Conheça expressões capacitistas comuns no cotidiano, entenda por que elas merecem atenção e veja alternativas para tornar a comunicação mais inclusiva.
Algumas expressões capacitistas estão tão presentes no nosso cotidiano que podem passar despercebidas. “Dar uma mancada”, “fingir demência” e “está cego?” são exemplos de frases que muita gente usa sem pensar na relação delas com pessoas com deficiência.
O problema está justamente nessa naturalização. Quando uma característica relacionada à deficiência vira sinônimo de erro, incapacidade, desatenção ou algo negativo, a linguagem ajuda a reforçar preconceitos.
Capacitismo é a discriminação e o preconceito contra pessoas com deficiência, baseados na ideia de que elas seriam incapazes ou inferiores. O conceito também está relacionado a práticas e comportamentos que acabam naturalizados nas relações do dia a dia.
Por isso, rever algumas palavras e frases é uma forma de prestar mais atenção à maneira como nos comunicamos. E não se trata apenas de evitar ofensas diretas. Algumas perguntas aparentemente curiosas ou elogios podem carregar ideias capacitistas.
O que são expressões capacitistas?
As expressões capacitistas são palavras, frases ou comentários que associam características relacionadas à deficiência a algo negativo, inferior ou indesejado.
Vale ressaltar que o capacitismo é definido como discriminação e preconceito contra pessoas com deficiência, fundamentados na crença de que elas são incapazes ou inferiores.
Isso ajuda a entender por que certas frases precisam ser repensadas mesmo quando quem as pronuncia não tem a intenção de ofender.
Expressões capacitistas para tirar do vocabulário
Nem sempre é necessário encontrar uma palavra sofisticada para substituir uma expressão capacitista. Muitas vezes, basta dizer exatamente o que você quer comunicar.
“Dar uma de João sem braço”
A expressão costuma ser usada para falar de alguém que não quer ajudar ou assumir uma responsabilidade. O problema é transformar a ausência de um braço em sinônimo de preguiça ou falta de disposição.
Uma alternativa é dizer diretamente que alguém foi preguiçoso, fugiu de uma responsabilidade ou se fez de desentendido.
“Dar uma mancada”
“Mancada” costuma aparecer quando alguém comete um erro ou dá uma gafe. A expressão merece atenção porque mancar pode fazer parte da forma como uma pessoa caminha. Não precisa estar relacionado a um erro.
Em situações assim, é possível simplesmente dizer que alguém deu uma gafe, errou ou faltou com um compromisso.
“Está cego?” ou “Está surdo?”
Essas perguntas são usadas para reclamar quando alguém não viu ou não ouviu alguma coisa. O problema é associar cegueira ou surdez à falta de atenção. Uma pessoa pode não ter percebido algo sem que isso tenha relação com sua capacidade de enxergar ou ouvir.
Em vez disso, a sugestão é perguntar se a pessoa prestou atenção no que foi dito ou mostrado.
“Estar mal das pernas”
A expressão é usada para dizer que alguma coisa não está indo bem. Ela pode ser inadequada por associar uma dificuldade nas pernas a uma situação de crise ou problema. Uma alternativa mais direta é dizer que determinada situação está com problemas ou passando por uma crise.
“Fingir demência”
A demência é uma condição relacionada ao funcionamento do cérebro. Usar o termo para dizer que alguém fingiu não entender alguma coisa transforma uma condição real em sinônimo de comportamento negativo. Uma alternativa é usar “se fingir de desentendido”.
“Não ter braço para alguma coisa”
A expressão pode aparecer quando alguém quer dizer que não tem pessoas ou estrutura suficiente para realizar determinada tarefa. Não há relação necessária entre possuir braços e conseguir executar um trabalho. Por isso, é possível falar diretamente sobre a falta de pessoal, força de trabalho ou estrutura.
“Retardado”
O termo possui um histórico relacionado à forma pejorativa de se referir a pessoas com deficiência intelectual. Usá-lo para xingar alguém ou para falar de si mesmo depois de cometer um erro reforça uma associação entre deficiência e incapacidade. Nesse caso, não é preciso encontrar um sinônimo para o insulto.
“Ceguinho” e “mudinho”
O uso de diminutivos pode parecer uma tentativa de suavizar uma palavra, mas não elimina o problema. Esse tipo de construção pode passar uma ideia de inferioridade relacionada à característica da pessoa.
Em situações adequadas, a recomendação é usar termos como “pessoa com deficiência visual” ou “surdo não oralizado”.
Algumas palavras já mudaram de uso
A própria linguagem relacionada à deficiência passou por transformações. Algumas palavras, por exemplo, caíram em desuso, por exemplo: “aleijado”, “inválido”, “coxo”, “incapacitado”, “débil”, “anormal”, “excepcional” e “pessoa portadora de deficiência”. Muitos desses termos estavam associados a perspectivas que reforçavam a exclusão ou tratavam a deficiência como algo externo à pessoa.
Atualmente, a expressão “pessoa com deficiência” é estabelecida pela Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, de 2006, e amplamente aceita.
Por isso, trocar determinadas palavras não é apenas uma questão de escolher sinônimos. É também uma maneira de abandonar associações que reduzem pessoas à deficiência.
Nem todo comentário bem-intencionado é inclusivo
Outro ponto importante é que capacitismo não aparece apenas em frases claramente ofensivas. Alguns comentários são feitos com intenção de elogiar, demonstrar admiração ou até incentivar alguém. Ainda assim, podem reforçar estereótipos.
Dizer “você é uma pessoa especial”, por exemplo, pode parecer gentil. Porém, todas as pessoas têm sua individualidade e que considerar alguém especial simplesmente por ter uma deficiência pode sugerir que ela estaria fora de uma suposta normalidade.
O mesmo acontece com frases como “apesar de ser uma PcD você parece muito feliz”. O comentário pressupõe que uma pessoa com deficiência deveria ser triste, quando a deficiência não determina se alguém terá dias bons ou ruins.