Especialista explica que mudanças no estilo de vida são essenciais para evitar o reganho de peso após usar canetas emagrecedoras.
Recentemente um estudo publicado na revista científica British Medical Journal apontou que pessoas que perderam peso usando as chamdas "canetas emagrecedoras", tendem a recuperar o peso perdido muito mais rápido do que quem emagrece com dietas e exercícios.
No entanto, para a médica Dra. Patricia Magier, o reganho não deve ser visto como fracasso individual, mas como um reflexo da complexidade da obesidade enquanto doença crônica.
“A obesidade é um problema de saúde pública global, associado a diversas comorbidades, incluindo diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e hipertensão. Os análogos do GLP-1 demonstraram eficácia na perda de peso ao reduzir o apetite e aumentar o gasto energético, mas a descontinuação desses agentes leva ao reganho de peso, o que é um grande desafio clínico. Isso reforça a necessidade de estratégias terapêuticas a longo prazo para manter os benefícios do tratamento”, explica.
Por que ocorre o reganho de peso após parar as canetas?
De acordo com a médica, estudos identificaram três mecanismos principais por trás do reganho de peso quando o uso dos análogos de GLP-1 é interrompido.
O primeiro envolve ajustes hormonais transitórios. “No primeiro caso, a retirada do medicamento pode gerar alterações compensatórias nos hormônios reguladores do apetite e do metabolismo energético, incluindo a leptina e a grelina”, afirma a especialista. Na prática, isso significa mais fome e menor sensação de saciedade.
O segundo mecanismo está ligado ao sistema nervoso central. Sem a ação do medicamento, o cérebro perde parte da regulação artificial do apetite e do gasto energético. “Além disso, o sistema nervoso central perde a influência do medicamento sobre os centros de controle do apetite e do gasto energético, resultando em maior ingestão alimentar”, destaca a Dra. Patricia.
Por fim, há uma possível dependência metabólica. “A exposição crônica aos análogos de GLP-1 pode levar à dependência da sinalização deste hormônio para manter a homeostase glicêmica e a regulação do peso”, explica. Quando o estímulo externo desaparece, o organismo tem dificuldade de manter o novo equilíbrio sozinho.
Esses fatores ajudam a entender por que o corpo tende a reagir contra o emagrecimento rápido. “Quando o peso corporal diminui rapidamente, o organismo ativa mecanismos para restaurá-lo. Isso ocorre porque a obesidade tem um componente neuroendócrino e metabólico forte, e o corpo tende a ‘lutar’ contra a perda de peso”, comenta a ginecologista.
É possível evitar o efeito rebote?
A resposta curta é: sim, mas não sem mudanças consistentes no estilo de vida. Para a especialista, encarar a obesidade como doença crônica é o primeiro passo. “A obesidade, como uma doença crônica, requer controle contínuo, por isso modificações dietéticas, prática regular de atividade física e melhora do sono são mudanças inegociáveis para manutenção do peso perdido”, explica.
A seguir, veja as seis estratégias indicadas pela médica para reduzir o risco de reganho de peso após o uso das canetas emagrecedoras.
1. Desmame gradual do medicamento
Caso haja a necessidade de interromper o tratamento, o ideal é evitar a retirada brusca. “A retirada abrupta pode causar hiperfagia compensatória. Reduzir progressivamente a dose ao longo de algumas semanas pode minimizar esse efeito. Alternar para medicamentos com meia-vida mais longa (como tirzepatida) pode ser uma opção para uma transição mais suave”, orienta a Dra. Patricia.
2. Ajuste nutricional personalizado
Segundo a especialista, a alimentação precisa ser revista para sustentar a saciedade sem o auxílio do medicamento. “A dieta deve ser adaptada para manter a saciedade e evitar oscilações glicêmicas. É recomendável o aumento da ingestão proteica, que pode compensar a queda na saciedade induzida pelo GLP-1. Além disso, uma dieta rica em fibras mantém o efeito positivo do GLP-1 na microbiota intestinal”, diz a médica.
3. Introdução de terapias hormonais adjuvantes
Em algumas fases da vida feminina, o suporte hormonal pode fazer diferença. Para mulheres no climatério, hormônios podem ser indicados para preservar a massa magra e evitar queda do metabolismo. “Além disso, a modulação do eixo testosterona/estrogênio pode ajudar no controle da composição corporal e evitar a regulação negativa do gasto energético”, afirma.
4. Estratégias para manutenção da microbiota
A saúde intestinal também entra na equação. “O uso de probióticos e prebióticos pode ajudar a preservar as adaptações benéficas induzidas pelos medicamentos. Dietas que favorecem a fermentação de fibras e produção de ácidos graxos de cadeia curta ajudam na manutenção do metabolismo energético”, explica a especialista.
5. Estímulo da atividade física
Manter o corpo em movimento é decisivo para evitar o efeito rebote. Exercícios resistidos ajudam a preservar a massa muscular e manter a taxa metabólica basal mais alta. “Exercícios aeróbicos também são indicados, pois melhoram a capacidade cardiovascular e ajudam a aumentar o gasto energético”, diz a médica.
6. Suporte comportamental e psicológico
Por fim, o cuidado com o comportamento alimentar é fundamental. Segundo a Dra. Patricia, terapias cognitivas comportamentais auxiliam na reeducação alimentar e no controle do apetite. O acompanhamento contínuo também permite ajustes antes que pequenos deslizes se transformem em ganho de peso significativo.