Descubra se Tiradentes era realmente dentista, por que ele virou herói nacional e qual foi seu verdadeiro papel na Inconfidência Mineira.
No dia 21 de abril, celebra-se o feriado de Tiradentes, uma homenagem nacional a um dos líderes da Inconfidência Mineira. A data marca a execução de Joaquim José da Silva Xavier, em 1792, após sua participação ativa no movimento separatista na capitania de Minas Gerais.
Apesar de seu papel na história do Brasil, a imagem de Tiradentes como herói e mártir foi consolidada somente após a Proclamação da República. Na época, os republicanos buscavam exaltar figuras brasileiras que não estivessem associadas à monarquia, transformando Tiradentes em um símbolo de liberdade e justiça.
Hoje em dia, no entanto, alguns historiadores investigam os detalhes dessa construção e debatem sobre o que é real e o que foi criado.
Tiradentes foi mesmo dentista?
Sim, Tiradentes atuou de certa forma como dentista. Embora a odontologia como ciência ainda não existisse no século XVIII, Joaquim José exercia o ofício que aprendeu com seu tio. Ele ganhou o apelido pela habilidade em extrair dentes, além de confeccionar dentes postiços de marfim ou osso de boi que pareciam reais.
De acordo com Letícia Mello Bezinelli, coordenadora de odontologia do Hospital Israelita Albert Einstein, em entrevista à Folha de S. Paulo, o tratamento para problemas bucais na época resumia-se basicamente à extração.
Ao longo de sua vida, Tiradentes (1746-1792) teve muitas outras profissões. Além de dentista ele atuou também como minerador, comerciante intinerante e militar.
A professora de história Ana Claudia Florindo do Colégio Santa Maria, em São Paulo, explica que apesar de pouco comentada a passagem de Tiradentes pelo serviço militar foi decisiva em sua trajetória. De acordo com ela, Tiradentes fez parte do regimento dos Dragões de Minas Gerais como alferes entre 1775 e 1787. Após esse período, ele se mudou para o Rio de Janeiro onde acabou conhecendo líderes de um movimento de independência.
Tiradentes era líder da Inconfidência Mineira?
A ideia de que ele era o único líder ou que lutava pela liberdade de todo o Brasil é, em parte, um mito. Embora tenha sido o principal propagandista do movimento, o foco da revolta era a independência da capitania de Minas Gerais.
O professor de história Daniel Neves Silva explica que a motivação inicial foi a insatisfação com a Coroa Portuguesa. Segundo o biógrafo Lucas Figueiredo, Joaquim José adquiriu consciência política durante o processo, compreendendo que a causa envolvia ideais nobres, como a instalação de uma República.
"No começo, Tiradentes se envolveu na trama pelo mesmo motivo da maioria de seus companheiros: insatisfação pessoal com a Coroa. Com o passar do tempo, já dentro do movimento, Joaquim adquiriu consciência política e compreendeu que a luta em que estava envolvia causas nobres, como a instalação da República e o fim da cruel dominação portuguesa”, conta o biógrafo Lucas Figueiredo.
Além disso, o professor do departamento de história da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) afirma que Tiradentes falava muito, gostava de ler e teve um relacionamento com Antônia do Espírito Santo.
"Tem gente que quer que Tiradentes seja um ‘santo’, mas ele foi um homem, com paixões, defeitos e qualidades. Era fanfarrão? Falava demais? Sim! Mas sua participação como tal era essencial para o sucesso do movimento. Ele era o agente que poderia incendiar o povo."