Saiba como oferecer ajuda a uma pessoa com deficiência sem ser invasivo. Veja dicas para respeitar a autonomia e evitar atitudes capacitistas.
Oferecer ajuda costuma ser associado a uma atitude de gentileza. Mas, quando envolve uma pessoa com deficiência, é importante saber como agir para que a boa intenção não acabe sendo invasiva ou constrangedora ou pior, parecendo capacitismo.
Isso porque nem toda situação que parece exigir auxílio realmente exige. A pessoa pode ter sua própria maneira de realizar uma tarefa, se locomover ou lidar com determinado obstáculo. Interferir sem perguntar pode atrapalhar mais do que ajudar.
A orientação principal é simples: pergunte antes de ajudar e respeite a resposta.
Como oferecer ajuda a uma pessoa com deficiência?
A primeira coisa é não partir da ideia de que a deficiência significa falta de autonomia. Na realidade, uma pessoa pode perfeitamente precisar de ajuda em determinada situação e não precisar em outra.
Também pode preferir uma maneira específica de receber auxílio. Por isso, mesmo quando você percebe uma dificuldade, a melhor atitude é perguntar.
Se uma pessoa com deficiência física parecer estar com dificuldades, é possível oferecer ajuda. Caso ela aceite, pergunte como deve proceder. Isso é importante porque cada pessoa pode ter suas próprias técnicas para realizar determinados movimentos ou superar obstáculos.
Também é importante não levar uma recusa para o lado pessoal. Se a pessoa disser que não precisa de ajuda, simplesmente respeite.
O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania reforça essa orientação ao recomendar que a autonomia seja promovida e que a resposta ou as instruções dadas pela própria pessoa sejam respeitadas.
1. Pergunte antes de agir
Esse talvez seja o cuidado mais importante. Imagine encontrar uma pessoa usando cadeira de rodas diante de uma rampa. A vontade de empurrá-la para ajudar pode surgir imediatamente. Mas fazer isso sem autorização não é uma boa ideia.
A cadeira de rodas faz parte do espaço corporal da pessoa, o mesmo vale para bengalas e muletas. Se você perceber uma dificuldade, pergunte se a pessoa precisa de ajuda. Se a resposta for sim, pergunte também como você pode ajudar. Isso evita que uma ação bem-intencionada acabe dificultando a situação.
2. Não empurre a cadeira de rodas sem autorização
A cadeira de rodas não é apenas um objeto utilizado para locomoção. Ela faz parte do espaço pessoal de quem a utiliza. Por isso, não é adequado apoiarse nela, movimentá-la ou empurrá-la sem autorização.
Se a pessoa pedir auxílio, siga as orientações que ela der. Usuários de cadeiras de rodas podem ter técnicas próprias para lidar com escadas e outros obstáculos. Uma tentativa de ajuda feita da maneira errada pode até atrapalhar.
O mesmo cuidado vale para situações inesperadas. Por exemplo, se uma pessoa com deficiência cair, a orientação é oferecer auxílio, mas perguntar antes de agir.
3. Como ajudar uma pessoa com deficiência visual?
Também não é indicado sair puxando ou conduzindo uma pessoa com deficiência visual sem perguntar, viu? Ao encontrar alguém que pareça estar com dificuldades, você pode se identificar, deixar claro que está falando com ela e oferecer auxílio.
Se a pessoa aceitar ser guiada, há uma maneira específica de fazer isso. A forma ideal de fazer isso é colocar a mão dela no seu cotovelo dobrado, dessa forma, ela acompanha os movimentos do corpo de quem está guiando.
Também é importante avisar sobre obstáculos no caminho, como degraus, pisos escorregadios e buracos.
Na hora de dar uma direção, quanto mais clara e específica, melhor. Outra boa dica é lembrar que não é necessário falar mais alto com uma pessoa cega. A menos que ela também tenha uma deficiência auditiva, não há motivo para gritar.
