Pai encerra trajetória de 52 anos como doador de sangue em cena emocionante ao lado da filha, que realizou sua última coleta no Hemosul e deu continuidade ao legado de solidariedade.
Há gestos pequenos que podem mudar a vida de outras pessoas! Para Domingos Paulo Sosti, doar sangue nunca foi apenas um compromisso e na verdade, era uma maneira de cuidar de pessoas que ele provavelmente jamais conheceria. Durante 52 anos, essa escolha fez parte de sua rotina, atravessando diferentes fases da vida, mudanças de cidade, a criação dos filhos e incontáveis histórias que ficaram registradas muito além de qualquer documento.
No dia 26 de junho, no Hemosul Coordenador, em Campo Grande, esse ciclo chegou ao fim por um motivo especial. Aos 69 anos, Domingos realizou sua última doação de sangue antes de completar 70 anos, idade máxima permitida pela legislação brasileira para quem já é doador regular.
Mas aquele não seria apenas o encerramento de uma longa trajetória. A profissional responsável por coletar seu sangue era justamente sua filha, Vanessa dos Santos, técnica em enfermagem da própria instituição.
Pai e filha dividiram um momento que simbolizava muito mais do que uma despedida. De um lado, um homem que dedicou mais de cinco décadas a salvar vidas. Do outro, uma mulher que cresceu observando esse exemplo e decidiu transformá-lo em profissão e também em missão.
O resultado foi uma cena carregada de emoção e significado, capaz de resumir como a solidariedade pode atravessar gerações.
Uma escolha feita aos 18 anos mudou toda a sua história
A jornada de Domingos começou quando ele tinha apenas 18 anos, ainda em São Paulo. Naquela época, ele talvez não imaginasse que aquele primeiro gesto seria repetido durante mais de meio século. Ano após ano, a doação de sangue deixou de ser um ato isolado para se tornar parte de sua identidade. Mesmo depois de tantas décadas, ele nunca perdeu a motivação.
"Eu acho muito gratificante doar sangue, porque estamos ajudando o próximo. Já são 52 anos de doação. Se eu pudesse, doaria mais ainda, mas existe o limite de idade, que vai até os 70 anos."
A frase resume a forma como Domingos sempre enxergou a doação, não como uma obrigação e nem como um sacrifício. Mas como uma oportunidade de oferecer esperança para alguém que precisava.
A história que ele nunca esqueceu
Ao longo de 52 anos, foram inúmeras doações, muitas delas aconteceram sem que Domingos soubesse quem receberia aquele sangue. Mas uma situação permaneceu viva em sua memória: quando a filha de um amigo precisou de uma transfusão urgente.
Naquele momento significativo, o gesto deixou de ser um ato altruísta para alguém distante e ganhou um rosto, nome e sobrenome.
"Ela precisava com urgência. Isso me tocou muito, porque penso que ajudei aquela criança a ter uma vida inteira pela frente."
Histórias como essa ajudam a explicar por que ele nunca interrompeu sua rotina de doador. Cada bolsa coletada representava uma possibilidade. Mesmo sem conhecer os pacientes, Domingos sempre acreditou que alguém, em algum lugar, estaria recebendo uma nova chance.
Um reconhecimento que inaugurou uma nova tradição
A despedida da última doação também marcou outro momento importante. O Hemosul entregou a Domingos um certificado em homenagem à sua trajetória de solidariedade. Segundo a instituição, esse reconhecimento abre caminho para que outros doadores que encerrem sua jornada pelo limite de idade também possam solicitar a homenagem.
Para quem passou mais de cinco décadas ajudando desconhecidos, receber aquele certificado teve um significado especial. "É um sentimento de muita gratidão. Pelo que fiz até hoje, sinto que é um reconhecimento, uma bênção."
Mais do que celebrar um número impressionante de anos como doador, o certificado simbolizou uma vida inteira construída sobre pequenos gestos repetidos inúmeras vezes.
A menina que cresceu admirando o pai
Enquanto Domingos construía essa história, havia alguém observando tudo de perto. Vanessa dos Santos ainda era criança quando começou a perceber que o pai sempre voltava das doações com um sentimento difícil de explicar.
Ela enxergava o orgulho estampado em seu rosto e aquilo ficou guardado na memória. "Desde muito pequena, eu via ele chegando da doação, com orgulho. E eu sempre falava: 'Quando eu crescer, quero ser doadora de sangue igual ao meu pai'."
O curioso é que Vanessa tinha medo de agulhas. Por muito tempo, esse receio parecia incompatível com o sonho de seguir o exemplo do pai. Mas Domingos nunca desistiu de incentivá-la.
Segundo ela, havia uma frase que ele repetia constantemente: "Ele sempre dizia que não doía, que o mais importante era o sentimento."
Com o passar dos anos, o medo deu lugar à vontade de ajudar. Hoje, Vanessa também é doadora de sangue. "Levei um tempo, mas hoje já tenho cerca de 4 a 5 anos como doadora."
A influência do pai, porém, foi muito além das doações e ela também escolheu uma profissão dedicada ao cuidado com as pessoas.
O exemplo também guiou sua escolha profissional
O desejo de cuidar das pessoas não ficou restrito à doação de sangue. Vanessa construiu uma carreira na enfermagem e, atualmente, trabalha justamente no Hemosul, onde participou do último ato da trajetória do pai como doador.
