Projetos unem sustentabilidade e segurança alimentar em uma transformação ambiental sem precedentes.
Uma área do Rio de Janeiro que já foi associada ao abandono, ao lixo e até ao consumo de drogas hoje se transformou em um grande símbolo de sustentabilidade e inclusão social, dando lugar a uma das maiores hortas urbanas da América Latina.
Inaugurada em novembro de 2025, a Horta de Sepetiba, na Zona Oeste do Rio, tem uma área total de 4.652 metros quadrados e 194 canteiros, capazes de produzir cerca de seis toneladas de alimentos por ano. A iniciativa faz parte do programa Hortas Cariocas que tem como objetivo a produção de alimentos orgânicos, que geram renda e ajudam a combater a insegurança alimentar em regiões carentes da cidade.
A horta de Sepetiba marca a expansão de iniciativas de ressignificação de espaços abandonados. - Reprodução / Divulgação / Prefeitura do RIo de Janeiro
Embora a horta marque um avanço significativo nas políticas de agricultura urbana, segurança alimentar e sustentabilidade, se engana quem pensa que ela é a única no Brasil; outras duas hortas comunitárias chamam a atenção e batalham pelo título de "Maior Horta Urbana".
Lixão é transformado em maior horta urbana da América Latina
Uma outra área do Rio de Janeiro que hoje abriga uma das maiores hortas urbanas do continente nem sempre teve esse aspecto verde e produtivo. No bairro de Manguinhos, no Rio de Janeiro, um terreno que chegou a ser conhecido por problemas sociais graves e por uma ocupação desordenada, acabou sendo ressignificado.
Segundo relatos de projetos locais de agricultura urbana, o local chegou a reunir milhares de pessoas em situação de vulnerabilidade e usuários de drogas antes da revitalização da área. Com a implantação da horta comunitária, o espaço ganhou um novo propósito e passou a oferecer qualidade de vida para os moradores.
Com aproximadamente 3 hectares, a horta de Manguinhos tem uma produção de 2 toneladas de alimentos orgânicos por mês. (Reprodução/ Facebook)
A transformação começou a partir de iniciativas de agricultura urbana ligadas ao programa Hortas Cariocas, criado pela prefeitura do Rio de Janeiro para aproveitar terrenos abandonados e incentivar a produção agroecológica dentro da cidade.
Em um dos projetos mais emblemáticos, a horta comunitária ocupa uma área equivalente a quatro campos de futebol e reúne dezenas de canteiros onde são cultivados legumes, verduras e ervas. A produção mensal pode chegar a cerca de duas toneladas de alimentos. De acordo com os coordenadores do projeto, uma parte desses alimentos é vendida para ajudar a comunidade e o restante é distribuída para moradores em situação de vulnerabilidade.
Atualmente, o espaço conta com a participação direta de moradores da própria comunidade, que atuam como hortelões responsáveis pelo plantio, colheita e manutenção da área.
A produção do local alimenta centenas de famílias

Além de recuperar o terreno, o projeto também tem impacto direto na segurança alimentar. Estima-se que a produção da horta beneficie cerca de 800 famílias, que recebem alimentos frescos cultivados ali mesmo.
Os alimentos cultivados incluem hortaliças como alface, couve, coentro, cebolinha e outras verduras consumidas diariamente nas casas da região. Para muitos moradores, trabalhar na horta também representa uma oportunidade de renda e aprendizado.
Em Teresina, um gigantesco complexo de hortas urbanas alimenta centenas de famílias

Embora as hortas cariocas – especialmente a de Manguinhos – recebam grande destaque por sua impressionante história de transformação social, a maior horta urbana do Brasil em área está bem longe do Rio de Janeiro. Ela fica no Nordeste brasileiro, em Teresina, capital do Piauí.
Conhecidas como Hortas Comunitárias do Grande Dirceu, essas áreas de cultivo formam um dos projetos de agricultura urbana mais antigos e consolidados do país. A iniciativa existe desde 1987 e, ao longo de décadas, se tornou um exemplo de como a produção de alimentos dentro da cidade pode gerar renda, fortalecer comunidades e ampliar o acesso a alimentos frescos.
A dimensão do projeto impressiona com seus 27 hectares de área cultivada, cerca de nove vezes maior que a horta de Manguinhos. Nesse espaço, 418 famílias de agricultores trabalham em lotes individuais, produzindo hortaliças, verduras e outros alimentos que abastecem mercados e moradores da própria capital piauiense.
O projeto também ganhou reconhecimento internacional. As hortas do Grande Dirceu chegaram a receber um prêmio do Banco Interamericano de Desenvolvimento, que destacou a iniciativa como um modelo de agricultura urbana capaz de gerar renda, inclusão social e segurança alimentar.
No entanto, apesar da dimensão impressionante e do reconhecimento internacional, as hortas de Teresina raramente aparecem quando se fala nas maiores hortas urbanas do país. Um dos motivos é a própria configuração do espaço.
Embora a área cultivada seja contínua e ocupe uma enorme extensão de terra, algumas ruas do bairro atravessam o terreno, criando divisões naturais entre partes da horta. Por isso, especialistas costumam considerar o local mais como um grande complexo de hortas comunitárias do que como uma única horta urbana integrada.
Nesse espaço, diversos agricultores que são cadastrados pela prefeitura cuidam de canteiros e lotes diferentes, o que reforça essa característica de conjunto agrícola dentro da cidade. Mesmo assim, durante muitos anos o local chegou a ser citado como a maior horta urbana da América Latina.
A Horta de Manguinhos, por sua vez, ganhou maior visibilidade nacional por causa de sua poderosa história de transformação social, surgindo em um território marcado por desafios urbanos e se tornando símbolo de revitalização comunitária.
Independente de qual iniciativa seja "a maior", cada uma à sua maneira mostra como a agricultura urbana pode transformar espaços e vidas, seja revitalizando áreas degradadas ou garantindo sustento e dignidade para centenas de famílias.
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