Setembro foi o mês da visibilidade bissexual. Entenda por que é importante debatermos o tema e como a invisibilidade pode afetar as pessoas.
O mês de setembro foi o mês da visibilidade bissexual. Essencial para uma parcela da população que sofre com inúmeras violências – em especial o apagamento e a invalidação de suas próprias identidades, seja dentro ou fora da comunidade LGBT –, a data movimentou e conscientizou muita gente.
Afinal, o que é a bissexualidade?
Segundo relatório produzido nos Estados Unidos pela Comissão de Direitos Humanos de São Francisco (2011), a bissexualidade se define pela capacidade de atração física, emocional e/ou romântica por mais de um sexo/gênero. Esta orientação sexual fala sobre o potencial, mas não requer o envolvimento com um ou mais sexo/gênero.
No entanto, a definição ou utilização do termo é variável entre os membros da própria comunidade, que também engloba pessoas que se declaram como pansexuais e omnisexuais.
Dessa forma, o termo bissexual é compreendido como um guarda-chuva para todas as orientações que se sentem atraídas por mais de uma identidade de gênero.
Invisibilidade e invalidação bissexual
Apesar de cada vez mais pessoas virem a público se declarar como bissexuais, é sistemático o processo de invalidação e apagamento destas identidades. A invisibilidade nesta comunidade está relacionada à falta de reconhecimento e ao fato de a sociedade ignorar evidência de que pessoas bissexuais existem.
Para Kaique Fontes, ativista e integrante do Coletivo Bi-sides, “a invisibilidade é uma ferramenta da bifobia” existente dentro e fora da comunidade, pois “em espaços héteros somos tratados como gays e em espaços gays apenas como héteros”.
Kaique ressalta que existe um problema no que diz respeito a validar a experiência de pessoas que foram ou se disseram bissexuais em algum momento, mesmo quando essas pessoas deixam de se entender dessa maneira. Para ele, o problema específico acontece quando “o discurso das pessoas tende a apagar a bissexualidade de qualquer maneira, de qualquer vivência”.
Além disso, algumas outras formas de preconceito e/ou invalidação da bissexualidade são:
- Dizer que é apenas uma fase a caminho da definição de uma orientação gay ou lésbica estável. A bissexualidade é uma orientação estável em si.
- Recusar-se a aceitar a autodeclaração de um homem ou mulher enquanto bissexual.
- Dizer que bissexuais são pessoas indecisas, que têm questões mal resolvidas e relações incompletas.
- Dizer que bissexuais são pessoas promíscuas e incapazes de ter relacionamentos com apenas uma pessoa.
O impacto da invisibilidade na saúde
O relatório da Comissão de Direitos Humanos de São Francisco também apresenta alguns exemplos baseados em estudos feitos em larga escala sobre o tema da saúde mental das pessoas bissexuais, entre eles:
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- Bissexuais experimentam uma maior tendência a problemas de saúde se comparados à maioria da população, entre os quais tendências a sofrerem depressão ou desordens de humor e ansiedade.
- Bissexuais reportam maiores taxas de hipertensão, baixa saúde física, tabagismo e alcoolismo que pessoas heterossexuais, lésbicas ou gays.
- A maioria das pessoas bissexuais não se assumem para os planos de saúde. Isso significa que essas pessoas podem não estar recebendo informações completas sobre práticas sexuais mais seguras, por exemplo.
- Os programas de prevenção ao HIV e outras DSTs não tem um tratamento específico para pessoas que se relacionam com homens e mulheres.
- Mulheres bissexuais em relacionamentos monogâmicos com homens heterossexuais tem maiores taxas de violência doméstica, em comparação a mulheres de outras categorias.
No Brasil, contudo, ainda não existem pesquisas em larga escala focadas nas demandas da população bissexual em geral, mas os dados dos Estados Unidos servem como um parâmetro para pensar a situação brasileira.
Invisibilidade bissexual na História
A invisibilização de bissexuais é um processo histórico. Esse apagamento é reforçado pela falta de representatividade e de modelos para as novas gerações.
Muitas pessoas famosas foram taxadas como lésbicas ou gays pelas suas relações com pessoas do mesmo sexo, ainda que tivessem mantido relações de longa data com pessoas do sexo oposto.
A lista é extensa e passa por Freddie Mercury, David Bowie, Cássia Eller, Ana Carolina, Renato Russo, Eleanor Roosevelt, Walt Whitman, Anitta, Preta Gil, Angelina Jolie, Jason Mraz, entre outros. Além dos exemplos citados, há também ativistas como Brenda Howard, nos Estados Unidos, e Marielle Franco, no Brasil.
Para a comunidade bissexual, a visibilidade é uma das principais pautas de luta e existência. Maria Leão, ativista, antropóloga e doutoranda com pesquisa sobre o tema no Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS-UERJ) afirma:
“Apesar de existir enquanto identidade social desde os anos 1970 e enquanto comportamento humano desde sempre, a bissexualidade ainda é constantemente apagada e tratada como uma impossibilidade lógica. No entanto, nós, bissexuais, somos uma parte imensa da comunidade LGBTQIA+ que está nas trincheiras das lutas por direitos sexuais desde o começo do movimento homossexual brasileiro. Existimos, resistimos, não continuaremos invisíveis”.