, o horizonte não é distante. “A previsão não é para daqui 50 anos, é para um período bem próximo, daqui a poucos anos.”
Essa leitura também é compartilhada pela Organização Mundial da Saúde. Em 2023, o diretor-geral Tedros Adhanom Ghebreyesus alertou que o fim da covid-19 como emergência global não significava o fim da ameaça:
“O fim da covid-19 como emergência de saúde global não é o fim da covid-19 como uma ameaça à saúde mundial. A ameaça de surgir uma nova variante capaz de provocar novos surtos de doença e morte permanece. E permanece também a ameaça de que apareça outro patógeno com potencial ainda mais letal”.
Qual o papel das mudanças climáticas no risco de novas pandemias?
Além dos fatores sociais, o clima entrou definitivamente no radar da saúde pública. O aumento das temperaturas médias e a intensificação de eventos extremos afetam diretamente o comportamento de vírus, bactérias e vetores.
Tânia Fonseca cita a epidemia de dengue de 2024, que bateu recordes no Brasil. O avanço da doença está ligado ao calor, que acelera o ciclo de vida do mosquito transmissor, o Aedes aegypti.
“Aquele ovo que demorava para eclodir está muito mais rápido. Se antes o mosquito só ‘gostava’ de água limpa, agora ele eclode em qualquer ‘aguinha’”, explica. Segundo a médica, o cenário climático atual limita as opções a medidas de mitigação e adaptação. “É praticamente irreversível a gravidade do cenário.”
No Brasil, a Região Norte é vista como uma das áreas mais vulneráveis ao surgimento de novas doenças infecciosas. A combinação de clima quente e úmido, biodiversidade intensa e pressão humana sobre o ambiente cria um terreno fértil para o aparecimento de patógenos.
“A Amazônia é um ecossistema muito diferente, tem umidade e chuva, clima tropical e calor. Isso, por si só, já amplia a possibilidade de crescimento de micro-organismos”, diz Tânia.
O problema se agrava com o avanço do desmatamento, do garimpo e da ocupação humana. “Quando aquele ecossistema está equilibrado, o ciclo se encerra nele próprio. Na medida em que o homem adentra a mata, os micro-organismos ou vetores daquela região começam a ter no homem um hospedeiro acidental”, explica a especialista.
Vírus respiratórios lideram o risco de uma próxima pandemia
Quando o assunto é o tipo de agente capaz de provocar uma pandemia, os cientistas são quase unânimes: os vírus respiratórios aparecem como os principais candidatos.
Isso se deve ao histórico global e à facilidade de transmissão. “São os vírus que têm a capacidade rápida de se instalar e se espalhar pelo mundo em um curto espaço de tempo. E, dentro desse grupo, os respiratórios apresentam maior potencial de disseminação”, afirma Ralcyon Teixeira.
Tatiana Lang, diretora do Centro de Vigilância Epidemiológica da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo, lembra que não faltam precedentes. “Em 2009, teve o influenza. Já houve também a ameaça do MERS-CoV, que achavam que teria potencial pandêmico, mas não teve. E a gripe espanhola (1918-1920), que dizimou parte da população da época.”
Hoje, a Fiocruz acompanha de perto vírus como coronavírus, influenza e vírus sincicial respiratório (VSR), além do sarampo, que preocupa devido à queda na cobertura vacinal.
Outros patógenos que estão no radar dos cientistas
O alerta não se limita aos vírus respiratórios. Arboviroses – doenças transmitidas por mosquitos e carrapatos – também preocupam cada vez mais.
“Antes, a gente tinha regiões muito limitadas de ocorrência dessas doenças, que eram as regiões tropicais. Mas, hoje, o cenário mudou”, explica Lívia Caricio. “A possibilidade de ganharem uma dispersão maior e de talvez causarem uma pandemia é real.”
Em 2024, a OMS publicou o relatório Priorização de Patógenos, listando vírus e bactérias com potencial para emergências sanitárias internacionais. Entre eles estão dengue, febre amarela, zika, mpox, além de vírus altamente letais como ebola e Marburg.
No Brasil, a febre Oropouche, identificada inicialmente na Região Norte, passou a ser monitorada após avançar em direção ao Sudeste.
Estamos mais preparados do que antes para enfrentar uma pandemia?
A experiência com a covid-19 deixou lições importantes. Hoje, o Brasil conta com um sistema de vigilância que envolve municípios, estados e governo federal, além de ferramentas como análise preditiva de dados climáticos, vigilância sentinela, sequenciamento genômico e centrais de alerta que funcionam 24 horas.
Esses mecanismos permitem identificar surtos fora do padrão e agir com mais rapidez. Ainda assim, os especialistas alertam: preparação não significa garantia. Em um mundo mais quente, mais conectado e socialmente desigual, o surgimento de uma nova pandemia é visto como uma questão de tempo e a diferença entre crise e controle pode estar na rapidez da resposta.