Concursada da Secretaria de Estado de Saúde há quase 13 anos e com 22 anos de experiência na enfermagem, ela atua na instituição há cinco meses.
"Construí minha trajetória na enfermagem e hoje estou aqui, no Hemosul, vivendo isso de perto", contou.
Naquele dia, ela deixou de ser apenas a profissional responsável pela coleta. Também era a filha que acompanhava o encerramento de uma história construída muito antes de sua chegada ao mundo.
Uma homenagem que emocionou toda a família
O que seria apenas um registro institucional acabou se transformando em um momento de enorme significado para os dois. Vanessa acompanhou de perto a homenagem prestada ao pai e não escondeu o orgulho por tudo o que ele representa para a família.
"Ele está prestes a completar 70 anos, mas tem um espírito jovem. É o tipo de pessoa que, se você ligar de madrugada pedindo ajuda, ele vai. Ele se doa para os outros, isso faz parte da essência dele."
Segundo ela, esse comportamento sempre foi natural dentro de casa. O exemplo acabou influenciando também os irmãos. "Tenho uma irmã que também é doadora. Meu irmão ainda tem um pouco de medo, mas a gente sempre incentiva."
A corrente de solidariedade iniciada por Domingos, portanto, não terminou com sua última doação. Ela continua presente na própria família.
O fim de uma etapa abriu espaço para um novo legado
Vanessa explica que a homenagem teve um significado ainda maior do que imaginava inicialmente. A ideia era registrar o encerramento da trajetória do pai para as redes sociais do Hemosul. Mas a ocasião ganhou um caráter muito mais íntimo.
"Era para ser só uma comemoração para a página do Hemosul, mas virou uma homenagem minha para ele. Uma forma de retribuir tudo o que ele fez por mim."
Ao acompanhar a última doação, ela viu o encerramento de um ciclo que começou antes mesmo de nascer. Ao mesmo tempo, enxergou o início de outro.
"Fecha um ciclo, mas começa outro. Ele encerrou essa fase com saúde, não por doença, mas porque chegou o tempo. Como diz a Bíblia, há tempo para todas as coisas."
Depois de 52 anos ajudando milhares de pessoas de forma anônima, Domingos deixou o posto de doador ativo por ter alcançado a idade limite prevista na legislação brasileira. A despedida não foi marcada pela tristeza, mas pela gratidão.
O gesto que salva vidas continua precisando de novos protagonistas
Antes de encerrar sua trajetória como doador, Domingos fez questão de deixar uma mensagem para quem ainda tem receio de doar sangue. "Muita gente tem medo por causa da agulha, mas não dói. Doar sangue é um gesto de amor. Todos deveriam doar, porque estamos salvando vidas."
O incentivo faz sentido, afinal, apesar dos avanços na Medicina, o sangue ainda não pode ser fabricado artificialmente. Toda transfusão depende exclusivamente da solidariedade de outras pessoas.
Segundo o Ministério da Saúde, uma única doação pode beneficiar até quatro pacientes, já que o sangue é separado em diferentes componentes, como hemácias, plaquetas e plasma, utilizados em tratamentos distintos.
As bolsas são fundamentais para atender vítimas de acidentes, pacientes submetidos a cirurgias, pessoas em tratamento contra o câncer, indivíduos com doenças hematológicas e casos de complicações durante o parto, entre muitas outras situações.
Por isso, os hemocentros de todo o país dependem de doações constantes para manter seus estoques em níveis seguros.
Quem pode doar sangue?
De acordo com as orientações do Hemosul e do Ministério da Saúde, para doar sangue é necessário atender a alguns critérios básicos:
- Estar em boas condições de saúde.
- Ter entre 16 e 69 anos. Menores de idade precisam de autorização do responsável, e a primeira doação deve ter ocorrido antes dos 60 anos.
- Pesar, no mínimo, 51 quilos.
- Estar alimentado, evitando alimentos gordurosos antes da coleta.
- Apresentar documento oficial com foto.
- Respeitar o intervalo entre as doações, de 60 dias para homens e 90 dias para mulheres.
- Não ter consumido bebida alcoólica nas últimas 12 horas.
- Estar bem hidratado antes e depois da doação.
- Observar os prazos necessários após vacinas, cirurgias ou alguns procedimentos médicos.
Antes da coleta, todos os candidatos passam por uma triagem clínica para garantir a segurança tanto do doador quanto de quem receberá o sangue.
Uma história que continua inspirando
Depois de mais de meio século de solidariedade, Domingos Paulo Sosti não poderá mais ocupar uma cadeira de doação, mas sua história e dedicação seguem como um exemplo a ser seguido.
Ele inspirou a filha a vencer o medo de agulhas, escolher uma profissão dedicada ao cuidado e continuar ajudando outras pessoas. Inspirou também outros familiares a se tornarem doadores.
Agora, sua história pode incentivar desconhecidos a fazerem o mesmo. Porque, embora uma pessoa complete 70 anos e precise encerrar esse ciclo de doação de sangue, o impacto de um gesto repetido durante 52 anos não termina ali.
Ele continua existindo em cada vida que teve uma nova oportunidade graças a uma bolsa de sangue doada por alguém que decidiu transformar alguns minutos do seu dia em esperança para outra pessoa.
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