Entenda o que é desenho universal e veja como esse conceito pode deixar a casa mais acessível, flexível e confortável para pessoas com diferentes necessidades.
Uma casa bonita pode ser confortável para quem mora nela hoje. Mas e se as necessidades mudarem daqui a alguns anos? É justamente esse tipo de situação que o desenho universal procura considerar e evitar.
O conceito propõe ambientes pensados para serem utilizados pelo maior número possível de pessoas, sem depender de adaptações específicas. Isso inclui crianças, adultos, idosos e pessoas com deficiência ou limitações temporárias.
Na prática, a ideia pode aparecer em escolhas bastante comuns dentro de uma casa. A circulação entre os cômodos, a forma de abrir uma porta, a disposição dos móveis, a iluminação e até a possibilidade de reorganizar um ambiente podem fazer parte desse planejamento.
O que é desenho universal?
O conceito de desenho universal foi criado pelo arquiteto norte-americano Ron Mace na década de 1980. A proposta considera que projetos e ambientes devem levar em conta diferentes perfis de usuários, suas idades, habilidades e necessidades.
O objetivo é permitir que os espaços sejam utilizados de maneira ampla, sem que algumas pessoas precisem seguir caminhos diferentes ou depender de adaptações posteriores.
Essa é uma das diferenças entre desenho universal e uma solução pensada exclusivamente para acessibilidade. Enquanto a acessibilidade pode envolver recursos destinados a garantir o uso de determinado espaço por pessoas com necessidades específicas, o desenho universal procura incorporar a diversidade ao próprio projeto.
O site ArchDaily descreve a proposta como uma perspectiva de projeto que deve estar presente desde o início do processo arquitetônico. A intenção é que diferentes pessoas possam utilizar os mesmos ambientes e tenham as mesmas oportunidades de uso.
A própria Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, de 2015, define desenho universal como a concepção de produtos, ambientes, programas e serviços que possam ser utilizados por todas as pessoas sem necessidade de adaptação ou projeto específico. A legislação também estabelece o desenho universal como regra geral para projetos relacionados ao meio físico, entre outros campos.
Quais são os princípios do desenho universal?
O desenho universal não significa simplesmente colocar uma rampa na entrada ou aumentar o tamanho de uma porta. O conceito possui sete princípios que ajudam a orientar projetos.
São eles: uso equitativo, flexibilidade no uso, uso simples e intuitivo, informação de fácil percepção, tolerância ao erro, baixo esforço físico e dimensionamento adequado dos espaços para acesso e utilização.
Esses princípios estão presentes na ABNT NBR 9050, norma brasileira relacionada à acessibilidade em edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos.
Na arquitetura, eles podem aparecer de diferentes formas. Um espaço de circulação mais confortável, por exemplo, pode atender pessoas com diferentes condições de mobilidade. Um ambiente simples de compreender pode facilitar a utilização por pessoas com diferentes experiências e habilidades.
O desenho universal também considera aspectos que vão além das medidas. Cores, texturas, materiais e formas de circulação podem ajudar na percepção e na orientação dentro de um espaço.
Por que pensar no desenho universal dentro de casa?
A casa acompanha diferentes momentos da vida. Uma pessoa pode morar sozinha, receber familiares, ter filhos, envelhecer ou passar temporariamente por alguma limitação de mobilidade. Um projeto pensado apenas para uma situação específica pode acabar exigindo reformas quando essas circunstâncias mudam. O desenho universal tenta antecipar parte dessas possibilidades.
Um trabalho brasileiro publicado em 2024 ajuda a entender essa lógica. O artigo "Desenho universal na habitação unifamiliar: reflexões sobre o exercício projetual", de Ana Maria Moreira Maciel, foi publicado na Revista Geometria Gráfica e também apresentado no X Encontro Nacional de Ergonomia do Ambiente Construído e XI Seminário Brasileiro de Acessibilidade Integral.
A experiência analisou propostas de habitações a partir de uma abordagem interdisciplinar e buscou sensibilizar estudantes para a importância de espaços sem barreiras físicas ou atitudinais. A pesquisa reforça uma ideia importante: pensar na inclusão durante a concepção do espaço pode fazer parte do próprio exercício de projetar uma casa, e não apenas de uma etapa posterior de adaptação.
Desenho universal pode deixar a casa mais flexível
Uma das características do desenho universal é justamente a flexibilidade. Isso pode significar pensar em ambientes que consigam acompanhar diferentes necessidades ao longo do tempo. Em uma residência, por exemplo, a possibilidade de reorganizar os espaços internos pode ser considerada desde o projeto.
Diretrizes do Governo do Estado de São Paulo para o desenho universal em habitações de interesse social incluem parâmetros relacionados às dimensões dos ambientes, aos alcances de comandos e equipamentos e à possibilidade de flexibilizar a disposição dos espaços da residência. A proposta contempla, inclusive, a possibilidade de deslocamento de divisórias internas e readequação dos cômodos.
Essa lógica muda a maneira de pensar a decoração. Em vez de perguntar apenas onde colocar determinado móvel, vale considerar como aquele ambiente poderá funcionar em diferentes situações.
Um quarto, por exemplo, pode precisar desempenhar funções diferentes ao longo dos anos. Uma área de circulação pode precisar acomodar pessoas com diferentes formas de locomoção. Um banheiro pode precisar de mais espaço para determinadas situações.
A flexibilidade permite que a casa acompanhe essas mudanças.
O que muda na prática dentro de uma casa?
