Com a perna esmagada e sem ajuda, Barry Lynch cavou por horas, determinado a sobreviver e cumprir uma promessa à sua mãe.
Douglas Ferreira | 21 de Novembro de 2018 às 14:00
Eram seis da manhã, e o calor já era escaldante no extremo norte de Queensland quando o agricultor australiano Barry Lynch, de 54 anos, parou a picape à beira de uma estrada de terra e saiu do carro para começar o seu trabalho no canavial como fazia todos os dias. Mas, aquele dia estava longe de ser um dia como outro qualquer; era o primeiro aniversário da morte de sua mãe e, assim que terminasse o serviço, ele pretendia encontrar a irmã, Susan, a 140 quilômetros dali, para jogar flores no oceano em memória da mãe. Mas o destino tinha outros planos para ele.
Pouco tempo depois de começar a trabalhar, Barry se viu sozinho, preso ao chão, com uma carreta em cima de sua perna, com o celular a quinhentos metros e ninguém em volta para ouvir seus gritos. Tudo o que tinha à mão era uma chave inglesa e o canivete que herdara do pai.
Nascido e criado no cinturão canavieiro da Austrália, no litoral úmido e tropical do país, o trabalho na terra estava no sangue de Barry. Ele ia de fazenda em fazenda, preparando o solo e cuidando da cana jovem. Era um serviço solitário em que, na maior parte dos dias, só contava consigo mesmo. Mas Barry gostava de dirigir as máquinas grandes, adorava o cheiro da terra e era conhecido pela determinação e por nunca desistir.
Solteiro desde o divórcio que havia ocorrido cerca de trinta anos antes, morava sozinho na cidadezinha de Tully e tinha uma rotina tranquila na qual visitava as duas filhas e os cinco netos sempre que podia. Naquela manhã, saiu às cinco horas de casa, conferiu se o canivete que herdara do pai estava com ele, acendeu um cigarro e examinou o serviço do dia.
Barry trabalhou depressa, verificando a maquinaria que usaria naquele dia. O trator vermelho e preto estava engatado a uma carreta de quatro toneladas e meia que levava 5.400 litros de herbicida. Ele tinha como missão borrifar a cana jovem de um campo distante, mas só conseguia pensar em sua mãe e no compromisso com Susan.
Para chegar à plantação, Barry precisava levar o trator e a carga por uma descida íngreme, atravessar um riacho e subir pelo outro lado. Ao passar pela crista da ladeira, ouviu um estalo e o trator parou com um solavanco. A barra de tração que o ligava à carreta tinha se rompido sob a pressão e pendia, quebrada e torta. Ao descer da cabine, ele notou que o celular havia caído do bolso, mas na hora apenas praguejou enquanto o pegava e foi até a traseira do trator ver o que tinha acontecido.
O conserto parecia simples: bastava soltar o parafuso que prendia a barra ao trator, perto da caixa de marchas para conseguir arrumar o engate. Barry levou o trator de volta ao terreno plano, empurrando a carreta para trás, e foi até a picape buscar a caixa de ferramentas e um pedaço de corrente. Jogou o celular no banco do passageiro para não deixá-lo cair de novo.
Não havia ninguém por perto num raio de quilômetros. Barry inspecionou o problema com mais atenção. A barra de tração se enfiara na terra da trilha, mas o engate de três pontos, outra ligação entre o trator e a carreta, ainda estava intacto. Ele passou a corrente em volta da peça para erguer a carreta do chão, usando a força do trator; calçou as rodas da carreta com cunhas de madeira; e pulou no trator para avançar e ter espaço para se esgueirar por baixo. Em seguida, deslizou sobre o lado esquerdo do corpo para afrouxar o parafuso e tirar o pedaço quebrado da barra de tração.
Estava quente e barulhento sob o trator enquanto Barry se esticava para manobrar a chave inglesa. Ele não percebeu, mas, quando avançou o joelho esquerdo, pressionou uma das cunhas de madeira. Quanto mais ele avançava, mais instável ficava a cunha.
Numa fração de segundo, a cunha cedeu e as dez toneladas da carreta com carga total caíram sobre a parte interna da perna de Barry.
O grito de Barry cortou o silêncio do campo. A perna estava dobrada, com o joelho comprimido até a metade do tamanho natural e a circulação totalmente interrompida. Ele sentiu os ossos se esmagarem sob o peso. Abaixo do joelho, a panturrilha e o pé começaram a inchar com o sangue preso, e ele lutou para arrancar a bota de trabalho antes que o pé, inchado como um melão, tornasse isso impossível.
"Estou com problemas", pensou. "O maldito celular está na picape. Só vão perceber meu sumiço à noite."
Gritar por socorro não adiantaria, porque não havia ninguém por perto. E quem notaria um trator parado no meio de um canavial no extremo norte de Queensland? Enquanto ondas de dor e pânico o inundavam, ele pegou o maço de cigarros, deitou-se de costas e conseguiu acender um apesar das mãos trêmulas e, no meio dele, percebeu que tinha duas opções: poderia esperar e não fazer nada ou poderia cavar para tentar se soltar.
Barry pegou o canivete, lembrando-se dos pais enquanto o tirava da capa. A carreta agora descansava sobre um bloco de madeira e não se mexeria mais. Com o canivete e a chave inglesa, que ainda estava no chão, talvez conseguisse escavar a terra embaixo da perna.
