Adotado por uma família australiana ainda criança, Joel de Carteret passou décadas até conseguir encontrar sua mãe biológica e descobrir o que realmente aconteceu
Joel de Carteret tinha 5 anos quando se perdeu no movimentado Mercado Munoz, na Grande Manila, Filipinas, em 1985. Adotado meses depois por uma família australiana e criado em Melbourne, ele passou a vida adulta se perguntando quem era sua mãe biológica, o que havia acontecido naquele dia e porque ela nunca o havia procurado. Em fevereiro de 2017, trinta anos depois de desaparecer, Joel finalmente a encontrou. A busca envolveu uma pista falsa, um teste de DNA negativo e, por fim, um documentário de TV que reconectou os dois.
A história completa foi contada por Joel décadas depois e publicada em 2018 na edição de outubro da revista Seleções. Veja a seguir cada detalhe dessa história emocionante!
Como Joel se perdeu no Mercado Munoz, em Manila
Foto de Joel aos 5 anos tirada quando chegou ao orfanato. Ele foi adotado 18 meses depois.
Na manhã de 25 de julho de 1985, Linda (nome pelo qual a mãe de Joel era conhecida na época) saiu para trabalhar como costureira numa fábrica de roupas na Cidade Quezon, deixando o filho de 5 anos dormindo aos cuidados de uma colega de quarto. Aquela era a primeira vez que ela o deixava sozinho. Geralmente os dois iam juntos para fábrica, pegando os coloridos jeepneys que faziam o transporte público, mas naquele dia ao ver o filho dormindo tão tranquilamente, ficou com pena de acordá-lo.
Quando acordou e não encontrou a mãe em casa, o menino entrou em pânico e saiu correndo para procurá-la na rua. Perdido em meio ao trânsito, aos cães e às barracas do Mercado Munoz, chorou por horas até ser encontrado por José Manselo, um motorista de jeepney local, que o levou à polícia. A criança só conseguiu dizer que a mãe era costureira e o companheiro dela, motorista de jeepney.
Jo-Jo, aos 5 anos, começou a busca frenética pela mãe nas ruas movimentadas junto ao Mercado Munoz.
Quando Linda foi almoçar em casa, ficou chocada ao descobrir que o filho estava desaparecido. Olhou o bairro todo e voltou correndo à fábrica, pensando que talvez ele tivesse ido lá procurá-la. Mas ninguém o vira. Ela e várias amigas procuraram o menino por toda parte, mas não conseguiu encontrá-lo.
Linda acabou tirando licença do trabalho para procurar o filho em tempo integral e passou meses procurando o filho, distribuindo folhetos com a legenda "Menino Desaparecido" com a foto de Joel. Ela foi até às estações de rádio locais, implorando aos ouvintes que ajudassem a encontrá-lo. Mas ninguém vira o menino de 5 anos.
Semanas e meses se passaram sem notícias. Era como se ele tivesse simplesmente evaporado. Apesar da tristeza, Linda nunca deixou de comemorar o aniversário de seu filho. Todo ano, na esperança de que estivesse bem, ela reunia a família e amigos para fazer orações e celebrar a vida de Joel.
Ela pendurou a foto do filho na porta do armário para que fosse a primeira coisa que visse toda manhã ao acordar. Linda também guardou sua bicicleta na fábrica de roupas, e pensava nele toda vez que a via encostada na parede. Ele adorava pedalar enquanto ela trabalhava, e certa vez ela disse a uma colega: “Vou esperar pelo dia em que ele vai voltar para andar de bicicleta outra vez.”
O que aconteceu com Joel de Carteret: da adoção ao reencontro
Joel não sabia dizer o nome da mãe, e, como ninguém aparecera para buscá-lo, o menino foi tido como “encontrado” – “filho de pais desconhecidos” com grave desnutrição. Então, depois que os assistentes sociais esgotaram todos os métodos conhecidos para encontrar seus pais, ele foi declarado “abandonado” e colocado para adoção.
Um ano e meio depois, o casal australiano George e Julie de Carteret conheceu o menino no orfanato de Manila e decidiu adotá-lo.
Quando viu os dois pela primeira vez, Joel se encolheu atrás da assistente social do orfanato, mas logo se sentiu à vontade com George e Julie. Eles tinham olhos muito bondosos, e sua voz calma e calorosa o relaxou. Quando a assistente social perguntou se queria ir para a Austrália, Joel imediatamente fez que sim com a cabeça. Depois de um ano e meio de solidão, voltaria a ter um lar e novos pais amorosos.
Com o tempo, Joel se adaptou à vida em Melbourne, aprendeu inglês assistindo à televisão e cresceu como qualquer criança australiana, mas guardava perguntas que não desapareciam com o tempo.
Joel na Austrália com Julie, a mãe adotiva, e Grace, a irmã nascida depois de sua adoção.
Aos 10 anos, ele perguntou a Julie quando iriam procurar sua mãe biológica. Ela precisou explicar, com delicadeza, que nem a família nem a agência de adoção sabiam o sobrenome do menino, o nome da mãe ou onde ela morava.
