Conheça a história de Mercedes Baptista, primeira bailarina negra do Theatro Municipal do Rio, e entenda como ela transformou a dança e o Carnaval.
Você já conhece a história da bailarina Mercedes Baptista? Ela entrou para a história como a primeira mulher negra a integrar o corpo de baile do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. A sua trajetória é marcada por pioneirismo.
Nascida em Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, em 20 de maio de 1921, a bailarina enfrentou dificuldades econômicas e o racismo ao longo da carreira. Ainda assim, construiu um caminho próprio na dança e se tornou uma das precursoras de um estilo afro-brasileiro.
Mercedes Baptista também transformou o Carnaval ao levar elementos da dança clássica para os desfiles das escolas de samba, ajudando a criar novas possibilidades de movimento nas apresentações.
Sua história passa pelo balé clássico, pelo movimento negro, pela dança moderna, pelo teatro, pelo cinema, pela televisão e pelo Carnaval. E, em diferentes momentos, ela abriu espaço para outras pessoas negras na arte.
Quem foi Mercedes Baptista?
Como mencionamos, Mercedes Baptista nasceu em 1921, em Campos dos Goytacazes. Sua mãe, Maria Ignacia, trabalhava como empregada doméstica. O pai era pouco presente em sua vida.
Ainda jovem, Mercedes se mudou com a mãe para o Rio de Janeiro. A mudança foi uma tentativa de buscar melhores oportunidades. Maria Ignacia continuou trabalhando em casa de família para garantir as condições básicas para as duas.
Antes de se dedicar profissionalmente à dança, Mercedes exerceu diferentes trabalhos. Foi empregada doméstica, funcionária de uma gráfica e operária em uma fábrica de chapéus. O contato com a arte aconteceu quando conseguiu emprego em uma bilheteria de cinema. A experiência despertou nela o desejo de se expressar nos palcos por meio da dança.
Em 1945, Mercedes começou a estudar com a professora Eros Volúsia. A professora pesquisava elementos das culturas africanas e indígenas e os incorporava ao seu trabalho artístico.
Foi Eros Volúsia quem encaminhou Mercedes ao Teatro Municipal. Lá, a jovem continuou sua formação com Maria Olenewa e Yuco Lindberg.
Mercedes Baptista e o Teatro Municipal
Depois de três anos de formação, Mercedes Baptista decidiu participar do disputado concurso para entrar no corpo de baile do Teatro Municipal. Ela foi aprovada em 18 de março de 1948 e se tornou a primeira mulher negra a integrar o corpo de baile da instituição.
A conquista, porém, não significou que os obstáculos tivessem acabado. Apesar de ter sido aprovada no processo seletivo, Mercedes recebeu poucos papéis de destaque nos espetáculos. Ainda assim, suas aparições foram suficientes para que ela começasse a chamar atenção no Rio de Janeiro.
A experiência também expôs uma realidade que marcaria sua trajetória. Mercedes enfrentava discriminação nos bastidores do Teatro Municipal enquanto buscava espaço em uma instituição tradicional da dança brasileira.
Na fonte dedicada à sua trajetória, um episódio do concurso interno de 1948 também aparece como exemplo das dificuldades enfrentadas pela bailarina. Depois de ser aprovada nas primeiras etapas, Mercedes não teria sido avisada sobre a última prova e precisou realizá-la junto com os rapazes.
Ela foi aprovada. Com isso, Mercedes Baptista e o bailarino Raul Soares se tornaram os primeiros negros a ingressar no corpo de baile do Teatro Municipal, de acordo com a pesquisa publicada pela Petite Danse.
Mesmo dentro da instituição, entretanto, Mercedes não era escalada para os balés clássicos de repertório. Sua atuação ficava concentrada em apresentações modernas, balés com temas brasileiros e, principalmente, óperas.
Uma de suas participações mais conhecidas na casa foi na ópera Aida.
A aproximação com o movimento negro
Enquanto construía sua carreira na dança, Mercedes Baptista também se aproximou do movimento negro.
Ela participou de apresentações do Teatro Experimental do Negro, criado por Abdias do Nascimento. O grupo reunia artistas negros e tinha um papel importante na valorização da presença negra no teatro brasileiro.
Foi nesse ambiente que Mercedes conheceu outros nomes importantes da cultura brasileira.
A relação com Abdias do Nascimento se tornou especialmente importante. A trajetória dos dois se cruzou profissionalmente e na luta por maior espaço para artistas negros.
Em 1947, Mercedes também participou do concurso “A mais bela Mulata”, promovido pelo Teatro Experimental do Negro. Ela venceu a competição e, nesse contexto, estreitou sua relação com Abdias.
A experiência no movimento negro ajudou a ampliar os caminhos de Mercedes para além do balé clássico.
A bolsa de estudos que levou Mercedes Baptista aos Estados Unidos
Uma das mudanças mais importantes na carreira de Mercedes aconteceu em 1950.
Durante o Congresso Internacional do Negro Brasileiro, a bailarina e antropóloga norte-americana Katherine Dunham esteve no Brasil. Reconhecida por seu trabalho com a dança negra, Dunham ofereceu uma bolsa de estudos para um bailarino negro brasileiro que se destacasse em suas aulas.
Mercedes Baptista foi escolhida. Ela viajou para os Estados Unidos e estudou na Dunham School of Dance, em Nova York. A experiência teve grande impacto em sua trajetória. No exterior, Mercedes entrou em contato mais profundamente com a dança moderna e com o movimento negro.
