Beatriz Burgos levou tempo para descobrir a doença de Lyme, e sofreu com a falta de apoio.
A jornalista Beatriz Burgos teve uma infância normal e sem problemas de saúde. Porém, aos 27 anos de idade, isso começou a mudar. A idealizadora da campanha 'Fala da Lyme, Brasil' detalhou toda a sua jornada de sofrimento e superações ao site Viva Bem até, finalmente, obter o diagnóstico da doença de Lyme.
Condição essa que se posicionou entre um dos assuntos mais pesquisados do Google, após a revelação do diagnóstico do cantor de Justin Timberlake, nesta quinta-feira (31). O anúncio do artista e a história de Beatriz são oportunidades notáveis para colocar em pauta a doença de Lyme.
Beatriz levou anos para descobrir o diagnóstico de doença de Lyme
Foi em 2012 que Beatriz Burgos começou a apresentar quadros intensos de febre, às vezes chegavam aos 41ºC ou 42ºC. Em seguida, a jornalista passou a sofrer também com o que descreveu como uma "fadiga inexplicável" e uma "insônia terrível".
"Em 2013, tive uma embolia pulmonar. Atribuíram a uma viagem longa aos EUA, a sobrepeso e a uso de anticoncepcional. Fiz exames para trombofilia, tudo negativo. Fiquei um ano em tratamento, depois parei de usar anticoncepcional e passei a tomar cuidados em viagens", contou.
Mesmo após perder 46kg e os fatores de risco sumirem, o mal-estar continuou presente e seus exames permaneceram alterados. Um médico levantou a hipótese de leucemia, que foi descartada por um hematologista. Esse sugeriu uma infecção, então Beatriz foi encaminhada a uma infectologista.
Somente após fazer exames de sorologia para doenças menos comum que o resultado deu positivo para Lyme. Vale lembrar que a condição resulta da infecção pela bactéria Borrelia burgdorferi, transmitida a partir da picada de carrapatos da espécie Ixodes. Então, a jornalista iniciou o tratamento de três semanas com antibiótico, mas seu quadro acabou piorando com o tempo.
O quadro de Beatriz acabou se agravando
"Hoje sei que minha piora era um quadro de reação de Jarisch-Herxheimer, uma resposta à morte da bactéria. Na época, não sabia. Nunca tinha tomado antibiótico por tanto tempo. Voltei à médica. Ela disse que eu podia ter tido um câncer que não se manifestou. Tive dormência no lado esquerdo, perda de força e coordenação. Achei que fosse AVC (acidente vascular cerebral), mas os exames não mostraram nada."
Beatriz procurou um neurologista, que perguntou sobre alguma doença. Ela revelou o diagnóstico de Lyme, e o médico mencionou a possibilidade da doença se tornar uma condição crônica, atingindo o sistema neurológico. Porém, quando ela voltou na infectologista, a médica disse "não existe Lyme crônico. Nem existe Lyme no Brasil."
Entretanto, a jornalista não aceitou essa resposta da médica. Beatriz pesquisou e encontrou outros pacientes com sintomas parecidos que nunca saíram do Brasil.
"Neste ano, que era 2015, fiz um tratamento de 28 dias com antibiótico intravenoso, corticoide, suplementos e probióticos. Estava com dificuldades motoras, dormência, mas me comprometi: 'Se eu aguentar esses 28 dias, vou correr uma meia maratona.'"
A jornalista enfrentou altos e baixos no tratamento
Beatriz conseguiu responder bem ao tratamento. Com a doença controlada, ela alcançou as metas que tinha definido. Contudo, em 2021 a doença se reativou. Dessa vez, os sintomas apresentados foram mãos e pés gelados, dificuldade para respirar, dormências, perda de peso, náuseas e vômitos e desmaios.
"Em 2022, fui para outro projeto de trabalho. Comecei a tremer, esquecer palavras, lia e não compreendia. Tive rigidez no pescoço, dores, desmaios. Desmaiei dirigindo e graças a Deus o sinal estava fechado. Em casa, desmaiei enquanto fazia miojo. Minha mãe achou que eu estivesse morta. Foi quando eu decidi buscar ajuda."
Nesse período, Beatriz enfrentou outros problemas de saúde, precisou mudar sua rotina e passar por mais ciclos de medicação até entrar em remissão.
Beatriz chama atenção para a importância da conscientização
Em sua jornada, a jornalista se viu lidando não somente com as complicações físicas da doença, mas com a falta de informações por parte de outras pessoas e dificuldade em obter apoio nesse momento de fragilidade. Várias vezes ela ouviu que era "coisa da sua cabeça". Portanto, ela criou a campanha 'Fala da Lyme, Brasil'.
"O gaslighting [manipulação psicológica, em tradução livre] mais insano é o médico. A gente tenta convencer os médicos, chefes e até a família de que não estamos bem. No fim, quase duvidei de mim mesma. Na verdade, eu duvidei."
Então, Beatriz usa suas experiências como forma de dar visibilidade à pauta e levar esperança a quem passa por situações semelhantes.