Entenda como a busca pelo bronzeado perfeito pode prejudicar sua saúde e aumentar o risco de câncer de pele.
O verão ainda nem começou oficialmente, mas basta uma volta pelas praias e piscinas para perceber que muita gente já entrou no clima da estação e está em busca do bronze perfeito. Para alguns é apenas estética. Mas, para outras pessoas, essa busca esconde um comportamento perigoso que cresce silenciosamente no Brasil: a tanorexia.
A chegada do Dezembro Laranja, campanha nacional de prevenção ao câncer de pele, costuma aumentar a conscientização sobre os riscos da exposição solar. Mas, paralelamente, também evidencia um fenômeno que transforma o sol em vício. A pele queimada se tornou símbolo de beleza e status, mas por trás desse “glow” existe uma compulsão que pode elevar o risco de doenças graves.
O que é tanorexia e por que ela é tão perigosa?
A dermatologista Denise Ozores (CRM SP 101677), especialista em beleza natural e estética consciente, explica que a tanorexia é uma obsessão por manter a pele sempre bronzeada, mesmo fora da época de calor. A pessoa nunca se vê “morena o suficiente” e pode sentir incômodo ou até tristeza ao se perceber “clara demais” no espelho. Para compensar essa sensação, recorre a horas seguidas de sol, improvisos perigosos e até procedimentos clandestinos.
“É uma distorção de imagem corporal. A pessoa não percebe o exagero. Ela se vê pálida quando, na realidade, já está mais do que queimada”, explica a especialista.
Essa percepção distorcida faz com que limites saudáveis desapareçam. O que começa como uma “corzinha” de verão pode evoluir para um comportamento compulsivo que impacta a autoestima e a saúde; principalmente a saúde da pele.
De acordo com a especialista, muito desse impulso nasce na comparação social. No feed, a lógica parece simples: quem está mais bronzeado parece mais saudável, mais desejado e mais “vivo”. Todo verão, influencers e anônimos repetem a mesma coreografia: fotos na praia, marcas de biquíni, pele brilhante.
Esse padrão visual cria uma pressão silenciosa, especialmente entre mulheres e jovens, para se adequar à estética do dourado eterno. Mas o brilho que parece natural na tela muitas vezes não existe no mundo real.
Como lembra Denise, “o problema é quando o filtro do Instagram vira referência de realidade”. Ela afirma que muita gente tenta reproduzir o mesmo brilho da foto editada, “sem entender que aquele dourado perfeito ou é edição ou é o resultado de anos de dano acumulado de sol”.
Quando a busca pelo bronze vira risco real à saúde
Enquanto o bronze segue como símbolo de beleza, os números do câncer de pele continuam crescendo. Esse é o tipo de câncer mais frequente no país, e sua principal causa é justamente a exposição excessiva e desprotegida à radiação ultravioleta.
Os meses de verão concentram os quadros mais críticos: sol mais intenso, mais tempo ao ar livre, menos reaplicação de protetor e o uso de produtos inadequados ou insuficientes. A combinação é perigosa, principalmente para quem já está vulnerável pela busca compulsiva do bronzeado.
Denise observa um fenômeno preocupante na clínica: “Infelizmente, eu vejo o câncer de pele se tornar o câncer da vaidade”. Alguns pacientes assumem que estão exagerando, mas mesmo assim não querem abrir mão da cor para aparecer nas fotos de fim de ano. Para a dermatologista, o comportamento revela um conflito claro entre saúde e aceitação social. “Tem paciente que sabe que está exagerando, mas prefere arriscar do que aparecer ‘branco’ na foto de fim de ano”, afirma.
É possível curtir o verão sem colocar a pele em risco?
Sim, e esse é um dos pontos defendidos por Denise. Para ela, o desafio está em ressignificar a ideia de “pele bonita”. Em vez de associar beleza a um tom específico, ela propõe uma estética natural e individualizada, na qual cada pessoa valoriza suas próprias características.
Isso não significa evitar o verão. Significa construir uma relação mais saudável com o sol. Como destaca a dermatologista, “é possível curtir praia, piscina, Réveillon e Carnaval sem transformar a pele em campo de batalha”.
Os aliados dessa abordagem são simples e acessíveis:
- protetor solar diário, reaplicado ao longo do dia;
- chapéu e roupas que protejam em horários de sol forte;
- preferência por sombra nos momentos de radiação intensa;
- limites reais para a busca do bronze.
A grande mudança, segundo Denise, está no entendimento do que realmente representa um visual saudável. “A grande virada de chave é entender que o verdadeiro ‘glow’ é o da pele saudável, não o da pele queimada”, conclui.