Quando voltou ao Brasil, levou esses conhecimentos para seu próprio trabalho. Foi a partir dessa experiência que Mercedes passou a desenvolver uma linguagem de dança afro-brasileira.
Mercedes Baptista criou um balé afro-brasileiro
Em 1953, Mercedes fundou o Ballet Folclórico Mercedes Baptista. A proposta era receber exclusivamente alunos negros. A companhia incorporava movimentos ligados às tradições afro-brasileiras, incluindo elementos relacionados ao candomblé.
O trabalho ajudou a construir uma linguagem própria dentro da dança brasileira. A companhia também alcançou projeção fora do país. O Ballet Folclórico Mercedes Baptista se apresentou em países da América Latina e na Europa.
A escola acabou sendo extinta no final da década de 1960. Mesmo assim, o trabalho de Mercedes não parou. Ao longo da carreira, ela também ajudou a abrir oportunidades para outros artistas negros.
Entre os nomes que receberam oportunidades com o Ballet Folclórico Mercedes Baptista está a cantora Elza Soares, que teve uma de suas primeiras oportunidades cantando com o grupo.
Como Mercedes Baptista mudou o Carnaval
A contribuição de Mercedes Baptista para a dança brasileira não ficou restrita aos palcos. Em 1960, ela trabalhou como carnavalesca na escola de samba Acadêmicos do Salgueiro. Naquele ano, criou uma ala para o desfile que incorporava passos da dança clássica.
A novidade chamou a atenção e ajudou a escola a conquistar o título de campeã. Três anos depois, Mercedes voltou a inovar no Carnaval.
Durante o desfile relacionado ao samba-enredo Xica da Silva, criou uma coreografia para a comissão de frente na qual os bailarinos executavam um minueto. A proposta causou controvérsia naquele momento. Com o passar dos anos, porém, outras escolas começaram a reproduzir a ideia de incorporar elementos coreográficos mais estruturados aos desfiles.
A contribuição de Mercedes ajudou a transformar a maneira como a dança era apresentada no Carnaval. Ela também é considerada, pela fonte da Petite Danse, uma precursora na introdução de passos marcados nos desfiles.
O trabalho de Mercedes Baptista como professora
A partir dos anos 1970, depois do fim do Ballet Folclórico Mercedes Baptista, a coreógrafa passou a se dedicar principalmente ao ensino da dança. Ela se tornou professora do Teatro Municipal e passou a ministrar a disciplina de Dança Afrobrasileira.
Sua atuação como professora também ultrapassou as fronteiras brasileiras. Mercedes deu aulas nos Estados Unidos, incluindo instituições como o Connecticut College, o Harlem Dance Theater e o Clark Center de Nova York.
Em 1980, retomou as atividades de sua escola. Nesse período, apresentou espetáculos de dança afro-brasileira que se tornaram conhecidos, entre eles Orungá e Iemanjá, Visita de Oxalá ao Rei Xangô e Mondongô.
A atuação como professora manteve uma das características mais importantes de sua trajetória: a transmissão de conhecimento e a criação de espaço para que a dança afro-brasileira pudesse continuar sendo desenvolvida.
Por que Mercedes Baptista é importante para a dança brasileira?
Como citamos ao longo do nosso artigo, a importância de Mercedes Baptista está ligada a diferentes momentos de transformação. Ela foi a primeira mulher negra a integrar o corpo de baile do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Também desenvolveu uma linguagem própria de dança afro-brasileira e criou um grupo voltado exclusivamente para alunos negros.
Além disso, levou elementos da dança clássica para o Carnaval e ajudou a transformar as coreografias apresentadas pelas escolas de samba. Sua atuação também teve impacto sobre outros artistas negros. Ao longo da carreira, Mercedes abriu oportunidades e criou espaços para pessoas que encontravam barreiras semelhantes às que ela própria havia enfrentado.
Por isso, sua trajetória pode ser entendida não apenas como a história de uma bailarina, mas também como parte da história da cultura brasileira.
Mercedes Baptista enfrentou um ambiente no qual sua presença era uma ruptura e mesmo com as limitações impostas pelo racismo, continuou construindo sua carreira e encontrou caminhos para transformar a dança a partir de referências afro-brasileiras.
Quando Mercedes Baptista morreu?
Mercedes Baptista morreu em 18 de abril de 2014, aos 93 anos. Nos últimos anos de vida, recebeu homenagens por sua contribuição para a dança brasileira. Ela viveu em um asilo em Copacabana e morreu em decorrência de problemas cardíacos e diabetes.
Sua trajetória, porém, continuou sendo lembrada. Em diferentes cidades, o dia 18 de abril passou a ser celebrado como o Dia da Dança Afro-Brasileira, em homenagem à artista. A iniciativa partiu de um projeto apresentado na Câmara dos Vereadores de Porto Alegre.
Mais de uma década depois de sua morte, o nome de Mercedes Baptista permanece ligado a uma das transformações mais importantes da dança brasileira: a construção de espaço para a cultura afro-brasileira em ambientes que durante muito tempo limitaram a presença de artistas negros.
Sua história mostra que o pioneirismo não aconteceu apenas quando ela entrou no corpo de baile do Teatro Municipal. Ele continuou em cada coreografia criada, em cada aluno formado e em cada espaço que passou a ser ocupado por artistas negros depois de sua passagem.
Mercedes Baptista não apenas fez história na dança brasileira. Ela ajudou a mudar os caminhos que vieram depois dela.