Estudo com quase 125 mil adolescentes brasileiros aponta associação entre consumo frequente de ultraprocessados, como refrigerantes, e maior prevalência de dor dentária.
Os alimentos ultraprocessados já são conhecidos pelos impactos negativos na saúde, mas uma nova pesquisa brasileira acende um alerta para outro problema que costuma passar despercebido: a dor de dente. Segundo um estudo publicado na revista Epidemiologia e Serviços de Saúde, adolescentes que consomem com frequência produtos como refrigerantes, doces e refeições do tipo fast-food apresentam maior prevalência de dor dentária.
A pesquisa analisou dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2019 e encontrou uma associação consistente entre o consumo desses alimentos e o relato de dor nos dentes nos últimos seis meses. Os resultados reforçam a importância de uma alimentação equilibrada não apenas para a saúde do organismo, mas também para a saúde bucal.
Estudo analisou quase 125 mil adolescentes brasileiros
Para chegar às conclusões, os pesquisadores utilizaram informações de 124.898 adolescentes brasileiros, com idades entre 13 e 17 anos, participantes da PeNSE 2019. O objetivo foi investigar se havia relação entre o consumo de alimentos ultraprocessados e a ocorrência de dor dentária. O levantamento considerou tanto os alimentos consumidos nas 24 horas anteriores quanto a frequência de ingestão durante a semana.
Entre os participantes, 21,5% relataram ter sentido dor de dente nos seis meses anteriores à pesquisa. Além disso, o estudo mostrou que 98,4% haviam consumido pelo menos um alimento ultraprocessado nas últimas 24 horas, evidenciando como esse tipo de produto faz parte da rotina alimentar dos adolescentes brasileiros.
Refrigerantes, doces e fast-food tiveram maior associação
Os pesquisadores classificaram o consumo semanal em três categorias: baixo, moderado e alto. Após os ajustes estatísticos para fatores como sexo, idade, raça ou cor da pele, escolaridade materna e visitas ao dentista, a associação permaneceu significativa.
Os adolescentes com maior consumo semanal de doces apresentaram uma prevalência 27% maior de dor dentária em comparação aos que consumiam esses alimentos com menor frequência.
Entre aqueles que consumiam refrigerantes com frequência, a prevalência foi 28% maior, enquanto o consumo elevado de refeições do tipo fast-food esteve associado a um aumento de 22% na ocorrência de dor de dente.
A frequência do consumo fez diferença
Um dos pontos destacados pelos pesquisadores é que não foi apenas o consumo isolado que chamou atenção. Os resultados indicam que quanto maior a frequência semanal de ingestão desses alimentos, maior também foi a prevalência de dor dentária, sugerindo um padrão de associação entre os dois fatores.
Segundo o estudo, esse comportamento foi observado de forma consistente para os três grupos de alimentos analisados: doces, refrigerantes e fast-food.
O estudo não prova causa e efeito
Embora os resultados sejam importantes, os autores fazem uma ressalva. Como a pesquisa possui delineamento transversal, ela identifica uma associação entre o consumo de ultraprocessados e a dor dentária, mas não permite afirmar que um seja a causa direta do outro.
Mesmo assim, os pesquisadores consideram que os achados fornecem informações relevantes para o desenvolvimento de políticas públicas voltadas tanto para a alimentação saudável quanto para a prevenção de problemas bucais entre adolescentes.
Por que a alimentação também influencia a saúde bucal?
A pesquisa não investigou os mecanismos biológicos responsáveis pela associação observada. Seu foco foi analisar os dados populacionais e identificar a relação entre o padrão alimentar e o relato de dor dentária.
Ainda assim, os autores destacam que os resultados reforçam a necessidade de estratégias integradas de promoção da saúde, envolvendo alimentação saudável e cuidados com a saúde bucal desde a adolescência.
O que são alimentos ultraprocessados?
Para realizar a análise, o estudo utilizou a classificação NOVA, que reúne como ultraprocessados produtos formulados industrialmente com diversos ingredientes e aditivos. Na pesquisa, foram avaliados especificamente três grupos de consumo:
- doces
- refrigerantes
- refeições do tipo fast-food
Os pesquisadores analisaram quantos dias por semana esses alimentos eram consumidos pelos adolescentes para verificar se existia relação com o relato de dor dentária.
Os resultados podem ajudar na criação de políticas públicas
Os autores destacam que a adolescência é uma fase importante para a formação dos hábitos alimentares, que frequentemente permanecem na vida adulta.
Por isso, compreender como o padrão de alimentação se relaciona com diferentes aspectos da saúde pode contribuir para ações preventivas em escolas e serviços de saúde.
Segundo a conclusão do estudo, a maior frequência de consumo de alimentos ultraprocessados esteve associada a uma maior prevalência de dor dentária entre adolescentes brasileiros, reforçando a importância de estratégias intersetoriais para incentivar hábitos alimentares mais saudáveis e prevenir problemas de saúde bucal nessa faixa etária.
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