Após anos de luta silenciosa, Michelle Hale decidiu expor sua condição e inspirar outros a viver plenamente com diabetes.
Quando Michelle Hale recebeu o diagnóstico de diabetes tipo 1 aos 14 anos tudo o que ela queria era viver uma adolescência comum. Em vez disso, precisou aprender a lidar com uma condição crônica, que exigia cuidados que outras meninas da sua idade não precisavam ter.
Ela cresceu aplicando insulina diariamente, medindo glicemia antes das refeições e ajustando rotinas inteiras ao que o corpo pedia. Mas o que mais doía não eram as seringas, era a sensação de estar completamente sozinha.
“Eu era velha demais para acampamentos infantis para diabéticos e jovem demais para programas para adultos com diabetes, o que me deixou sem ninguém”, diz ela. “Me sentia muito sozinha, sem apoio, e me senti assim por 17 anos.”
Michelle não tinha histórico familiar de diabetes tipo 1. Mas o que tornou sua situação ainda mais inesperada foi o fato de sua irmã gêmea idêntica não ter a doença.
Antes de descobrir o diagnóstico, seus dias eram marcados por sede intensa, idas constantes ao banheiro, perda de peso e uma fraqueza que parecia não ter explicação. Ao procurar um médico, os exames revelaram que seus níveis de glicose estavam perigosamente altos. Michelle teve então que ser encaminhada às pressas ao hospital para um tratamento de emergência. Foi ali que ouviu pela primeira vez as palavras que mudariam sua vida: diabetes tipo 1, uma doença autoimune, crônica e sem cura.
A partir daquele dia, Michelle precisaria de insulina todos os dias. Por anos, ela tentou esconder o diagnóstico das outras pessoas. A adolescência e o início da vida adulta se misturaram a consultas médicas, contagem de carboidratos e o cansaço constante de quem nunca pode “desligar”.
Michelle evitava falar sobre a condição e escondia seringas e aparelhos sempre que podia. “Eu sentia vergonha”, conta. “Na melhor das hipóteses, eu ignorava o problema. Na pior, tentava apagar qualquer sinal dele.”
A gravidez que mudou sua relação com o próprio corpo
Foi durante a primeira gravidez, que algo mudou dentro dela. Prestes a se mudar de Dubai para Hong Kong e cuidando do pequeno TJ, ainda na barriga, Michelle decidiu que não queria mais viver assim.
“Eu não queria que meu filho crescesse vendo a mãe escondendo quem era”, diz.
Foi então que, pela primeira vez, ela resolveu fazer o oposto do que sempre fez e decidiu não esconder mais o seu diagnóstico.
Determinada a compartilhar sua rotina, suas vulnerabilidades e suas conquistas, Michelle criou o site Global Diabetic e o perfil @globaldiabetic. Ela começou fazendo um ensaio fotográfico grávida, usando seu monitor contínuo de glicose à mostra – algo impensável para ela até então. Mas ela não parou por aí! Passou a criar também conteúdos que mostravam que era possível viver a vida em sua plenitude mesmo tendo diabetes.
Michelle começou a postar conteúdos de suas aventuras, desde paraquedismo até escalada do Monte Kilimanjaro, além de exibir sua bomba de insulina e monitor enquanto usava vestidos glamorosos em eventos de tapete vermelho ou à beira da piscina de biquíni.
A mensagem que ela queria passar era clara: viver com diabetes não impede ninguém de ter uma vida incrível.
Com o tempo, Michelle foi criando uma comunidade de apoio e passou a não se sentir mais tão sozinha.
"Mulheres me procuram o tempo todo, agradecendo por eu mostrar a elas que não há problema em falar abertamente e ter orgulho de usar dispositivos médicos, eliminando a vergonha e o estigma”, diz ela. “Mostrei fotos da minha gravidez usando meus dispositivos para diabetes, e algumas mulheres me disseram que isso as inspirou a ter filhos. Ver alguém como eu, uma mulher com diabetes tipo 1 e agora mãe, compartilhando sua história, dá muita esperança”, acrescentou ela em entrevista ao South China Morning Post.
Hoje, Michelle defende que cuidar do diabetes vai muito além da insulina. Ela acredita que grupos de apoio e iniciativas de acolhimento em hotéis e retiros podem ser tão importantes quanto consultas médicas, porque aliviam o peso invisível que acompanha o diagnóstico.