Ele abriu o serrote de cinco centímetros e começou a cortar a terra sob o joelho. O solo marrom-acinzentado da trilha, compactado por anos sob o peso de grandes máquinas, era duro como asfalto. Barry usava a chave inglesa para bater na lâmina e enfiá-la por inteiro no chão, torcia de um lado para o outro para afrouxar a terra, puxava e repetia a operação a poucos milímetros de distância. Depois de cinco ou seis repetições, um pequeno torrão se soltava o bastante para sair com as mãos. A cada dez ou quinze minutos, trocava para o outro lado da perna e recomeçava.
O suor escorria pela testa e fazia os olhos arderem. Metade do corpo estava sob o sol direto e a outra metade no calor do trator. Sem água, com sede, Barry viu pingos caírem do ar-condicionado do trator, meio metro atrás dele. Tirou o boné, posicionou-o de cabeça para baixo sobre o pedaço quebrado da barra de tração para colher as gotas e depois sugou a umidade do forro de feltro da aba. Então voltou a cavar.
Era quase meio-dia, e o sol estava a pino, castigando-lhe as costas. A mente de Barry se voltou para a família.
"Será que os verei novamente? "Chorou de dor e desespero. Então ele pensou na mãe. Imagine se ele morresse ali, naquele dia, aniversário de morte da mãe. "Vou estar lá para lançar aquelas flores", disse a si mesmo. A ideia lhe deu um pouco de força.
Então a raiva subiu. "Eu deveria ter firmado melhor a carreta." Mas a raiva foi boa, pois pareceu lhe dar mais adrenalina para continuar. Ele se recompôs e prosseguiu, cavando a terra.
A fraqueza começou a tomar conta dele. A perna estava com o quádruplo do tamanho normal e continuava aumentando e escurecendo, com a pele tão esticada que parecia prestes a explodir. Barry cogitou furá-la com a faca para aliviar a pressão, mas, antes de reunir coragem, notou que o chão estava úmido. Passou a mão na perna e a sentiu molhada de sangue. A pele tinha se rompido, deixando um buraco do tamanho de um punho.
Devagar, tirou o cinto da calça e o amarrou acima da ferida como um torniquete. O fluxo de sangue diminuiu um pouco. Barry sabia que seu tempo era limitado, e continuou a cavar.
Ele estava cavando havia quase seis horas, e as sombras da tarde cresciam, quando sentiu algum movimento na perna. O buraco sob o joelho tinha cerca de cinquenta centímetros de largura e dez de profundidade. Barry redobrou o ritmo e, ao perceber que o joelho realmente se mexia, decidiu arriscar: segurou os braços do engate de três pontos do trator e puxou o corpo.
Deslizando sobre sangue e terra, soltou a perna. A euforia e o alívio o inundaram. "Conseguirei encontrar Susan, no fim das contas!", pensou. Ele tentou ficar de pé, mas, ao apoiar o peso na perna ferida, ela cedeu e ele caiu no chão.
De novo no chão, com a dor agora insuportável, Barry decidiu pegar o celular. O caminho era longo, uns quinhentos metros pela estrada de terra. Ele se arrastou de costas, com a perna inútil deixando um rastro na terra, e levou dez minutos para percorrer o trecho.
Quando fez a curva, viu a picape luzindo ao sol. Quase desmaiando, chegou ao banco do motorista, ergueu-se apoiado no braço, tomou um gole de refrigerante quente, pegou o celular e ligou para o serviço de emergência.
Deitado ao lado da picape, quase inconsciente, Barry viu a ambulância surgir ao longe. Fechou os olhos quando o paramédico se ajoelhou a seu lado e perguntou: “Como está, colega?”. “Com um probleminha na perna”, respondeu Barry, antes de desmaiar.
Sem que Barry soubesse, estar livre trazia um novo risco. Durante horas, a perna dele ficou sem circulação de sangue. Segundo a literatura médica, quando um músculo é comprimido por muito tempo, suas células começam a morrer, e, ao retirar a pressão, substâncias liberadas pelo músculo lesionado, como mioglobina, potássio e ácido lático, caem de uma só vez na corrente sanguínea. É o que os médicos chamam de síndrome de esmagamento, também conhecida como rabdomiólise traumática.
Essas substâncias podem causar lesão renal aguda e, por causa do excesso de potássio no sangue, arritmias cardíacas graves. O quadro pode vir acompanhado da síndrome compartimental, em que o inchaço dentro do músculo aumenta a pressão e piora a falta de sangue nos tecidos. O risco é maior logo após a liberação, e o atendimento médico rápido, com reposição de líquidos, é parte central do tratamento. Ou seja, Barry precisava de cuidados médicos, e depressa.
Quando a história foi publicada pela Seleções, em 2018, cinco anos tinham passado desde o acidente. A perna de Barry ainda tinha problemas, mas ele se alegrava por estar vivo. Passaram-se dois anos até que conseguisse jogar flores no oceano em memória da mãe, mas ele acabou cumprindo a promessa que fizera a si mesmo.
O canivete está hoje numa cristaleira em sua casa. Para Barry, ele simboliza a determinação que o impediu de desistir e morrer no primeiro aniversário da morte da mãe. Ele acredita que, em algum lugar, seus pais cuidaram dele naquele dia quente de outubro.
Texto original escrito por Helen Signy, publicado em setembro de 2018 na revista Seleções, e adaptado para o digital por Douglas Ferreira.
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