Pesquisa revela que a macroalga Sargassum, antes vista como problema ambiental, pode se tornar uma aliada da indústria da beleza.
Um grupo de pesquisadores descobriu que uma alga encarada como um problema ambiental, na realidade, pode virar uma matéria-prima para a indústria da beleza. A revisão científica aponta que a planta marítima da espécie Sargassum reúne compostos naturais com potencial para hidratar a pele, combater inflamações, proteger contra danos causados pelo sol e ajudar na prevenção do envelhecimento cutâneo.
As descobertas chamam atenção porque também apresentam uma alternativa mais sustentável para um mercado que movimenta bilhões de dólares todos os anos e busca cada vez mais ingredientes de origem natural.
Como uma alga pode ajudar a indústria da beleza?
O estudo foi publicado na revista científica Frontiers in Marine Science e reuniu os resultados de 30 pesquisas publicadas entre 2020 e 2024. Ao todo, os cientistas analisaram 17 espécies da macroalga Sargassum para entender seu potencial na produção de dermocosméticos, categoria que reúne cosméticos formulados com ingredientes cuja ação possui comprovação científica.
Segundo os pesquisadores, os compostos presentes nessas algas apresentam propriedades que podem beneficiar diretamente a saúde da pele, ao mesmo tempo em que oferecem novas possibilidades para uma produção mais sustentável de cosméticos.
O que torna o Sargassum tão interessante para a pele?
A revisão científica identificou diversos compostos naturais presentes na macroalga que apresentam propriedades importantes para formulações cosméticas. Entre os principais benefícios observados estão:
- ação antioxidante
- proteção contra danos provocados pelos raios solares
- efeito anti-inflamatório
- ação antimicrobiana
- hidratação da pele
- auxílio na redução de manchas
Essas características fazem com que o Sargassum desperte interesse principalmente para produtos voltados aos cuidados diários da pele e ao combate aos sinais do envelhecimento.
Os compostos naturais encontrados na alga
Os pesquisadores destacam que diferentes substâncias presentes na macroalga ajudam a explicar esse potencial. As fucoidanas, por exemplo, estão associadas ao fortalecimento da barreira natural da pele e ao aumento da hidratação.
Já os florotaninos foram identificados como antioxidantes potentes, enquanto os meroterpenoides aparecem relacionados à prevenção do envelhecimento cutâneo. Esses componentes naturais são justamente o foco das pesquisas que buscam desenvolver novos ingredientes para dermocosméticos.
Quais espécies foram estudadas?
A revisão científica avaliou 30 artigos sobre o uso cosmético do Sargassum. Entre as 17 espécies analisadas, algumas apareceram com maior frequência nas pesquisas. A espécie Sargassum horneri respondeu por 30% dos estudos revisados. Também foram investigadas espécies como Sargassum fusiforme, Sargassum fussum e Sargassum muticum.
Apesar dos resultados considerados promissores, os pesquisadores ressaltam que a maior parte dessas investigações ainda acontece em ambiente laboratorial.
Tecnologias mais limpas ajudam a aproveitar melhor a alga
Outro destaque da revisão é o avanço das chamadas tecnologias verdes utilizadas para extrair os compostos presentes nas macroalgas.
Em vez de recorrer a grandes quantidades de produtos químicos, os cientistas vêm utilizando métodos considerados mais sustentáveis, como extrações por som, enzimas e micro-ondas.
Essas técnicas ajudam a preservar melhor as propriedades naturais dos ingredientes e ainda reduzem o consumo de energia e solventes durante o processo de extração. Além disso, o estudo apresenta o conceito de biorrefinaria, cujo objetivo é aproveitar praticamente toda a biomassa disponível.
Nesse modelo, primeiro são retirados os compostos de maior valor para a fabricação de cosméticos. Depois disso, o restante da matéria-prima pode ser destinado à produção de fertilizantes, bioestimulantes agrícolas, alimentos para animais e até biocombustíveis.
Brasil ainda precisa superar desafios para transformar a pesquisa em produtos
Embora os resultados sejam considerados promissores, os pesquisadores explicam que ainda existe um longo caminho entre as descobertas feitas em laboratório e a chegada de novos produtos às prateleiras.
Um dos autores da revisão, o pesquisador Dr. Levi Pompermayer Machado, membro do INCT NanoAgro, destacou ao Correio Braziliense que esse processo depende de investimentos em infraestrutura e desenvolvimento tecnológico.
Segundo ele, “Esse estágio pode ser acelerado com infraestrutura adequada para validação tecnológica, desenvolvimento de protótipos, serviços analíticos e apoio regulatório, reduzindo o tempo entre a descoberta científica e o mercado”.
Na prática, isso significa que a pesquisa científica precisa caminhar junto com laboratórios, empresas e órgãos reguladores para que um ingrediente promissor consiga ser transformado em um produto seguro para o consumidor.
Há potencial, mas também há obstáculos
De acordo com o pesquisador, o Brasil possui uma combinação favorável de biodiversidade e conhecimento científico para se destacar nessa área. Ainda assim, diversos desafios precisam ser vencidos antes que o Sargassum possa ganhar espaço na indústria nacional de dermocosméticos.
“Não falta potencial biológico, mas uma combinação de desafios científicos, tecnológicos e regulatórios”, destaca o especialista.
Entre os principais entraves apontados pelo estudo estão:
- pouca pesquisa sobre as espécies brasileiras
- variações sazonais na composição das algas
- necessidade de padronizar a biomassa utilizada
- controle de metais pesados e da contaminação microbiológica
- desenvolvimento de processos industriais sustentáveis
- regulamentação para coleta e aproveitamento das macroalgas
Esses fatores são considerados fundamentais para garantir que os ingredientes obtidos apresentem qualidade constante e possam ser utilizados com segurança pela indústria cosmética.
Perguntas frequentes
O que é a alga Sargassum?
Sargassum é um gênero de macroalgas marinhas que costuma aparecer em grandes quantidades em algumas praias. Apesar de muitas vezes ser vista como um problema ambiental, pesquisas indicam que ela possui compostos naturais com potencial de aplicação em diferentes setores.
Quais benefícios o Sargassum pode oferecer para a pele?
Segundo a revisão científica, a macroalga apresenta ação antioxidante, efeito anti-inflamatório, propriedades antimicrobianas, capacidade de hidratação, proteção contra danos causados pelos raios solares e auxílio na redução de manchas.
Os cosméticos feitos com Sargassum já estão disponíveis no mercado?
A pesquisa mostra que a maior parte dos estudos ainda está em fase laboratorial. Por isso, ainda existem etapas de validação tecnológica, regulamentação e desenvolvimento industrial antes que esses ingredientes possam chegar às prateleiras em larga escala.
Por que o Brasil ainda não lidera esse setor?
Os pesquisadores apontam desafios relacionados à pesquisa sobre espécies brasileiras, padronização da biomassa, controle de contaminantes, infraestrutura tecnológica, processos industriais sustentáveis e regulamentação para coleta e aproveitamento das macroalgas.
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