Querer ver sempre o lado bom das coisas parece inofensivo. Mas a psicologia mostra que reprimir emoções difíceis tem um custo real para a saúde mental e para os relacionamentos.
A busca pela felicidade é um dos desejos mais humanos que existem. Mas isso pode se transformar em um problema quando não deixamos espaço para a tristeza, raiva ou frustração, tentando ser positivo o tempo todo, em qualquer circunstância. E é exatamente esse hábito que a psicologia chama de positividade tóxica.
Diferente do pensamento positivo saudável, que reconhece as dificuldades e busca formas de superá-las, a positividade tóxica nega que sentimentos difíceis existam ou mereçam atenção. E silenciar emoções, como explica a psicanalista Tania Nigri, tem um custo que vai muito além do emocional.
"A vida de todos nós é demasiadamente complexa, pois o simples 'estar no mundo' já nos demanda muita força para lidar com as angústias e demandas do cotidiano. É preciso lidar com sentimentos considerados negativos, sobretudo o luto, pois é ele que nos auxilia no processo de elaboração de perdas, de forma lenta e dolorosa", explica a especialista.
O que é positividade tóxica e por que ela é diferente do otimismo?
Positividade tóxica é a pressão, interna ou social, para manter uma atitude positiva independentemente do que está sendo vivido. Ela se manifesta nas frases que todos já ouviram: "pensa positivo", "poderia ser pior", "foca no que tem de bom", "gratidão resolve tudo". A intenção costuma ser boa. O efeito, nem sempre.
O problema desse tipo de comportamento é que reprimir uma emoção não a elimina. Quando tristeza, raiva ou medo são ignorados em vez de processados, eles continuam operando, só que fora do alcance da consciência, o que dificulta ainda mais lidar com eles.
A psicóloga Maria Amaral, graduada pela UFF, define positividade tóxica como algo que "cria uma realidade abstrata, de um mundo em que as questões ora podem ser ignoradas pelos poderes metafísicos do 'pensamento positivo' e ora podem ser resolvidas de forma individualista por cada um, deixando completamente de lado o papel da sociedade tanto no surgimento das questões quanto na sua resolução."
Como as redes sociais amplificam a positividade tóxica?
Os brasileiros passam muito tempo nas redes sociais, que são os principais canais disseminadores de falsas “good vibes” (Imagem: tommaso79/iStock)
O movimento "Good Vibes Only", que prega a exclusão de qualquer energia negativa da vida, encontrou nas redes sociais o ambiente perfeito para crescer. Feeds construídos com conquistas, corpos bonitos, viagens e expressões de gratidão criam um padrão implícito: a vida boa é a vida que não tem problema.
Para quem consome esse conteúdo por horas diárias, o efeito é gradual e silencioso. A comparação com imagens que não refletem a realidade gera ansiedade. E sentir ansiedade num ambiente que prega apenas boas energias gera uma camada extra de culpa e você passa a achar que os seus problemas acontecem porque você não consegue ser positivo o suficiente.
"Pode parecer óbvio que as redes sociais sejam uma zona inteiramente artificial em que as postagens não guardam, quase nunca, consonância com a realidade e os filtros estão aí para não nos deixar mentir", observa Tania Nigri. "Mas, ainda assim, muitas pessoas tendem a acreditar que aquelas imagens refletem a realidade, associando sua aceitação social à quantidade de curtidas que obtêm. Isso tudo gera muita ansiedade e, em quadros mais sérios, uma profunda tristeza e sentimento de inadequação. Tem uma frase que, na minha opinião, reflete o mundo cruel da contemporaneidade: ‘O mundo não está interessado nas tempestades que encontraste. Quer saber se trouxeste o navio'”.
A psicóloga Maria Amaral vai além e aponta a dimensão social do problema. "A cultura do like, dos corpos padronizados, das vidas perfeitas encobrem o que as pessoas deliberadamente escolhem não publicizar. Nesse lugar das meias verdades, que é a internet e as redes sociais, tem crescido bastante a cultura da positividade tóxica."
Quais são os sinais de que a positividade tóxica pode estar afetando a sua saúde?
A influência da positividade tóxica somada ao mau uso das redes sociais podem gerar ansiedade e depressão (Kerkez/iStock)
Os efeitos da positividade tóxica raramente se apresentam de forma óbvia. Eles se instalam aos poucos, na forma de pequenos comportamentos que parecem virtudes mas funcionam como mecanismos de fuga emocional. Alguns sinais mais comuns:
- sentir culpa por estar triste, ansioso ou com raiva sem uma razão "grande o suficiente";
- evitar desabafar por medo de ser visto como negativo ou reclamatório;
- minimizar o próprio sofrimento antes mesmo que alguém o faça;
- desconforto genuíno quando alguém ao redor expressa emoções difíceis.
Quando esses padrões se consolidam, o impacto vai além do emocional. A psicanalista Tania Nigri explica que "na sociedade contemporânea, por intuírem que a tristeza tem sido associada à incapacidade e à inadequação social, muitas pessoas, especialmente as mais jovens, ocultam sua melancolia, se afastam dos amigos e evitam buscar ajuda profissional, onde poderiam elaborar essas questões tão inerentes à vida. Isso se dá, em grande parte, porque a sociedade valoriza, de forma cruel, o sucesso, o espetáculo e a imagem, sinalizando, por vias transversas, que ela não tolera a infelicidade.”
Como a positividade tóxica afeta o corpo além da mente?
A conexão entre emoções suprimidas e saúde física é um dos campos mais bem documentados da psicossomática. Quando sentimentos não encontram saída, o corpo encontra uma. Problemas de pele, síndrome do intestino irritável e queda de imunidade estão entre as manifestações físicas mais associadas ao estresse emocional crônico gerado pela supressão constante de emoções.
A pressão para mostrar-se feliz o tempo todo, ter uma carreira de sucesso, uma aparência saudável, uma vida que parece boa nas redes, acrescenta uma carga que muitas pessoas carregam em silêncio. E o silêncio, nesse caso, tem um custo que o corpo frequentemente apresenta a conta.
É possível ser positivo sem ser tóxico?
Meditar e fazer exercícios de respiração são ótimas formas de se conhecer e atrair a positividade desejada (shironosov/iStock)
Sim, e essa distinção é fundamental. Ser otimista e ter uma visão positiva do mundo é saudável e contribui para o bem-estar. O problema não é a positividade em si, é a positividade que não deixa espaço para mais nada.
"Ser positivo é, indiscutivelmente, uma característica que pode auxiliar no enfrentamento da vida, mas o otimismo cego, quase religioso, parece ser um forte sinal de superficialidade. Ser otimista é totalmente diferente de ser alienado. É possível ser positivo, sem deixar de ser empático", explica Tania Nigri.
A diferença prática está em permitir-se sentir o que está sendo vivido, inclusive as frustrações, as perdas e os dias difíceis, sem interpretar isso como falha. Aceitar que a vida não é feita só de momentos bons não é pessimismo. É uma forma muito mais honesta, e mais saudável, de estar no mundo.
Procure cuidar da sua saúde mental, descobrir novos hobbies e atividades que atraiam leveza para o seu dia a dia. Meditar, aprender a preparar chás para relaxar e exercícios de respiração podem ser um bom começo para alcançar a verdadeira positividade e viver melhor, mas nunca se esqueça do mais importante: contar com a ajuda de um profissional qualificado para guiá-lo durante esse processo.