Durante os anos passados na Austrália, Joel pensava com frequência na mãe biológica e se perguntava o que havia acontecido tantos anos atrás. Ele se lembrava de seu sorriso amoroso e do modo como ela limpava suas lágrimas com um lenço quando ele chorava. Então, pensamentos mais sombrios surgiam. Às vezes ele se perguntava se fora abandonado, e certa vez indagou a um amigo: “E se minha mãe não queria nada comigo e me deixou no orfanato?”
Em 2000, Julie o levou à Filipinas pela primeira vez, numa viagem que reacendeu o desejo de Joel de encontrar suas origens, mas que não resultou em nenhuma pista concreta.
Na época, embora estivesse empolgado e chegasse às lágrimas ao visitar seu antigo país, ele desanimou ao descobrir que os assistentes sociais de lá nada sabiam sobre seus pais nem onde ele poderia ter morado. Joel quis voltar ao Mercado Munoz, onde fora encontrado por Manselo, o motorista de jeepney, mas Julie achou que era uma área muito violenta, perigosa demais para visitar. Joel discutiu, mas Julie bateu pé e lhe disse outra vez: “Não é seguro, filho!”
Em uma última tentativa, eles examinaram a lista telefônica, procurando um “Manselo”. Nada. Foi então que Julie disse a Joel: “Sinto muito. Não sei mais onde poderíamos procurá-lo.”
A decisão de voltar às Filipinas para procurar a mãe
Em 2015, quando já era maior de idade e trabalhava como documentarista, Joel filmava um orfanato na Tailândia quando um menino de cerca de 5 anos se aproximou dele para mostrar a própria cama no dormitório. A cena o atingiu diretamente: era a mesma idade que ele tinha quando chegou ao orfanato em Manila. No voo de volta, decidiu que precisava responder às perguntas que o acompanhavam desde a infância.
Em dezembro de 2016, Joel retornou às Filipinas com uma equipe de filmagem e um intérprete, decidido a encontrar a mãe biológica. Voltou ao Mercado Munoz, colou cartazes com sua foto e a pergunta "Você o conhece?" e bateu às portas de emissoras de rádio e TV em Manila, sendo recusado por várias delas.
A primeira pista, e o teste de DNA que deu errado
Depois de dias percorrendo o mercado, a equipe de Joel encontrou Badan Pisngot, um vendedor que trabalhava ali desde a década de 1980. Depois de várias conversas, ele se lembrou de uma mulher chamada Vicky, que teria perdido um filho na mesma região décadas antes.
Embora tivesse sido rejeitado muitas vezes pelos meios de comunicação das Filipinas, depois que os produtores da GMA, uma das maiores redes de rádio e televisão do país, souberam que Joel podia estar perto de localizar a mãe biológica, a emissora passou a acompanhar sua história. Ao saber que ele localizara Vicky, uma equipe de filmagem do programa Kapuso Mo, Jessica Soho [“Um só coração, Jessica Soho”], estrelado pela equivalente filipina da americana Oprah Winfrey, começou a trabalhar num documentário televisivo em três capítulos. Intitulava-se “A Busca de Jo-Jo”, um apelido local comum.
O encontro entre Joel e Vicky foi emocionante. Ao ver a foto dele aos 5 anos, tirada no orfanato, ela reconheceu o menino como seu filho Dante e chorou ao abraçá-lo. Mas um detalhe não batia: segundo Vicky, Dante havia nascido em 1983 e desaparecido por volta de 1989, datas que não coincidiam com os registros do orfanato sobre Joel. Para ter certeza, ele pediu um exame de DNA.
Semanas depois, o resultado chegou de um laboratório no Japão: probabilidade de parentesco de 0%. Vicky não era sua mãe biológica. Foi um golpe duro para os dois, mas Joel decidiu continuar a busca.
O e-mail que mudou tudo
Joel aproveitou a visibilidade para contar e recontar sua história em vários veículos. Cooperou com a equipe de Jessica Soho e lhes ofereceu algumas gravações feitas por sua própria equipe desde que estavam nas Filipinas. Ele participou de um popular programa de rádio matutino apresentado por Mike Enriquez, vice-presidente da GMA, e contou como tentava encontrar a mãe biológica. A esperança de Joel era que alguém que escutasse suas entrevistas no rádio ou assistisse ao documentário no programa de Jessica Soho pudesse ajudar.
Espantosamente, Linda, que ainda comemorava o aniversário do filho e rezava na esperança de encontrá-lo, assistiu ao primeiro episódio do documentário sobre a busca de Joel. Ela ficou fascinada com a história do menino perdido, mas também a achou dolorosa, pois trouxe muitas lembranças de sua própria perda.
Quando viu que o rapaz que falava inglês no documentário, mais ou menos com a mesma idade de seu filho há tanto sumido, encontrara a mãe biológica, ela desligou a tevê. Mais tarde, confessaria: “Fiquei com tanta inveja e tristeza ao mesmo tempo que não consegui mais assistir ao programa. Aquela mãe achara o filho, mas o meu continua sumido.” Ela não soube que o exame de DNA de Vicky deu negativo e que Joel ainda procurava a mãe.
