Uma ceia de Natal inesquecível

Para a mãe, era doloroso oferecer às filhas a ceia de Natal tão pobre. Para as meninas, o importante era ter o que comer e ir brincar depois.

Claudia Nina | 20 de Dezembro de 2020 às 10:00

Cunaplus_M.Faba/iStock -

Durante anos, foi incapaz de entender o choro da mãe, com a cabeça baixa, a mão encostada na máquina de lavar da pequena cozinha enquanto ela e a irmã na sala comiam ovo mexido.

– Mãe, não vem comer? É Natal.

A mãe bem que tentou, mas não conseguiu enxugar o choro, especialmente quando entrou na sala e viu as duas meninas comendo o ovo. Sentou-se à mesa e afundou o rosto no peito. Ver que as meninas sorriam, alegres, sem ter a menor ideia de que deveriam também estar chorando era uma cena triste demais.

RELACIONADAS

Chocolate amargo diminui as chances de desenvolver diabetes, de acordo com estudo

Coceira na região íntima como a de Raquel Brito pode ser causada por problema comum; saiba qual

Atriz Fernanda Rodrigues conta que descobriu traição ao vivo pela TV

As meninas não perguntaram o motivo do choro, talvez porque imaginassem que Natal é assim mesmo, época de mais emoção.

Talvez porque, secretamente, embora sem capacidade para entender o secreto, soubessem que elas também deveriam estar tristes e que comer ovo mexido no Natal era um sinal de pobreza – deveriam saber disso. Será que não sabiam? Ou fingiam que não sabiam? Ou sabiam e não se importavam?

Comiam, riam, brincavam, comiam, rasparam o prato, beberam todo o guaraná. Deixaram depois largados os garfos, como sempre, saíram da mesa para brincar um pouco antes de dormir. Ela virou e deu de cara com os olhos da mãe, que ainda chorava. Parecia um choro eterno capaz de durar até o próximo Natal. Ainda sem entender aquele choro, juntou-se à irmã. Brincar era mais divertido do que continuar tentando decifrar o mistério daquele choro. Será que alguém tinha morrido e a mãe não avisou?

Depois de alguns muitos minutos, a mãe se levantou da mesa, recolheu os pratinhos vazios. Na pia da cozinha, na hora da louça, levantou a cabeça na tentativa de fazer o choro secar, engolindo com força as lágrimas. Naquele súbito, a mãe pensou que talvez aquele fosse o milagre do Natal – o milagre da não percepção da tristeza de não se ter nada além de ovo mexido na ceia do Natal.

Então, a mãe agradeceu pelo milagre, pelo sorriso das filhas e pela paz de vê-las brincando, alheias ao mandamento da tristeza.

O milagre durou toda uma infância.

A menina que sondava o mistério do choro da mãe naquela ceia inesquecível só percebeu, finalmente, o motivo do choro quando virou adulta, mas aí já podia carregar o fardo. Não se sabe se algum dia a irmã percebeu.

Vieram outros Natais, nenhum tão pobre, nenhum tão feliz.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

Ouça o episódio mais novo do podcast da Claudia Nina: Delirium Tremens.

Conheça também a página oficial da autora.

Compartilhe: