Levantamento mostra que 44% dos usuários realizam atividades físicas regularmente, desmistificando o perfil dos pacientes que utilizam cannabis.
Douglas Ferreira | 22 de Junho de 2026 às 15:23
Um levantamento inédito com mais de 47 mil pacientes que fazem uso da cannabis medicinal revelou um perfil surpreendente: a maioria é fisicamente ativa e tem a musculação como seu exercício preferido. O levantamento, feito pela Blis Data 2026, a maior base de dados sobre pacientes canábicos da América Latina, traz dados que ajudam a desconstruir preconceitos sobre quem recorre a esse tipo de tratamento.
De acordo com a empresa, as informações foram obtidas a partir da filtragem de mais de 75 mil cadastros voluntários da plataforma Blis Data, considerando apenas o grupo de pacientes não sedentários, que representa a maioria e totaliza mais de 47 mil pessoas. Os cadastros incluem informações sobre aspectos emocionais relacionados ao uso dos medicamentos.
Após a análise dos dados, a empresa constatou que entre as atividades físicas mais praticadas por pacientes que usam medicamentos à base de cannabis, a musculação tem uma posição de destaque, ocupando o primeiro lugar com 44% das respostas. A segunda colocada é a caminhada, com apenas 9%, seguida de corrida (8,4%) e pilates (8%). O ciclismo aparece em quinto lugar, com 6%. O futebol, esporte mais popular do Brasil, ficou em penúltimo na lista de dez modalidades.
A faixa etária e a frequência de treinos também chamou atenção. Segundo o levantamento, o público adulto na faixa de 35 a 54 anos concentram mais da metade da amostra observada. A maioria dos participantes, 54%, se exercita entre três e cinco vezes por semana. Outros 20% afirmam ser ativos todos os dias.
Distribuição dos pacientes que praticam exercício físico por faixa etária:
Além dos hábitos físicos, o levantamento identificou as principais queixas relatadas por quem usa medicamentos canábicos. A perda de foco aparece em primeiro lugar, seguida por sono ruim e estresse matinal. A pesquisa no entanto, aponta que estes são sintomas que dialogam diretamente com o estilo de vida de quem está na faixa dos 30 aos 60 anos, período em que cobranças profissionais e pessoais costumam se intensificar.
Outro dado relevante é que mais da metade dos pacientes, 54%, combina o uso do medicamento canábico com outros remédios convencionais, o que mostra que o uso da cannabis medicinal raramente substitui tratamentos tradicionais, sendo na maior parte dos casos apenas um complemento ao tratamento.
O uso medicinal da cannabis no Brasil é regulamentado pela Anvisa desde 2015. Desde então, o número de autorizações para importação de produtos à base da planta cresceu de forma expressiva. Para especialistas, este crescimento é um reflexo do aumento da demanda e da maior aceitação médica em relação ao tema.
O processo pode ser feito por pessoa física e exige dois requisitos básicos: uma prescrição médica emitida por profissional devidamente registrado no Conselho Federal de Medicina e o cadastro no sistema eletrônico da Anvisa. O pedido é analisado pela agência, que pode conceder a autorização de importação por um prazo determinado, renovável conforme a necessidade clínica do paciente.
É importante destacar que os produtos autorizados pela Anvisa precisam conter, obrigatoriamente, informações claras sobre composição, concentração e procedência. Isso significa que o paciente não pode simplesmente adquirir qualquer produto à base de cannabis disponível no exterior, ele precisa estar dentro das especificações aprovadas pela agência reguladora brasileira.
Compostos derivados da cannabis, especialmente o canabidiol (CBD), têm sido objeto de crescente investigação científica nas últimas décadas. Estudos publicados em revistas como o Journal of Pain Research e o Journal of Clinical Psychology indicam que o CBD apresenta potencial terapêutico para o manejo de dor crônica, transtornos de ansiedade e dificuldades relacionadas ao sono, condições que coincidem diretamente com as três principais queixas apontadas pelos pacientes da pesquisa Blis Data: perda de foco, sono ruim e estresse matinal.
No campo do exercício físico, pesquisas preliminares têm investigado o papel dos canabinoides na recuperação muscular e no controle da inflamação pós-treino. Embora os estudos ainda estejam em estágios iniciais e não permitam conclusões definitivas, esse interesse científico ajuda a contextualizar por que uma parcela expressiva dos usuários de cannabis medicinal também são praticantes regulares de musculação e outras atividades físicas.
Vale reforçar que o uso de qualquer medicamento à base de cannabis deve ser sempre orientado por um médico. A automedicação com esses produtos, mesmo os de origem vegetal, representa riscos à saúde e não é respaldada pela Anvisa nem pelas diretrizes do Conselho Federal de Medicina.
Com informações da Agência Brasil.
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