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Quando o destino do amor é não serenar

Na pequena cidade, o amor do jovem casal começa a se transformar quando ele trocam a rotina simples dos passeios de mãos dadas por uma mais sofisticada.

Claudia Nina | 15 de Março de 2020 às 10:00

kieferpix/iStock -

Começaram a namorar no colégio e, juntos, eram uma eternidade. Tinham cara de eternos, quem visse de fora jamais imaginaria o quanto eram distantes ou o quanto ficariam ainda mais distantes em pouco tempo.

A cidade era pequena e, de mãos dadas, repetiam o mapa do centro, a praça, os lugares de sempre. A poucos metros da esquina da casa dela, havia um trailer que vendia pastel. O melhor do mundo. Um passeio simples que adoravam fazer. O programa preferido de sábado à noite. E, como não tinha cadeiras perto do trailer, embalavam os pastéis e iam comer sentados na escadaria na casa dela. Era um luxo.

Ficavam ali horas e depois saíam pela cidade conversando sobre a vida e os futuros de cada um. Ela já sabia que iria fazer qualquer coisa que não incluísse matemática. Ele nasceu médico desde sempre. Quando se cansavam do pastel, tinha também o cachorro quente do outro lado da praça. Revezavam os prazeres da noite em programas assim.    

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Eram juntos uma eternidade.

Até que um dia ele anunciou:

– Vou passar na sua casa de carro. Estou com o pé doendo.

Carro? Desde quando? Era o carro do pai que ele já podia usar e decidiu que, a partir daquela noite, não andariam mais a pé pela pequena cidade.

Ela ficou animada, colocou seu melhor vestido. Estava emocionada para entrar no carro do namorado e sair sem destino. Nem sabia que o trailer ficaria para sempre esquecido. Assim como o cachorro-quente e os degraus da escadaria. Assim como as conversas alongadas noite adentro, porque no carro tinha o rádio e ao silêncio musical foram se acostumando mais e mais.

Nunca mais comeram pastel.

Aos poucos, a rotina das saídas de noite foi se transformando nisto: uma rotina.

Talvez não tenham desconfiado que foi exatamente naquela primeira noite, em que trocaram as andanças de mãos dadas sob a lua pela burocracia do carro, foi ali que o amor deixou de ser eterno. Cada um foi para um lado para jamais.

O trailer fechou, o dono do trailer morreu.

Tudo acaba neste mundo, até os eternos.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

Leia outros contos de Claudia Nina na coluna Histórias que a vida conta. Conheça também a página oficial da autora.

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