Aos 49 anos, um AVC silencioso levou embora a sua capacidade de se comunicar. Mas o que veio depois foi ainda mais surpreendente.
Na véspera de uma viagem aos Estados Unidos, a empresária carioca Sônia Reinol entrou no chuveiro e nunca mais foi a mesma. Quando a filha a encontrou na manhã seguinte, ela estava desacordada no chão. Já no hospital e muito assustada, soube que a sua mãe havia sofrido um AVC hemorrágico silencioso.
Na época, Sônia tinha 49 anos e comandava uma empresa no setor de eventos. Era comunicativa, espirituosa, estava acostumada a lidar com pessoas o dia todo. Ninguém esperava que aquilo acontecesse com ela.
Após 14 dias em coma, Sônia Reinol finalmente acordou, mas ao tentar conversar com as pessoas percebeu que algo havia mudado; ela sabia exatamente o que queria dizer, mas as palavras simplesmente não saíam. Foi então que ela soube que por causa do AVC havia desenvolvido afasia.
Ela lembra que quando acordou no hospital, dizia coisas sem sentido e não entendia o que os outros diziam. "Eu poderia dizer 'carro' querendo me referir a uma caneta", lembra. Era como se o idioma que ela havia falado a vida inteira tivesse se tornado, de repente, uma língua estrangeira.
O que é a afasia, a sequela que mudou a vida de Sônia?
A afasia é um distúrbio neurológico provocado por lesões cerebrais que comprometem a linguagem. Quem tem afasia pode pensar com clareza, mas encontra uma barreira invisível entre o pensamento e a fala.
"A sensação é de que você sabe a palavra, sabe o que quer dizer, mas não consegue falar", descreve Sônia Reinol.
Pessoas com afasia podem apresentar dificuldades para falar, compreender o que ouvem, escrever ou ler. Em muitos casos, o raciocínio permanece preservado, mas o desafio está justamente em conseguir transformar os pensamentos em palavras.
Segundo a neurologista Maramelia Miranda, presidente da Sociedade Brasileira de AVC, o AVC é a causa mais comum da condição e o que define a intensidade da afasia é a área do cérebro atingida, sendo as regiões frontal e temporal as mais frequentemente envolvidas.
Uma recuperação que exigiu anos de dedicação e uma mudança de vida
Não existe um único caminho ou uma fórmula rápida e mágica para tratar a afasia, e Sônia descobriu isso de uma forma um pouco diferente. Sua recuperação foi longa e exigiu uma determinação que poucos conseguem imaginar.
Logo após o diagnóstico, Sônia começou o tratamento fonoaudiológico e aos poucos foi retomando parte da capacidade de se comunicar. Além disso, ela incorporou também a música ao processo, e seguiu em fonoterapia por anos. Mas foi uma descoberta inesperada que mudou o rumo de tudo.
O teatro como remédio
No início de 2012, dois anos após o AVC, Sônia viu um anúncio de um curso de teatro. Sempre havia gostado de palco, mas nunca havia levado a ideia a sério. Mas, por algum motivo que ela não sabe explicar bem, resolveu tentar.
A professora estava montando uma peça sobre Nelson Rodrigues e deu a Sônia o papel de Madame Clessi, uma personagem extremamente comunicativa. O desafio era imenso. Ela levou dois meses para entender o significado de uma única palavra no texto.
"Mas a professora teve paciência de me explicar e corrigir meus erros. No fim do ano, tirei onda na apresentação", lembra Sônia com orgulho.
O teatro se tornou, nas palavras dela, o seu remédio. Exercitava o cérebro de um jeito que nenhuma sessão clínica conseguia replicar, e ainda se divertia no processo.
Uma nova vida após a afasia
Sônia não voltou para o mundo dos eventos. Ela foi em outra direção. Passou a acumular trabalhos no teatro e no audiovisual, e hoje pode ser vista na série Meu corpo minha onda, na Amazon Prime.
Paralelamente, tornou-se uma porta-voz da causa da afasia e lançou o livro A filha do rei, que conta sua trajetória desde a infância até a superação. E para ajudar outras pessoas que vivem situação semelhante, Sônia passou a compartilhar sua trajetória em palestras, entrevistas e redes sociais, levando informação sobre a afasia e incentivando pacientes e familiares a não desistirem da reabilitação.
"Nosso remédio é treinar o cérebro e o coração, além de fazer fono. Não dá para comprar na farmácia um remédio para a afasia."
A rotina que ela construiu para si diz muito sobre quem ela se tornou: "Todo dia de manhã, converso com Deus, jogo caça-palavras, tomo um banho, um cafezinho e vou caminhar. Falo com todo mundo o tempo inteiro, sempre brincalhona e com alegria."
Mais de uma década depois do AVC, Sônia Reinol é a prova viva de que recuperação não tem prazo fixo e de que é preciso ter esperança, força e determinação.
Ela conta que levou oito anos para conseguir falar ‘parabéns para você’. Mas ela compartilha também que a cada dia ela melhora um pouco mais e que seguirá inspirando outras pessoas com a sua história.
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