Aplicar o desenho universal não significa transformar todos os ambientes em espaços com aparência hospitalar ou cheia de equipamentos de acessibilidade. Pelo contrário. Uma das ideias centrais é incorporar as soluções ao próprio projeto.
O ArchDaily cita como exemplo portas que podem ser abertas automaticamente por sensores. O princípio por trás da solução é permitir o uso por pessoas com diferentes habilidades. Dentro de uma residência, a mesma lógica pode orientar escolhas relacionadas à circulação, ao mobiliário, aos comandos e à organização dos cômodos.
Circulação
Corredores e áreas de passagem precisam ser pensados considerando o deslocamento das pessoas e o uso dos ambientes. O objetivo não é criar uma casa cheia de espaços vazios, mas evitar que a circulação dependa de obstáculos ou de um único padrão de corpo e mobilidade.
Portas e acessos
A forma de abrir uma porta também interfere na experiência de uso. Soluções que reduzem o esforço físico ou facilitam a abertura podem tornar determinados espaços mais fáceis de utilizar por pessoas com diferentes habilidades.
Banheiro
O banheiro merece atenção porque concentra diferentes atividades e equipamentos em uma área relativamente pequena. Pensar no espaço de circulação, na disposição dos elementos e na possibilidade de utilização por pessoas com diferentes necessidades faz parte de uma abordagem universal.
Móveis e equipamentos
A altura e a localização de comandos, equipamentos e objetos também podem ser consideradas no projeto. As diretrizes de desenho universal para habitações desenvolvidas pelo Governo de São Paulo incluem justamente parâmetros relacionados ao alcance de comandos, alavancas e equipamentos.
Iluminação e informação
O desenho universal também vai além da mobilidade. As texturas, cores e materiais podem ser utilizados como elementos de comunicação e estímulo. A ideia é pensar na percepção do ambiente de maneira ampla, e não apenas na aparência estética.
O desenho universal não é apenas uma questão de acessibilidade
É comum associar desenho universal exclusivamente às pessoas com deficiência. Embora a acessibilidade seja uma parte importante da discussão, o conceito é mais abrangente.
Uma pesquisa publicada em 2023 na revista Journal of Housing and the Built Environment ajuda a mostrar essa diferença. O estudo "Evaluating universal design of built environments: an empirical study of stakeholder practice and perceptions", de Valerie Watchorn e outros autores, reuniu respostas de 157 participantes em um questionário e entrevistas com 37 pessoas envolvidas com o ambiente construído. O grupo incluía profissionais do setor, pesquisadores, representantes do poder público e pessoas com deficiência.
O trabalho identificou desafios para avaliar a aplicação do desenho universal e mostrou que listas de verificação são utilizadas com frequência, mas podem não ser suficientes para captar toda a complexidade do conceito. Os autores defendem uma avaliação mais ampla e multidisciplinar.
Isso é importante porque uma casa universal não é definida por uma lista de acessórios. O que importa é a relação entre as pessoas e o espaço.
Desenho universal também pode considerar o envelhecimento
Pensar na casa para diferentes fases da vida é outro ponto importante.
Uma pesquisa publicada em 2024 na revista Frontiers in Built Environment, chamada "An assessment framework for smart and sustainable housing for older adults using analytic hierarchy process (AHP)", analisou critérios para moradias destinadas a pessoas mais velhas. O trabalho incorporou os sete princípios do desenho universal entre os critérios de acessibilidade avaliados.
Entre os aspectos considerados estão uso equitativo, flexibilidade, facilidade de compreensão, informação perceptível, tolerância ao erro, baixo esforço físico e espaço suficiente para aproximação e utilização.
A lógica vale para além da terceira idade. Uma casa planejada para diferentes capacidades pode ser mais preparada para mudanças que acontecem ao longo da vida.
Como levar o desenho universal para o projeto da sua casa?
O primeiro passo é mudar a pergunta. Em vez de pensar apenas em "como deixar a casa bonita?", o projeto pode considerar também "como tornar esse espaço fácil e confortável de usar por pessoas diferentes?".
Alguns pontos podem orientar essa conversa com arquitetos e designers:
- Pense na circulação desde a planta: A disposição dos ambientes influencia diretamente a facilidade de deslocamento pela casa.
- Considere diferentes formas de utilização: Um mesmo cômodo pode precisar cumprir funções diferentes ao longo do tempo.
- Observe a altura dos equipamentos: Comandos, alavancas e objetos de uso frequente precisam estar em posições que facilitem o acesso.
- Evite criar obstáculos desnecessários: Móveis e elementos decorativos também interferem na circulação.
- Pense na flexibilidade: Divisórias e ambientes que podem ser reorganizados ajudam a casa a acompanhar mudanças nas necessidades dos moradores.
- Considere percepção e orientação: Cores, texturas, materiais e formas de sinalização também podem participar da organização do espaço.
- Não deixe a acessibilidade para o final: O desenho universal começa na concepção do ambiente. Essa é justamente uma das diferenças fundamentais em relação a adaptações feitas posteriormente.
O desenho universal propõe uma mudança de perspectiva na arquitetura. Em vez de imaginar um morador ideal, com idade, corpo e habilidades específicas, o projeto considera que as pessoas são diferentes e que suas necessidades também podem mudar.
Isso pode resultar em ambientes mais flexíveis, fáceis de utilizar e preparados para diferentes situações. Não se trata de abrir mão da estética. O próprio conceito procura integrar acessibilidade, conforto, funcionalidade e diversidade ao projeto desde o início.
No fim, uma casa pensada para mais pessoas também pode ser uma casa mais preparada para a própria vida.