Pesquisa inédita mostra que a dieta mediterrânea pode diminuir em até 41% o risco de miopia em adolescentes.
Uma alimentação rica em frutas, verduras, grãos integrais, azeite e peixes – base da chamada dieta mediterrânea – pode ajudar a proteger a visão de adolescentes. É o que indica um estudo recente publicado no British Journal of Nutrition, que analisou a relação entre padrão alimentar e miopia em adolescentes.
A pesquisa chama atenção por ser publicada em um momento em que especialistas alertam para o avanço acelerado da quantidade de casos de miopia no mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde, estima que até 2050 cerca de 51% da população global poderá ser míope.
O que diz o estudo sobre dieta mediterrânea e miopia
O trabalho, conduzido por pesquisadores chineses, é um estudo transversal baseado em dados do NHANES (Pesquisa Nacional de Exame de Saúde e Nutrição), realizado a cada dois anos nos Estados Unidos.
Foram avaliados 2.473 adolescentes entre 12 e 18 anos. Desse total, 1.090 apresentavam miopia igual ou superior a 0,5 dioptria, enquanto 1.383 não tinham o problema. Ao comparar os hábitos alimentares, os autores observaram uma diferença importante: o consumo excessivo de açúcar e carboidratos refinados esteve associado a um aumento de 41% na ocorrência de miopia, em comparação com jovens que seguiam um padrão alimentar semelhante ao da dieta mediterrânea.
Para os pesquisadores, os dados reforçam a ideia de que a alimentação pode influenciar o desenvolvimento da miopia, ajudando a explicar por que a herança genética, sozinha, não dá conta do crescimento expressivo dos casos nas últimas décadas.
Por que a alimentação pode influenciar a saúde dos olhos?
Segundo o oftalmologista Leôncio Queiroz Neto, diretor executivo do Instituto Burnier e membro fundador da ABRACMO, o principal benefício da dieta mediterrânea para a visão está relacionado à circulação sanguínea.
Quando a circulação está comprometida, explica o especialista, o aporte de oxigênio e nutrientes diminui em todo o globo ocular, inclusive na coroide, estrutura responsável por nutrir a esclera – a parte branca do olho. Com menos nutrientes, a esclera pode se tornar mais maleável, facilitando o crescimento excessivo do olho, uma das principais características da miopia.
A alimentação mediterrânea, ao favorecer a saúde vascular, ajuda a manter a esclera mais resistente e dificulta esse crescimento anormal. “Apesar disso, até agora, não há evidência de que a alimentação ou suplementação sozinhas revertam ou interrompam a miopia”, afirma Queiroz Neto. Ainda assim, ele ressalta que uma dieta rica em grãos integrais, verduras, frutas, nozes, pescados e azeite pode atuar como coadjuvante, modulando fatores fisiológicos envolvidos na progressão do problema, embora não substitua o tratamento oftalmológico.
Como a criança se torna míope
De acordo com o especialista, a principal alteração fisiológica do olho míope é o aumento do comprimento axial – a distância entre a córnea, lente externa do olho, e a parte posterior da retina. Em olhos com boa visão, esse comprimento varia entre 23 e 24 milímetros.
“A alimentação tem papel importante nesse processo”, destaca Queiroz Neto. “Alimentos ultraprocessados e refinados, a gordura saturada e o excesso de açúcar enfraquecem a esclera e aumentam o risco de crescimento do olho acima dos 23 a 24 mm que caracterizam a boa visão.” Cada milímetro adicional, explica, corresponde a cerca de 2,5 dioptrias de miopia.
Em casos de alta miopia, o comprimento axial pode chegar a 26 mm ou mais. Nesses olhos, o fundo ocular se torna mais frágil, elevando o risco de complicações na vida adulta, como descolamento de retina, glaucoma e catarata.
O impacto das telas no avanço da miopia
A alimentação, porém, não é o único fator de risco. O uso excessivo de telas também pesa, especialmente na infância. “Nossos olhos não foram feitos para permanecerem fixos diante de uma tela por mais de duas horas ininterruptas”, diz o oftalmologista.
Segundo ele, diante de computadores, celulares e tablets piscamos cerca de cinco vezes menos, o que favorece o ressecamento ocular. Além disso, os olhos são expostos a milhões de pontos luminosos, gerando esforço visual intenso, ardor e dor de cabeça.
Um estudo conduzido pelo oftalmologista Leôncio Queiroz Neto com 360 crianças de 6 a 9 anos mostrou que o uso de telas por mais de duas horas diárias dobra o risco de miopia nessa faixa etária. O hábito também pode provocar a chamada miopia acomodativa, um espasmo dos músculos ciliares responsáveis por ajustar o foco do cristalino.
Essa miopia transitória causa turvamento da visão à distância, que pode durar meses ou se tornar permanente caso os hábitos não sejam modificados. A criança, muitas vezes, não percebe o problema, pois enxerga bem de perto, mas passa a ter queda no rendimento escolar.
Atividades ao ar livre ajudam a proteger a visão
Há, porém, um fator simples que pode ajudar a reduzir o risco de miopia: brincar ao ar livre. Segundo o oftalmologista, atividades externas por pelo menos duas horas diárias, especialmente em ambientes bem iluminados, estimulam a produção de dopamina, hormônio associado à redução do risco de desenvolvimento da miopia.
“O problema é que a criança não sabe como enxerga”, alerta Queiroz Neto. Por isso, cabe aos pais observar sinais de dificuldade visual, principalmente durante períodos de férias, quando o tempo de tela tende a aumentar. O cuidado precoce pode fazer diferença no aprendizado e na saúde ocular ao longo da vida.