A pilocarpina, extraída do jaborandi, é crucial no combate ao glaucoma, uma das principais causas de cegueira no Brasil.
Quem usa colírio para glaucoma provavelmente nunca ouviu falar do jaborandi, mas a sua visão depende dele. Essa planta amazônica é a única fonte natural conhecida da pilocarpina, substância usada nos tratamentos para glaucoma, boca seca crônica e síndrome de Sjögren. O problema é que ela está ameaçada de extinção e um grupo de pesquisadores brasileiros está correndo contra o tempo para garantir sua sobrevivência.
O jaborandi (Pilocarpus microphyllus) é classificado como vulnerável na Lista Vermelha da Flora Brasileira, categoria que indica risco real de extinção. Décadas de coleta mal feita e perda de habitat reduziram suas populações de forma preocupante. O que torna a situação ainda mais urgente é que não existe alternativa sintética consolidada à pilocarpina retirada da planta, tornando sua conservação uma questão ao mesmo tempo ecológica, médica e econômica.
Para enfrentar esse desafio, pesquisadores do Instituto Tecnológico Vale Desenvolvimento Sustentável (ITV) criaram um banco vivo de jaborandi dentro da Floresta Nacional de Carajás, no Pará. Publicado na revista científica PLOS One, o projeto se destaca por uma abordagem diferente das técnicas convencionais de preservação. O motivo para essa escolha é simples: o jaborandi não sobrevive ao armazenamento convencional.
"As sementes perdem viabilidade rapidamente, o que dificulta a conservação nas formas tradicionais", explica Cecilio Caldeira Frois, pesquisador responsável pelo estudo. A solução encontrada pelos pesquisadores foi cultivar plantas vivas em condições seminaturais, dentro de áreas de restauração ecológica na própria floresta.
A Floresta Nacional de Carajás, no sudeste do Pará, é uma das maiores unidades de conservação de uso sustentável do Brasil, com mais de 400 mil hectares. Ela abriga não apenas biodiversidade expressiva, mas também comunidades que vivem do manejo florestal há décadas.
O uso de florestas nacionais como espaço para conservação ativa de espécies ameaçadas é uma tendência crescente na política ambiental brasileira. O modelo chamado "inter situ" reúne o que há de melhor nos dois mundos: a segurança de um ambiente monitorado e a autenticidade do habitat natural, o que favorece o desenvolvimento saudável das plantas e a manutenção de sua diversidade genética.
Entre 2020 e 2023, a equipe coletou sementes de quatro populações geneticamente distintas, produziu mudas em viveiro e as transplantou para antigas áreas de mineração em recuperação. Cada planta foi monitorada individualmente, desde sua origem até o campo. Três das quatro populações apresentaram resultados expressivos, com mais de 500 plantas estabelecidas em cada uma, com representação genética adequada das populações selvagens. A quarta ainda enfrenta dificuldades e segue como prioridade nas próximas etapas.
O projeto conta também com a participação da CoEx-Carajás, cooperativa formada por famílias que coletam o jaborandi na floresta há gerações. Elas integram o planejamento desde o início e são peça central na identificação do que é viável e necessário para a conservação da espécie.
Além de preservar o jaborandi, o banco vivo enriquece a vegetação das áreas em restauração e gera material para pesquisas futuras. Os pesquisadores afirmam que o modelo pode ser replicado para outras espécies tropicais cujas sementes também não suportam armazenamento convencional.
O que é o glaucoma e por que a pilocarpina importa
O glaucoma é a segunda maior causa de cegueira no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde. No Brasil, estima-se que mais de um milhão de pessoas vivam com a doença, muitas sem diagnóstico. A pilocarpina extraída do jaborandi é usada há mais de um século no tratamento da condição, atuando para reduzir a pressão intraocular.
Embora existam outros medicamentos disponíveis, a pilocarpina segue sendo indicada em situações específicas, especialmente quando outras opções não são toleradas pelos pacientes. A dependência de uma única espécie vegetal para sua produção torna a conservação do jaborandi estratégica do ponto de vista da saúde pública.
Fontes: Agência Bori, Biblioteca Virtual em Saúde (Ministério da Saúde), OMS (Organização Mundial da Saúde), PLOS One