Entenda como o sedentarismo pode afetar sua saúde e bem-estar, e descubra os sinais que você não deve ignorar.
Por meses, a professora Claudia Maria, de 38 anos, ignorou o que o próprio corpo tentava sinalizar. Embora na juventude ela mantivesse uma rotina agitada que incluía a prática de exercícios, com o tempo, as demandas do trabalho, filhos e estudos foram empurrando a academia para o fim da lista de prioridades.
Os sinais vieram aos poucos. No início, Claudia sentia um cansaço persistente e a falta de disposição para tarefas simples foram se tornando parte da rotina. Com o tempo ela foi percebendo que subir escadas ou até mesmo caminhar pequenas distâncias já exigia um esforço maior que antes. Mas nada disso ascendeu o alerta. “Na época, eu achei que era só cansaço devido a minha tripla jornada, mas hoje eu sei que estava em um colapso silencioso”, conta ela.
Mas tudo mudou no dia que ela precisou correr poucos metros para alcançar a filha que disparava em direção à rua. Ao correr aquela pequena distância, o seu coração acelerou e uma falta de ar tomou conta. Foi nesse momento que ela percebeu que seus sintomas não eram de um cansaço comum causado pelo excesso de trabalho.
A experiência a levou a procurar um médico, que foi categórico: os sintomas eram consequência direta do sedentarismo. A solução passava por retomar a movimentação e reeducar a alimentação – mudanças que, com acompanhamento, ela conseguiu incorporar à rotina.
O que o sedentarismo faz com o corpo?
Passar muitas horas sentado, se movimentar pouco e adiar o início de uma rotina de exercícios pode parecer inofensivo. Mas, ao longo do tempo, o corpo começa a mudar. Segundo especialistas, o sedentarismo está entre os principais fatores de risco para doenças crônicas, como diabetes tipo 2, hipertensão e problemas cardiovasculares.
Os dados reforçam o alerta. De acordo com o sistema Vigitel, do Ministério da Saúde, 62,6% dos adultos brasileiros estavam acima do peso em 2024 — um reflexo direto de mudanças no estilo de vida, como alimentação inadequada e baixos níveis de atividade física.
Para a endocrinologista Flávia Pieroni, do São Marcos Saúde e Medicina Diagnóstica, da Dasa, o organismo costuma dar sinais antes que doenças mais graves apareçam.
“O sedentarismo afeta diretamente o metabolismo. Quando o organismo permanece por muito tempo sem atividade física regular, podem surgir alterações na glicemia, no colesterol, na pressão arterial e até na composição corporal. Muitas dessas mudanças começam de forma discreta, mas podem ser identificadas em exames laboratoriais e clínicos”, explica.
Sinais de que o sedentarismo já está afetando sua saúde e você ainda não percebeu
No caso de Esther, o primeiro sinal foi o cansaço. E ele não é raro. A perda de condicionamento físico é uma das primeiras consequências do sedentarismo. Atividades simples, como subir escadas ou caminhar alguns minutos, passam a exigir mais esforço do que o normal.
Para o cardiologista Breno Giestal, do Alta Diagnósticos, esse é um alerta importante. “Quando a pessoa perde condicionamento, atividades simples tornam-se muito mais difíceis, o que impacta a qualidade de vida e aumenta o risco de desenvolver doenças cardiovasculares.”
Mas o cansaço é apenas o começo. Com o tempo, o corpo pode começar a acumular gordura, especialmente na região abdominal. Esse tipo de gordura, chamada visceral, se deposita ao redor de órgãos importantes e aumenta o risco de doenças metabólicas.
Segundo a dra. Flávia, esse acúmulo também pode afetar o fígado. “O acúmulo de gordura na região abdominal também pode afetar o fígado e levar à esteatose hepática, conhecida como gordura no fígado. Exames de sangue como TGO, TGP e Gama GT ajudam a avaliar possíveis alterações hepáticas, e o ultrassom abdominal pode identificar o acúmulo de gordura no órgão”, explica.
Colesterol elevado, triglicerídeos alterados e redução do HDL também são mudanças comuns em quem tem uma rotina sedentária. O mesmo vale para a glicemia alta. A falta de atividade física reduz a sensibilidade à insulina, o que pode levar, ao longo do tempo, ao desenvolvimento de resistência à insulina e diabetes tipo 2.
Além disso, o corpo também sente os efeitos na musculatura. Sem movimento regular, há perda de massa muscular, redução da flexibilidade e aumento da rigidez corporal — fatores que podem causar dores frequentes e limitar ainda mais a disposição para se exercitar.
Quando procurar ajuda?
Como os sinais costumam surgir de forma gradual, muitas pessoas demoram a perceber que algo está errado. Por isso, a avaliação médica é essencial.
“Entre os exames que costumam ser solicitados estão a glicemia de jejum e a hemoglobina glicada, que avaliam o metabolismo da glicose, e o perfil lipídico, que mede o colesterol e os triglicerídeos, além de exames clínicos e cardiológicos, quando necessário”, destaca a dra. Flávia Pieroni.
Hoje, ao olhar para trás, Claudia entende que os sinais estavam ali desde o início. O cansaço constante, a falta de disposição e a dificuldade em realizar tarefas simples não eram apenas consequência de uma rotina puxada, eram o corpo pedindo ajuda.
O sedentarismo raramente se manifesta de forma abrupta. Ele se instala aos poucos, em hábitos cotidianos que parecem inofensivos. Mas, quando ignorados, esses sinais podem evoluir para problemas mais sérios. Reconhecê-los a tempo é o primeiro passo para mudar a relação com o próprio corpo e evitar que o “cansaço” se transforme em algo muito maior.