Com o sucesso e toda repercussão do caso, a Rede GMA foi inundada de e-mails depois da transmissão do primeiro episódio do documentário sobre Joel. A maioria era de pessoas desejando boa sorte ou solicitando ajuda para localizar outras crianças há muito desaparecidas. No entanto, um e-mail chamou atenção de um dos produtores do programa.
Dolly Arcaido, emigrante filipina que se mudara para o Japão, assistiu ao primeiro episódio do documentário na TV a cabo. Na mensagem, ela contava que sua mãe tinha uma amiga da época da juventude chamada Linda, que morava em Cidade Quezon, não muito longe do Mercado Munoz, cujo filho de 5 anos havia desaparecido na mesma época que Joel.
Por e-mail, ela mandou à rede de TV fotos de Linda e do filho no início da década de 1980 e acrescentou detalhes espantosos. Disse que Linda era costureira e que o homem que namorava depois que o marido a abandonara era motorista de jeepney. Não fazia ideia de onde Linda morava agora, mas também disse que o nome do menino era “Joel”, um nome comum nas Filipinas.
Linda, cercada de amigas, segura Joel, com 3 anos, no colo, na casa onde moravam.
Ao ver as fotos enviadas por Dolly, Julie não teve dúvidas de que se tratava do próprio Joel quando criança. Portando a fotografia de Linda com ele no colo três décadas antes, Joel voltou às ruas da Cidade Quezon que já tinha percorrido, perguntando se alguém conhecia a mulher da foto. Ele voltou ao Mercado Munoz e mostrou as fotos aos feirantes. Ninguém reconheceu a mulher de vinte e poucos anos ali retratada. Joel percebeu que tanto tempo se passara que a probabilidade de alguém reconhecer Linda era pequena. Mas continuou mostrando a fotografia.
Sem desanimar, voltou ao rádio e contou sua história várias e várias vezes, perguntando se alguém sabia ou se lembrava de algo sobre Linda. No programa de rádio de Mike Enriquez, falou diretamente com Linda: “Aqui é Joel, seu filho que desapareceu em 1985. Só quero encontrar você, saber quem você é e lhe dizer que, no fim das contas, tudo deu certo comigo.”
Ele falou de forma comovente no programa nacional de TV de Jessica Soho, novamente se dirigindo à mãe perdida havia tanto tempo: “Não importa o que aconteceu no passado. Espero que possamos pôr tudo isso de lado e só refazer o contato. Quero que saiba que fui abençoado.” Ele piscou para afastar uma lágrima e acrescentou: “Não posso continuar vivendo sem saber se você existe.”
Numa de suas entrevistas na rádio, ele contou as últimas descobertas e terminou a mensagem a Linda dizendo: “Eu adoraria encontrá-la, e estou rezando para que você também queira me encontrar.”
Enquanto isso, em Manila, Amado Rio ouvia no rádio a história de Joel contada por ele mesmo e se deu conta da semelhança da história do rapaz com a de que sua esposa, Herminia, com quem se casara fazia 25 anos. Ele sabia que ela perdera um filho décadas atrás, antes de se conhecerem, e todos os detalhes eram iguais, mas o nome Linda não batia. Com o assunto martelando a sua cabeça e achando que sua esposa poderia ser a mulher que Joel procurava, ele perguntou à Herminia se em algum momento alguém já havia chamado de Linda. Sem entender o motivo da pergunta, ela confirmou que já havia se chamado assim.
O reencontro
Joel com Julie e Herminia. Julie contou a Herminia a vida de Joel na Austrália.
Em 9 de fevereiro de 2017, Herminia Rio foi levada por uma van da GMA até uma esquina da Cidade Quezon, onde Joel a esperava cercado por uma equipe de TV e curiosos. Ao se aproximarem, ela perguntou se ele era "Jo-Jo", apelido usado para o filho que perdera. Joel confirmou, e os dois se abraçaram em prantos diante das câmeras, num momento que emocionou espectadores em todo o país.
O exame de DNA que veio a seguir confirmou o que os dois já sentiam: Herminia era a mãe biológica de Joel. Julie afirmou depois que nem precisou da confirmação; soube assim que viu no vídeo do reencontro, Herminia enxugar as lágrimas do filho com um lenço, exatamente como ela também fazia trinta anos antes. "Só uma mãe faria aquilo”, disse ela.
O que aconteceu com Joel depois que reencontrou a mãe?
Depois de encontrar Joel, Herminia conheceu Julie, a mãe adotiva, que lhe falou da vida de Joel na Austrália, e os visitou em sua casa. Durante a busca, Joel também localizou seu pai biológico, que hoje mora nos Estados Unidos. Nem Dante, o filho perdido de Vicky, nem José Manselo, o motorista de táxi que salvou Joel no Mercado Munoz, foram localizados, mas Joel prometeu continuar a procurá-los. Ele trabalha num documentário baseado em sua história para, segundo espera, aumentar a conscientização a respeito da adoção e ajudar os adotados a “escrever nas páginas vazias da própria narrativa”.
Texto original escrito por Robert Kiener, publicado em outubro de 2018 na revista Seleções, e adaptado para o digital por Douglas Ferreira.
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