Pais que criam filhos emocionalmente inteligentes não ensinam controle emocional, eles praticam algo bem mais simples

Especialistas revelam hábitos simples que ajudam crianças a entender e administrar as próprias emoções, e que qualquer pai ou mãe pode colocar em prática hoje.

Douglas Neves | 14 de Fevereiro de 2020 às 14:00

Saiba como os pais podem ser exemplos positivos e ajudar os filhos a lidarem com suas emoções. - monkeybusinessimages/iStock

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A maioria dos pais acredita que ensinar inteligência emocional significa saber o que dizer quando a criança chora, se irrita ou se fecha. Mas a psicologia do desenvolvimento aponta para uma direção diferente, o que mais contribui para a formação do repertório emocional de uma criança não são as intervenções nos momentos de crise, e sim o que ela observa e absorve no cotidiano comum, quando nada de especial está acontecendo.

Isso muda bastante a equação. Porque significa que qualquer pai ou mãe, independente de formação ou de ter lido os livros certos, já está ensinando algo às crianças o tempo todo. A questão é o quê.

Por que a inteligência emocional se aprende observando, não obedecendo?

Crianças são observadoras extraordinárias. Antes de entender as palavras, elas leem expressões, tom de voz e comportamento. É assim que aprendem que raiva é algo a esconder, ou que tristeza merece acolhimento, dependendo do ambiente em que crescem.

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"Conte aos filhos as emoções que você teve durante o dia", orienta Harvey Deutschendorf, autor do livro The Other Kind of Smart. "Se ficou zangado porque alguém o fechou no trânsito, diga como lidou com isso de maneira positiva."

Esse tipo de relato cotidiano funciona como um espelho. A criança não aprende a nomear emoções porque alguém a ensinou a teoria, mas porque viu alguém nomeando as próprias emoções com naturalidade, sem drama e sem vergonha.

O que acontece quando a criança aprende a suprimir antes de sentir?

Aleasa Word, coach formada em inteligência emocional, é direta: "As crianças são impulsivas por natureza e, sem orientação, podem se tornar adultos impulsivos. A impulsividade reduz a inteligência emocional, e é bom ensinar as crianças a parar e pensar em como se sentem antes de agir."

Quando o ambiente familiar trata a emoção como algo inconveniente, a criança aprende a suprimi-la antes mesmo de processá-la. Com o tempo, isso não elimina a emoção, apenas a empurra para de baixo do tapete, onde ela continua operando fora do alcance da consciência.

De acordo com a especialista, o objetivo não é criar crianças calmas, é criar crianças que saibam o que estão sentindo e consigam lidar com isso sem machucar a si mesmas ou a quem está perto.

Como ajudar a criança a nomear o que sente sem colocar palavras na boca dela?

Acolher os sentimentos do seu filho é importante para ele aprender a lidar com eles. (Imagem: Freepik)

Em qualquer idade, a criança pode ter dificuldade de traduzir em palavras o que está sentindo. E quando não encontra as palavras, o corpo costuma falar por ela, com choro, agressividade ou silêncio prolongado.

Deutschendorf sugere uma abordagem que pode ajudar sem direcionar os sentimentos da criança. Ele ensina que em vez de dizer "você está com raiva?", o adulto deve compartilhar o que sentiria em uma situação parecida e só então fazer a pergunta. "Se isso acontecesse comigo, provavelmente eu me sentiria triste ou deixado de lado. É chato, né? Como você se sente?"

Essa diferença é sutil, mas faz muita diferença. Quando você se abre com a criança, ela percebe que não há problema ou vergonha alguma em dizer como se sente. Além disso, você evita rotular o sentimento da criança antes mesmo dela poder expressar o que sente. Dessa forma ela aprende que os sentimentos dela são válidos e que não há nada de errado em se sentir daquela forma de vez em quando.

“Os sentimentos não estão certos nem errados, eles simplesmente existem, e todo mundo tem direito a seus sentimentos, inclusive seu filho”, diz Harvey Deutschendorf. "Ainda que pareçam bobos para você, nunca faça julgamentos nem duvide do que seu filho sente. Para ele, os sentimentos são reais e autênticos.”

Por que validar a emoção não significa aceitar qualquer comportamento?

Existe uma confusão frequente entre validar sentimentos e não estabelecer limites. São coisas distintas, e misturá-las prejudica o desenvolvimento emocional tanto quanto ignorar os sentimentos.

"Repare no comportamento do seu filho e corrija-o se necessário, mas não esqueça do afeto e de respeitar a individualidade dele", orienta Nechama Finkelstein, assistente social. "Seu filho deve receber sempre a mensagem de que é amado do jeito que é, mesmo quando precisa modificar comportamentos específicos."

Na prática você deve dar aos filhos limites que sirvam de guia, interferindo caso se comportem de forma inadequada, mas nunca dizendo como deveriam ou não se sentir. Em outras palavras, ele pode sentir raiva ou frustração, mas não pode bater. O choro pode vir, mas ele não pode gritar ou ser desrespeitoso com a professora. Quando o adulto deixa os limites claros com consistência e sem humilhar, a criança aprende que sentir é humano e que existem formas de expressar que funcionam melhor do que outras.

Qual é o papel da empatia na formação emocional das crianças?

Tom Kersting, psicoterapeuta e autor de "Disconnected: How to Reconnect Our Digitally Distracted Kids", apresentou um dado que deve servir de alerta: em média, pais passam apenas três minutos e meio por semana em conversas significativas com os filhos.

Se você se enxerga nesse dado, não se sinta culpado, mas reflita sobre o que está sendo deixado de lado e tente mudar. “Crie para a família a regra de se sentarem juntos à noite, por uns 15 minutos pelo menos, para conversar”, aconselha o psicoterapeuta.

A empatia se constrói em conversas pequenas, quando o adulto pergunta como o colega da escola deve ter se sentido ao ser deixado de fora da brincadeira, ou o que o personagem do filme estava sentindo naquela cena difícil, ou até mesmo o que seu filho mais gostou no dia dele.

"Quando seu filho contar alguma coisa que aconteceu na escola com outra pessoa, preste atenção, faça perguntas, desmonstre-se verdadeiramente interessado e peça que imagine como a pessoa se sentiu", recomenda Deutschendorf. É um exercício que não exige tempo extra, apenas presença.

Como o elogio certo acelera o desenvolvimento emocional da criança?

Nós estamos acostumados a elogiar resultados, mas não estamos tão habituados a elogiar o processo emocional. E é justamente aí que mora uma das ferramentas mais subestimadas da educação emocional.

"Demonstre perceber as situações em que seu filho poderia ter deixado as emoções correrem livres mas manteve o controle. Então o elogie", sugere Deutschendorf. Uma frase como "percebi que você ficou frustrado mas arranjou outra solução" faz duas coisas ao mesmo tempo: reconhece o esforço e convida a criança a refletir sobre a própria experiência.

Crianças que recebem esse tipo de reconhecimento aprendem que autocontrole não é repressão. É uma habilidade, e como qualquer habilidade, ela melhora quando alguém a nota.

O que a psicologia diz sobre pais que também têm dificuldades emocionais?

Essa é talvez a pergunta mais honesta que um pai pode fazer, e a resposta da psicologia é mais generosa do que se imagina. Reconhecer as próprias limitações emocionais e trabalhar nelas já é, por si só, um dos exemplos mais poderosos que uma criança pode ter.

Não existe pai ou mãe perfeito no ponto de vista emocional. O que existe é alguém que continua tentando, que pede desculpas quando erra, que mostra que crescer emocionalmente é algo que acontece a vida toda. Esse é o modelo que fica.

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