Arqueólogos da Universidade de Barcelona encontraram papiro com trechos da Ilíada sobre uma múmia no Egito. É a primeira vez que um texto literário aparece em ritual funerário.
Uma descoberta arqueológica incomum tem chamado a atenção da comunidade científica. Durante escavações realizadas em Al-Bahnasa, no Egito, pesquisadores identificaram um papiro com trechos do poema grego Ilíada colocado sobre o corpo de uma múmia.
A descoberta foi feita por uma equipe da Universidade de Barcelona em parceria com o Instituto Oriente Antigo, e o achado é considerado inédito por envolver, pela primeira vez, um texto literário grego em um contexto funerário egípcio.
Entenda exatamente o que foi achado
O elemento central da descoberta é um fragmento de papiro pertencente ao Livro II da Ilíada, mais especificamente à seção conhecida como “Catálogo de Navios”. O documento foi encontrado cuidadosamente posicionado sobre o abdômen da múmia, o que indica uma possível intenção ritual.
Apesar da relevância, o material está em estado extremamente frágil, o que limita, por enquanto, análises mais invasivas. Até o momento, os pesquisadores realizaram apenas observações visuais, sem o uso de exames como raio-X.
A múmia não foi encontrada sozinha e ao todo, o conjunto arqueológico inclui três câmaras funerárias. Outros achados relevantes foram línguas de folha de ouro, jarros contendo restos cremados, uma estátua do deus Harpócrates, o deus helenístico do silêncio, segredo e confidencialidade, e até a cabeça de um felino envolta em tecido, possivelmente ligada a práticas simbólicas ou religiosas.
Reprodução / Divulgação
Por que isso é inédito e intriga os pesquisadores?
O uso de textos em rituais funerários no Egito Antigo não é nenhuma grande novidade, mas há um detalhe que muda completamente o entendimento desse caso. Até então, apenas textos de caráter mágico ou religioso eram associados a sepultamentos.
Segundo o filólogo da Universidade de Barcelona Ignasi-Xavier Adiego, a presença de um trecho da Ilíada rompe esse padrão egípcio já conhecido. A inclusão de uma obra literária grega em um contexto funerário egípcio levanta uma série de questionamentos.
Os pesquisadores ainda não sabem ao certo qual era a função desse texto. Entre as hipóteses estão a ideia de proteção espiritual, demonstração de prestígio cultural ou até uma crença específica ligada à vida após a morte. A ausência de registros semelhantes torna o caso ainda mais intrigante e abre espaço para novas interpretações sobre as práticas funerárias da época.
O que acontece agora com a múmia e o papiro?
Com a descoberta, os próximos passos já estão definidos! A múmia será encaminhada para exames de tomografia no Museu Egípcio do Cairo, o que deve permitir uma análise mais detalhada sem comprometer a integridade do corpo.
“Não tivemos a oportunidade de estudá-lo usando métodos de alta tecnologia, como raios X, que poderiam nos permitir lê-lo melhor”, afirma Adiego.
Já o papiro passará por estudos utilizando espectroscopia de infravermelho, técnica que pode revelar detalhes invisíveis a olho nu e ajudar na preservação do material.
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Os pesquisadores também buscam identificar quem era o indivíduo sepultado. Pelos elementos encontrados no túmulo, há indícios de que se tratava de uma pessoa de alto status social ou econômico, o que poderia explicar a presença de um item tão incomum quanto um texto literário grego em seu ritual funerário.
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