4. Não confunda ajuda com superproteção
Existe uma diferença importante entre oferecer auxílio e decidir que alguém não consegue fazer determinada coisa. O capacitismo pode aparecer justamente nessa presunção de incapacidade. O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania define o termo como uma forma de discriminação e preconceito contra pessoas com deficiência e destaca que ele pode aparecer em atitudes aparentemente sutis.
Infantilizar uma pessoa adulta, falar por ela ou presumir que ela não consegue estudar, trabalhar ou tomar suas próprias decisões são exemplos apontados pelo ministério.
A Câmara também orienta a não superproteger pessoas com deficiência intelectual. A recomendação é permitir que elas façam ou tentem fazer sozinhas aquilo que conseguem realizar, oferecendo ajuda quando realmente for necessário.
Em outras palavras, ajudar não significa assumir o controle.
5. Fale diretamente com a pessoa
Outra situação que pode ser constrangedora acontece quando alguém está acompanhado e você direciona todas as perguntas ao acompanhante. Isso vale especialmente para pessoas com deficiência auditiva. Mesmo quando há um intérprete, a comunicação deve sempre ser direcionada à própria pessoa surda, e não ao intérprete.
A recomendação do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania é semelhante: quando uma informação ou pergunta é destinada à pessoa com deficiência, deve-se falar diretamente com ela. A deficiência não elimina a autonomia de quem está diante de você. Por isso, olhe para a pessoa, faça a pergunta a ela e aguarde sua resposta.
6. Como conversar com uma pessoa surda?
A comunicação também pode exigir alguns cuidados específicos. Ao interagir com uma pessoa surda, você pode acenar ou tocar levemente em seu braço para chamar sua atenção. Depois, fique de frente para ela e mantenha a boca visível, o que pode facilitar a leitura labial para quem utiliza esse recurso.
A recomendação é falar de maneira clara, mas sem exagerar na pronúncia ou nos movimentos da boca. A velocidade normal da fala deve ser mantida, a menos que a própria pessoa peça para você falar mais devagar.
7. Respeite o ritmo de cada pessoa
Nem toda deficiência se manifesta da mesma maneira. Mesmo pessoas que possuem o mesmo tipo de deficiência podem apresentar necessidades diferentes. Por isso, não existe uma fórmula única para todas as situações.
O Ministério do Turismo também recomenda priorizar a individualidade e reconhecer que cada pessoa possui necessidades e preferências próprias. O material orienta a perguntar antes de ajudar e, no caso de uma pessoa com deficiência visual, permitir que ela segure o braço ou ombro de quem estiver auxiliando, em vez de ser empurrada.
Por isso, se você não souber como agir, uma pergunta simples pode resolver a situação. “Você precisa de ajuda?” E, caso a resposta seja positiva: “Como posso ajudar?”
8. Evite transformar a pessoa em um exemplo de superação
Outro cuidado importante está na maneira como você reage às conquistas de uma pessoa com deficiência.
Elogiar alguém não é um problema. O ponto é quando atividades comuns passam a ser tratadas como feitos extraordinários apenas porque foram realizadas por uma pessoa com deficiência.
O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania aponta que elogios excessivos por ações banais podem reforçar a ideia de que a deficiência precisa ser superada.
O Guia de Práticas Inclusivas do BNDES também alerta para a tendência de apresentar pessoas com deficiência que estudam, trabalham, praticam esportes ou participam da sociedade como exemplos de “superação” ou como “exemplo de vida”. O material ressalta que esse tipo de comparação pode gerar diferenciação e discriminação.
A deficiência é uma característica da pessoa. Não precisa ser o centro de todas as interações.
No cotidiano, pequenas mudanças de comportamento podem fazer diferença. Falar diretamente com a pessoa, respeitar seu tempo, não presumir incapacidade e perguntar antes de ajudar são atitudes simples que contribuem para relações mais respeitosas e inclusivas.