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Covid-19 gera inflamação no coração e pode levar a infarto

Alguns relatos mostram que até pacientes com Covid-19 sem condições cardíacas prévias podem ser afetados. Entenda na matéria.

Iana Faini | 15 de Abril de 2020 às 16:16

sasun1990/iStock -

Diversos estudos têm demonstrado que a Covid-19 pode causar danos ao coração, levando a complicações como infartos, miocardites, isquemia e tromboses, condições que podem agravar ainda mais o quadro clínico dos pacientes.

A maioria das mortes pela doença ocorrem em portadores de hipertensão, insuficiência cardíaca, arritmias e doença coronariana; o que já os tornam mais suscetíveis a terem complicações cardíacas. Mas alguns relatos já mostram que, em menor número, mesmo doentes sem essas condições crônicas prévias podem ser afetados.

Covid-19 pode danificar o músculo cardíaco

“O paciente tem o infarto e, quando você vai olhar, a coronária é normal. O infarto é secundário à inflamação”, diz a cardiologista Ludhmila Hajjar, médica e professora do InCor (Instituto do Coração) de São Paulo.

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Segundo ela, o dano mais comum ocorre no músculo cardíaco e nos vasos sanguíneos como resultado da inflamação provocada pela Covid-19.
“Da mesma forma que ela causa pneumonia, a doença também gera inflamação no coração ou em qualquer artéria do coração e aumenta a suscetibilidade à arritmias e a problemas no músculo e nos vasos”, afirma Hajjar.

Em pacientes internados em UTI com Covid-19, alguns estudos mostram que há dano no miocárdio em 7,2% dos pacientes; choque em 8,7%; arritmia em 16,7%; e insuficiência cardíaca em 23%.

Inflamação piora efeitos colaterais de medicamentos

A cardiologista Gláucia Moraes de Oliveira, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), explica que a inflamação causada pela Covid-19 ainda propicia um pior efeito das drogas, como cloroquina e azitromicina, que podem causar arritmias.

Hajjar reforça: “A substância pode ser segura no paciente do ambulatório, do consultório; mas, quando o paciente já está bombardeado de inflamação, o coração pode ficar suscetível a efeitos colaterais numa frequência muito maior do que se ele não tivesse esse processo inflamatório.”

“Os desafios são gigantescos com a Covid-19 porque nos põe todos à prova – paciente, profissionais de saúde, sistemas de saúde e população em geral”, afirma Gláucia de Oliveira.

Cardiologistas preparam registro nacional sobre a Covid-19

Para entender a ação do coronavírus no coração, a Sociedade Brasileira de Cardiologia está montando um registro nacional de complicações cardíacas por coronavírus, que deverá reunir dados de hospitais públicos e privados.

O cardiologista Marcelo Queiroga, presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia, explica que registros são estudos observacionais úteis para conhecimento científico em um determinado assunto e podem ser importantes na tomada de decisões a partir de avaliações de desfechos do “mundo real”, somados aos ensaios clínicos randomizados.

“A pandemia da Covid-19 desafia os pesquisadores. A forma atual de produção do conhecimento científico, alicerçada na chamada medicina embasada em evidência, foi posta em xeque. Ensaios clínicos randomizados não oferecem respostas a curto prazo e por vezes são onerosos e inconclusivos; sem contar o viés de serem, quase sempre, financiados pela indústria farmacêutica.”

Para Queiroga, diante de uma das mais graves emergências da saúde mundial, o ecossistema de produção do conhecimento científico mostrou-se inócuo em produzir as respostas na velocidade necessária.

“A esperança, paradoxalmente, volta-se para uma ‘velha’ conhecida da comunidade científica: a cloroquina, convertida em panaceia. Qual evidência para embasar seu uso?”, questiona.

Na sua opinião, a melhor alternativa terapêutica para enfrentar o problema é a assistência médica de qualidade em UTIs por equipes multiprofissionais de alto desempenho.

Nesse contexto, segundo ele, registros multicêntricos podem oferecer respostas mais rápidas e ajudar na tomada da decisão clínica. As informações, afirma, serão importantes para o conhecimento científico nacional e também para se juntarem a um registro internacional sobre o tema.

CLAUDIA COLLUCCI / FOLHAPRESS

Você sabe o que quer dizer “achatar a curva”? Esta e outras expressões no nosso glossário da Covid-19.

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